Em vez do diálogo de paz, israelenses vão assistir à TV

Fui recentemente a um jantar em Tel-Aviv a convite de um casal israelense encantador e descobri que meus anfitriões não estavam empolgados com a nova rodada de conversações de paz, mediadas pelos EUA. Queriam mesmo era assistir à final de Nasce uma Estrela, o reality show musical que virou febre em Israel.

Crônica: Roger Cohen, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

Saímos correndo para ver Diana Golbi - uma imigrante russa de 18 anos, nascida "Diana Golbanova" - soltar a voz em sua canção vencedora. A derrotada, uma comandante sefaradi do Exército chamada Idan Amedi, estava nas nuvens e agradeceu a Deus o segundo lugar.

Por falar em Deus, Ele me chocou com a ausência em Tel-Aviv, cidade secular e sensual, distante da loucura do fanatismo. É areia quente ante a pedra dura de Jerusalém. Não há dúvida de que Tel-Aviv faria a paz com Ramallah, outra cidade de cafés e comércio.

Mas a razão é uma visitante apenas ocasional na Terra Santa. Um vasto reino de irracionalidade cerca os movimentos nacionais de judeus e palestinos. É difícil não dar de ombros, como a maioria dos israelenses faz agora, diante dessa última investida americana.

Estamos no fim de um verão quente. A garotada está voltando para a escola e a economia vai muito bem. A violência tornou-se rara. Barreiras protegem israelenses da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. A praia é linda, os políticos, corruptos. Para que serve a política, aliás? "Essa sociedade costumava ser extremamente politizada e não é mais", diz Tom Segev, historiador israelenses. "Israel sofreu uma mudança profunda. As pessoas não confiam na política, não acreditam na paz e os milhões de recém-chegados da antiga URSS não trouxeram valores democráticos. A democracia enfraqueceu."

O governo israelense atual é certamente um produto democrático disforme. Eu prefiro assistir a Nasce uma Estrela do que a suas maquinações. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É EDITOR DO "INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE"

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