BEATRIZ BULLA/ESTADAO
BEATRIZ BULLA/ESTADAO

Em Washington, bolso vazio, mas barriga cheia, apesar de paralisação

Servidores fazem fila para refeição gratuita oferecida por premiado chef espanhol

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 05h00

O chef de cozinha José Andrés, um espanhol responsável por restaurantes estrelados de Washington, decidiu usar um projeto fundado para ajudar pessoas em situação de pobreza extrema para atender servidores federais que estão sem receber pagamento em razão da paralisação parcial do governo americano. 

Ao considerar “um outro tipo de desastre” o fato de 800 mil funcionários estarem sem trabalho, Andrés abriu um restaurante temporário em Washington, na quarta-feira, para oferecer refeições para os funcionários federais levarem para casa. As filas dobraram o quarteirão.

No primeiro dia, o time de Andrés ofereceu 4,4 mil refeições das 11 horas às 18 horas – o dobro do estimado. No segundo, foram 5,5 mil. O cardápio inclui sopa, refeição ou sanduíche, além de frutas e café, tendo opções veganas disponíveis. 

Desastres

O trabalho é feito por um time do World Central Kitchen – que em tradução livre significa Cozinha Central Mundial –, projeto criado pelo chef de cozinha, em 2010, para atender sobreviventes do terremoto que atingiu o Haiti. 

Depois do furacão Maria, em 2017, em Porto Rico, Andrés e sua equipe ofereceram mais de 3,6 milhões de refeições para a população local. De lá para cá, ele levou o projeto a outros lugares, como um abrigo em Tijuana, no México, usado temporariamente como lar de imigrantes que tentam cruzar a fronteira rumo aos EUA.

Um de seus restaurantes de Andrés em Washington ganhou duas estrelas no Guia Michelin e ao menos quatro receberam o selo Bib Gourmand, do mesmo guia, que avalia restaurantes de boa qualidade a preços acessíveis. Um deles, o mexicano Oyamel, já recebeu Barack e Michelle Obama para jantar. 

A 300 metros do Oyamel e na região onde Andrés concentra cinco casas, o chef abriu a cozinha temporária para receber os servidores federais sem salários. A escolha do local teve uma estratégia: exatamente na metade do caminho entre a Casa Branca e o Capitólio, que protagonizam o impasse em torno do orçamento americano responsável pela paralisação. 

Culpa

Sharon Johnson, servidora da Justiça federal, está trabalhando sem receber salário. Ela foi todos os dias no almoço, durante esta semana, no restaurante itinerante de Andrés. “Nenhuma das minhas contas do mês foi paga”, afirma. Ao lado de outras duas colegas do Judiciário federal, Sharon faz coro quando é questionada sobre qual dos envolvidos na paralisação é culpado pela situação atual: “o número 45, claro”, respondem. “Número 45” é uma forma de se referir a Trump sem mencionar o nome do presidente, que é o 45.º a ocupar a Casa Branca. “Os EUA não têm de construir um muro”, afirmou Sharon.

Sanduíches

Diane Lynne é servidora da agência federal de proteção ambiental e também foi almoçar no restaurante de Andrés após saber da iniciativa pelo noticiário. “Não posso pagar o aluguel. Não tenho como pagar minhas contas. O José Andrés é incrível, todos seus restaurantes estão dando sanduíches de graça”, afirmou Lynne. 

Antes de abrir o restaurante itinerante, quando surgiram as primeiras notícias de que a paralisação do governo americano estava afetando os salários dos servidores, Andrés começou a distribuir sanduíches em seus restaurantes em Washington. A cozinha temporária deve funcionar até que os servidores voltem a receber salários. 

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