Saul Loeb/AFP
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Em Washington, Hu se compromete a não converter China em ''ameaça''

No último dia de visita a Washington, que incluiu discurso ao Congresso, líder chinês promete que não desencadeará corrida armamentista com os EUA e reafirma interesse em cooperar com americanos em temas econômicos e político-estratégicos

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

A China prometeu ontem não desencadear uma corrida armamentista com os EUA nem ameaçar sua vizinhança com uma política expansionista. Expressas ontem, em conferência do Conselho Empresarial China-EUA, as novas promessas do presidente chinês, Hu Jintao, foram além de suas mensagens em favor do "respeito mútuo" da véspera.

Hu, porém, advertiu novamente os EUA a não se intrometerem nos conflitos de Pequim com Taiwan e com o Tibete. "Nós não nos engajaremos numa corrida armamentista nem nos converteremos em ameaça militar para nenhum país", disse Hu, para assinalar em seguida que a China "nunca perseguiu uma política hegemônica ou expansionista" na Ásia. "Questões relacionadas a Taiwan e ao Tibete dizem respeito à soberania e à integridade territorial da China. Elas tocam o sentimento de 1,3 bilhão de chineses."

Hu reafirmou o interesse em cooperar com os EUA em questões econômicas e político-estratégicas no Pacífico e no Sul da Ásia. Sem dar nenhum sinal de mudança na política cambial chinesa, pela qual mantém a moeda artificialmente desvalorizada, ele se disse comprometido a dar impulso a uma "economia socialista orientada para o mercado" e a uma "democracia socialista".

Com o discurso aos empresários, Hu encerrou sua passagem por Washington e embarcou para Chicago, onde visitará uma fábrica de capital chinês e uma escola. Na manhã de ontem, entretanto, ele passou por uma dura prova no Congresso americano, onde foi cobrado a pressionar a Coreia do Norte, a combater a pirataria no seu país e a respeitar os direitos humanos e as regras do comércio internacional.

Novo presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner, já havia constrangido a delegação chinesa com sua recusa em participar do jantar de gala oferecido a Hu por Obama na Casa Branca, na noite de quarta-feira. Ontem, acompanhado por outros dez deputados, Boehner deixou claro que, sem mudanças nessas áreas, a Câmara não permitirá mais abertura do mercado americano a produtos chineses.

Hu não demonstrou irritação e fez uma palestra de 20 minutos sobre o combate à pirataria. Ele foi evasivo ao ser cobrado pela líder da minoria democrata na Câmara, Nancy Pelosi, sobre os direitos humanos. Pelosi abordara a prisão do Prêmio Nobel da Paz de 2010, Liu Xiaobo, a ausência de liberdade religiosa e a política do filho único, causadora de abortos.

O contato de Hu com os parlamentares foi um evento incontornável de sua agenda nos EUA. Como realizou uma "visita de Estado", o protocolo previu o jantar na Casa Branca, mas exigiu sua presença no Congresso. Ciente das críticas inevitáveis, o presidente chinês apresentou-se como o avalista final do pacote de US$ 48 bilhões em investimentos chineses e em contratos de exportação, que criará mais de 235 mil empregos nos EUA.

No início da semana, a presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Ileana Ros-Lehtinen, comparara Hu aos "antigos imperadores" da China. Boehner afirmou que a China é uma "ameaça" aos EUA. O líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid, chamou Hu de "ditador". Há dois meses, em sua campanha para a reeleição, Reid sublinhou aos eleitores de Nevada seu empenho em trazer os investimentos de duas companhias chinesas ao Estado. Ontem, ele preferiu apertar a mão de Hu com um sorriso.

PRINCIPAIS PONTOS

Expansão militar: A China tem feito grandes investimentos na modernização de suas Forcas Armadas. No entanto, Hu Jintao prometeu não desencadear uma corrida armamentista com os EUA nem ameaçar sua vizinhança com uma política expansionista

Taiwan e Tibete: Durante visita a Washington, Hu advertiu os EUA a não se intrometerem nos conflitos de Pequim com Taiwan e com o Tibete

Yuan: O grau de desvalorização do yuan em relação ao dólar é um ponto de permanente atrito nos laços bilaterais entre China e EUA. A questão, porém, não foi discutida abertamente durante a visita e Hu não deu nenhum sinal de mudança na política cambial chinesa

Coreia do Norte: Hu foi cobrado pelos EUA a pressionar mais o regime de Pyongyang, do qual é um importante aliado

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