(Catherine Avalone/New Haven Register via AP)
(Catherine Avalone/New Haven Register via AP)

Em Yale, alunos pedem 'acerto de contas' em meio a acusações de abusos

Grupo de estudantes enviou e-mail virulento para colegas e a faculdade afirmando que a nomeação de Brett Kavanaugh havia exposto "toda a cultura de elitismo legal da escola e sua obsessão com a proximidade do poder'

David W. Chen / The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 05h00

Alunos e membros da faculdade de Direito da universidade de Yale lotaram a maior igreja do campus organizando um debate sobre as acusações de abuso sexual feitas contra o novo indicado para a Suprema Corte, o juiz Brett M. Kavanaugh, que se formou nessa universidade em 1990.

A reunião se realizou depois de uma manifestação que provocou o cancelamento de várias aulas e também protestos em Washington onde dois alunos foram presos, além de um  e-mail virulento que um grupo de estudantes enviou para seus colegas e a faculdade afirmando que a nomeação de Kavanaugh havia exposto “toda a cultura de elitismo legal da escola e sua obsessão com a proximidade do poder”.

Trata-se de uma mudança abrupta no campus. Dias depois da indicação de Kavanaugh, em junho, o website da universidade alardeou que, se confirmado no posto, ele seria o quarto membro da Suprema Corte que freqüentou Yale. A reitora da faculdade de Direito, Heather K. Gerken,  qualificou-o como “um amigo de toda a comunidade da faculdade de Yale” e outros professores também o elogiaram.

Agora, depois das recentes acusações ligadas à escola, os autores do e-mail afirmaram que muitos estudantes se sentiam mais “contrariados, desiludidos e frustrados com a ambivalência e abdicação moral da instituição, da sua faculdade e sua administração”. O furor envolvendo a indicação foi “o momento de um acerto de contas para todos nós”.

A Faculdade de Direito de Yale, considerada uma das melhores do país, sempre se destacou como um baluarte privado e altamente liberal com um histórico sem igual de alunos ali formados ocupando cargos em tribunais e em escritórios de advocacia prestigiados que atendem a elite. E o auge da realização, claro, é uma nomeação para a Suprema Corte, caso em que Kavanaugh viria se juntar aos ex- alunos de Yale Clarence Thomas, Samuel A. Alito Jr. E Sonia Sotomayor.

Mas hoje Yale está num processo de mea-culpa existencial inusitadamente intenso, provocado pelas acusações contra Kavanaugh, os paroxismos do movimento #MeToo e um corpo discente mais diverso e politizado,  incomodado com os privilégios da chamada linhagem da Ivy League, mesmo se ela persistir.  A escola, afirmam os ativistas estudantis, tem obsessão com suas credenciais, fingindo não ver as preocupações sobre o comportamento de seus  ex-alunos e a faculdade.

O que aumentou as tensões foi a confluência de outras controvérsias de caráter sexual e de status envolvendo a faculdade. Na semana passada o The Guardian informou que Amy Chua, uma das professoras estrela da faculdade, disse às suas alunas que elas precisavam ter um “certo look” para trabalhar para Kanauvagh, acusação que ela rejeitou.

Seu marido, Jed Rubenfeld, também professor de prestígio, disse estar sob investigação pela faculdade, embora não saiba a razões que a escola não comentou. Críticos disseram que a faculdade deveria saber a respeito de Alex Kozinski, um juiz federal conhecido que se demitiu abruptamente no ano passado depois de várias mulheres o acusarem de assédio sexual.

A administração da faculdade informou que sua reação inicial à indicação de Kavanaugh foi manter a mesma posição no caso de outras indicações envolvendo ex-alunos, incluindo a de Sotomayor, uma juíza liberal e que pretendia ser não partidária. Entre os membros da escola que elogiaram Kavanaugh estava Akhil Reed Amar, constitucionalista liberal que posteriormente escreveu um artigo no The New York Times defendendo a sua indicação.

A reação da faculdade foi silenciosa, embora um grupo de alunos e ex-alunos tenha assinado uma carta aberta denunciando o que chamou de endosso da escola e afirmando que Kavanaugh, um conservador, era “uma ameaça para os mais vulneráveis”.

Alyssa Peterson, aluna do terceiro ano de Direto foi uma alunas  que assinou a carta. Segundo ela, a faculdade de Direito “tinha muita coisa para prestar contas”.

Mas com o início do semestre de outono e as acusações feitas por Christine Blasey Ford e por uma aluna da sua classe,  Deborah Ramirez, a ira dentro da escola aumentou. Muitos fizeram comparações com as audiências para confirmação de Clarence Thomas, em1991, quando outra formanda de Yale, Anita Hill, o acusou de assédio sexual. O juiz Thomas também é um conservador.

Indagada, a reitora Gerken  disse que “nossos alunos estão defendendo os valores mais sólidos desta instituição e os estamos ouvindo atentamente. Este é um momento de reflexão  e faremos o melhor possível para responder aos apelos dos nossos alunos e trabalhar em parceria com eles para ficarmos à altura desses valores”.

O clima mudou tanto que os alunos de Direito em Yale que se descrevem como conservadores e assinaram petição em apoio a Kavanaugh dizem que não ousam se manifestar publicamente temendo ser rejeitados.

“Seria uma explosão nos manifestarmos publicamente a respeito”, disse um aluno do segundo ano. “Se você não acredita nas afirmações da Dra. Ford então você é sexista, um indivíduo maligno”.

Na semana passada os estudantes colocaram cartazes no campus e organizaram protestos na segunda-feira e o debate da terça-feira, aberto apenas a alunos de Direito e da faculdade.

Harold Hongju Koh, professor e ex-diretor da faculdade de Direito disse que o tumulto foi de tal magnitude como poucos que presenciou desde que começou a lecionar em Yale em 1985.

“É um momento tenso que observamos no país. E também na universidade. Mas acho que é bastante saudável e necessário. As instituições de elite estão muito acomodadas. Afinal, quem somos nós? O que defendemos? Estamos sendo fiéis aos nossos valores? É uma luta constante para definir a identidade da instituição à medida que os tempos mudam.” / Tradução de Terezinha Martino





 

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