Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Embaixada da China rebate declaração de Eduardo Bolsonaro sobre coronavírus: ‘contraiu vírus mental’

'Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como figura pública especial. Além disso, vão ferir a relação amistosa China-Brasil', afirmou embaixador

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 22h52
Atualizado 19 de março de 2020 | 10h20

BRASÍLIA - O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, usou as redes sociais nesta quarta-feira, 18, para exigir retratação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que mais cedo postou mensagem nas quais culpa o país pela pandemia do novo coronavírus. Wanming disse que o filho do presidente Jair Bolsonaro feriu a relação amistosa com o Brasil e “precisa assumir todas as suas consequências”.

“A parte chinesa repudia veementemente as suas palavras, e exige que as retire imediatamente e peça uma desculpa ao povo chinês. Vou protestar e manifestar a nossa indignação junto ao Itamaraty”, avisou o diplomata.

O embaixador publicou uma sequência de mensagens em que repudia a atitude de Eduardo Bolsonaro e aciona o chanceler Ernesto Araújo e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Pelo Twitter, Maia pediu desculpas à China e ao embaixador Wanming em nome da Câmara dos Deputados pelas “palavras irrefletidas” de Eduardo Bolsonaro. O presidente da Câmara afirmou, ainda, que a atitude do filho do presidente “não condiz com a importância da parceria estratégica Brasil-China e com os ritos da diplomacia”.

“As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês”, prosseguiu o embaixador. A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Só no ano passado, comprou US$ 65,4 bilhões em produtos brasileiros.

“Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como figura pública especial. Além disso, vão ferir a relação amistosa China-Brasil. Precisa assumir todas as suas consequências", protestou o embaixador.

Em postagem no Twitter, Eduardo Bolsonaro republicou a mensagem de outro usuário, que escrevera: “A culpa pela pandemia de coronavírus no mundo tem nome e sobrenome. É do Partido Comunista Chinês”. O parlamentar ainda acrescentou uma comparação com o desastre nuclear de Chernobyl e disse que o governo Xi Jinping, chamado por ele de “ditadura”, escondeu a epidemia.

“Quem assistiu (sic) Chernobyl (série sobre o desastre nuclear) vai entender o que ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu o deputado.

Eduardo Bolsonaro preside a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados e tem influência direta na condução da política externa brasileira. Eduardo é declaradamente fã do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que também havia se referido ao coronavírus como “vírus chinês”. Na terça-feira, 17, Trump defendeu apelidar a covid-19 como "vírus chines". "Não é racismo. Ela veio da China", afirmou. Na visão do presidente americano, a pandemia ocorre no momento em que a economia da China passa por uma desaceleração. 

Além de ser o principal parceiro comercial do Brasil, a China trava uma disputa comercial com os Estados Unidos como principal potência econômica global. Um dos focos é pela entrada em novos mercados, como o Brasil, da tecnologia 5G chinesa.

O perfil oficial da embaixada chinesa no Twitter também protestou contra o filho do presidente: “As suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizade entre os nossos povos”.

A embaixada desqualificou os conhecimentos do deputado em política externa. “Lamentavelmente, você é uma pessoa sem visão internacional nem senso comum, sem conhecer a China nem o mundo. Aconselhamos que não corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de tropeçar feio.”

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