Embaixada protege rival de Mugabe

Tsvangirai busca proteção na missão holandesa em Harare e pede organização de novas eleições no Zimbábue

AP, AFP E REUTERS, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2008 | 00h00

O líder opositor no Zimbábue, Morgan Tsvangirai, está refugiado na Embaixada da Holanda em Harare desde que anunciou, no domingo, que abandonaria a campanha para o segundo turno da eleição presidencial, marcada para sexta-feira. A chancelaria holandesa afirmou que Tvangirai ainda não pediu asilo político, mas disse que ele é bem-vindo para ficar o quanto quiser. "Ele pediu para ficar porque estava preocupado com sua segurança", afirmou o porta-voz da missão holandesa, Rob Dekker. "É nossa obrigação dar assistência a Tsvangirai", disse o chanceler holandês, Maxime Vergahen.No domingo, Tsvangirai anunciou o abandono da campanha porque, segundo ele, seus partidários arriscariam suas vidas se fossem votar no dia 27. O opositor Movimento pela Mudança Democrática (MMD) afirma que mais de 90 de seus membros foram mortos desde o primeiro turno das eleições, em 29 de março. Organizações de direitos humanos responsabilizam o presidente Robert Mugabe - no poder desde 1980 - pela onda de violência que toma conta do país. Ele também é acusado de perpetrar uma campanha para acabar com a rede de apoio de Tsvangirai no país.Mugabe rejeita as acusações, mas, na semana passada, afirmou que o país "jamais" seria governado pela oposição. Tsvangirai disse-se disposto a negociar com Mugabe uma solução para a crise, desde que ele se comprometa a pôr fim à violência no Zimbábue.O líder opositor pediu ontem à comunidade internacional que declare "nulas" as eleições no país e exija a organização de uma nova votação. Horas depois, o Conselho de Segurança da ONU condenou por unanimidade a "campanha de violência" de Mugabe contra a oposição e declarou que não há condições para eleições livres e justas no país. O governo, porém, afirmou que "é tarde demais" para cancelar a votação de sexta-feira. "No que nos diz respeito, a eleição será levada a cabo na sexta", disse o embaixador do Zimbábue na ONU, Boniface Chidyausiku. Apesar de Tsvangirai ter-se retirado da disputa, seu nome continuará nas cédulas - o que, segundo analistas, pode ser usado pelo governo para desmoralizar a oposição. PRISÃO DE OPOSITORESOntem, a polícia invadiu a sede do MMD em Harare sob a alegação de que estava investigando a violência política no país. De acordo com o porta-voz da polícia Wayne Bvudzijena, 39 partidários de Tsvangirai foram presos e levados para um "centro de reabilitação" para serem interrogados. Nelson Chamisa, porta-voz da oposição, afirmou que 60 pessoas foram presas - na maioria, mulheres e crianças que se refugiaram no local para se proteger da violência. Chamisa disse que a polícia também levou computadores e móveis da sede do partido.Governos do mundo todo repudiaram a situação. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, disse que o resultado da votação não legitimará o poder de Mugabe. "Ao renunciar aos mais básicos princípios da governança e da proteção de seu povo, o governo do Zimbábue tem de ser responsabilizado pela comunidade internacional", afirmou. O governo holandês, maior doador de ajuda ao Zimbábue, pediu que a ONU, a União Européia e Estados vizinhos discutam novas estratégias para o país.CRONOLOGIA 1980 - Com o fim do domínio britânico, Robert Mugabe é eleito primeiro-ministro1987 - Mugabe cria o partido Zanu-PF, muda a Constituição para acabar com o parlamentarismo e torna-se presidente 1988 - Morgan Tsvangirai ganha destaque como líder sindical1998 - Crise econômica desata onda de protestos1999 - Tsvangirai funda o Movimento pela Mudança Democrática2000 - Nova Carta é rejeitada nas urnas, na primeira derrota eleitoral de Mugabe. Aliados do governo expulsam fazendeiros brancos de suas terras.2001 - Aprovadas leis mais duras para a imprensa 2002 - Mugabe vence as eleições e Tsvangirai denuncia fraude. Europa proíbe viagens e congela bens de aliados do presidente, que expropria fazendeiros brancos2005 - Zanu-PF vence eleição parlamentar sob denúncias de fraude2006 - Inflação anual chega a 1.000%2007 - Tsvangirai é espancado na prisão. Cerca de 7.500 comerciantes e empresários são detidos por não reduzir preços2008 - Após o primeiro turno das eleições presidenciais e parlamentares, oposição é perseguida. Tsvangirai renuncia à campanha para o segundo turno e se refugia na embaixada holandesa

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