Embaixador: Brasil quer promover diálogo com Coreia do Norte

Apesar de adiados planos de embaixada, diplomata designado para Pyongyang espera romper 'isolamento' do país

Marina Wentzel *, BBC

26 Maio 2009 | 17h30

O diplomata Arnaldo Carrilho, designado embaixador do Brasil em Pyongyang, afirma que a intenção do governo brasileiro ao estabelecer uma representação na Coreia do Norte é ajudar a retirar o país asiático do "isolamento" e desobstruir os caminhos para o diálogo. "O Brasil surgiria, e eu pretendo ainda que surja, como um proponente do diálogo", disse Carrilho em entrevista à BBC Brasil. "O que queremos é fazer a República Popular Democrática da Coreia do Nortesair do esconderijo onde está, desse isolamento onde está."

 

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A inauguração da embaixada brasileira em Pyongyang estava prevista para a próxima sexta-feira, dia 29, mas foi suspensa até segunda ordem por conta do agravamento das tensões na Península Coreana após o teste nuclear norte-coreano realizado na segunda-feira.

Apesar do interesse do Brasil na região, o professor de Relações Internacionais da Universidade de São Carlos, José Augusto Guilhon, avalia que a participação brasileira em grandes temas da política internacional "ainda é ilusória".

Na avaliação de Guilhon, o Brasil não tem capacidade comercial, política ou militar para interferir nos assuntos que dizem respeito à Coreia do Norte.

Momento de "cautela"

De acordo com o embaixador Arnaldo Carrilho, os planos brasileiros de abrir a embaixada na Coreia do Norte foram adiados até que o Itamaraty dê novas instruções. "O chanceler Celso Amorim me pediu que não partisse logo, que deixasse ver o que vai acontecer", afirmou Carrilho,que está hospedado junto ao corpo diplomático brasileiro em Pequim, na China. "Estamos esperando a resolução do Conselho (de Segurança da ONU)."

"Os canais de interlocução da Coreia do Norte estão meio entupidos", diz Carrilho. "Com essa bomba, então, ficou muito entupidinho o negócio, então a ideia é o Brasil chegar e ajudar". Na avaliação do professor brasileiro de relações internacionais Soleiman Diaz, que leciona em Seul, a atitude do Brasil de adiar a abertura da embaixada é necessária porque "o momento é de cautela."

"O Brasil estariamandando uma mensagem errada ao abrir uma embaixada em um país que está desafiando o resto do mundo", avalia Diaz. "Estabelecer esta embaixada é oficializar o apoio a uma indústria bélica, então não é o momento mais adequado."

Para o professor José Augusto Guilhon, ao planejar abrir uma embaixada em Pyongyang, a política externa brasileira procura demonstrar sua "pretensão" de mudar as correlações de força no cenário internacional.

 

"A política externa brasileira age no sentido de tentar desalojar os países ricos de sua primazia", diz o professor. "É uma pretensão muito grande". E, na opinião de Guilhon, o "grande potencial" do Brasil se concentra em outras áreas - por exemplo, na intermediação entre osEstados Unidos e a América Latina.

Participação brasileira

O diplomata brasileiro designado para Pyongyang ressalta que, para o Brasil poder ajudar na prática, é necessário que a Coreia do Norte convide o país a participar das negociações de desarmamento. "O que estamos tentando com a embaixada em Pyonyang é demonstrar uma atitude 'possibilista'", diz Arnaldo Carrilho. "É ver até que ponto existe a possibilidade de evitarmos este rompimento da adoção das resoluções internacionais."

O embaixador acrescentou ainda que, por enquanto, o Brasil não poderia fazer parte das negociações de desarmamento que envolvem o grupo de seis países formado pelas Coreias do Norte e do Sul e por Japão, China, Rússia e Estados Unidos.

"Nós não temos esta intenção manifesta, nem poderíamos apresentar-nos como candidatos, tendo em vista que ser observador do grupo dos seis países depende de um convite deles", afirma Carrilho. "Não podemos nos fazer convidar."

(Colaborou Fabrícia Peixoto, da BBC Brasil, em Brasília)

 

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