ALEX WONG / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
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Embaixador britânico nos EUA renuncia após polêmica por críticas a Trump

Em documentos sigilosos tornados públicos, Kim Darroch havia dito que é 'necessário apresentar argumentos simples, até mesmo rudes' para se comunicar com presidente americano; ele deixa o cargo por considerar que não pode mais exercer a função como deveria

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2019 | 08h27
Atualizado 10 de julho de 2019 | 10h26

LONDRES -  O embaixador britânico nos Estados Unidos, Kim Darroch, apresentou nesta quarta-feira, 10, sua renúncia por conta da polêmica suscitada pelo vazamento de documentos nos quais qualificava o governo de Donald Trump como "disfuncional" e "inepto".

Em comunicado, Darroch afirmou que decidiu apresentar a renúncia para pôr fim às conjeturas sobre sua posição à frente da embaixada do Reino Unido em Washington, algo que torna "impossível" a realização de seu trabalho diplomático.

"A situação atual me impede de cumprir minha função como desejaria", afirmou Darroch em uma carta enviada para Simon McDonald, chefe do serviço diplomático britânico. "Nestas circunstâncias, o caminho responsável a seguir é permitir a nomeação de um novo embaixador", completou.

Nos telegramas diplomáticos enviados para Londres de Washington, alguns dos quais remontavam a 2017, Darroch descrevia o presidente americano como "instável" e "incompetente". Esse veterano diplomata de 65 anos também se mostrava muito crítico em relação a seu governo.

A publicação no domingo por parte do jornal britânico "The Mail" dessas mensagens deflagrou a ira de Trump no Twitter esta semana. "Não trataremos mais com ele", tuitou o presidente sem deixar claro se o embaixador poderia continuar desempenhando suas funções.

Em uma escalada verbal, na terça-feira, Trump chamou o embaixador britânico de "estúpido" e "imbecil pretensioso". Um dos candidatos ao cargo de primeiro-ministro, o ministro britânico das Relações Exteriores, Jeremy Hunt, criticou as palavras de Trump como "desrespeitosas e falsas".

"Muito lamentável"

A decisão do embaixador foi interpretada por muitos em Londres como uma rendição humilhante à pressão de Trump e com graves consequências para a diplomacia britânica.

"Se o Reino Unido não consegue proteger as comunicações diplomáticas e isso custa a carreira das pessoas, quando a única coisa que fazem é levar adiante os desejos do governo, vamos ver a qualidade dos nossos emissários se degradar e sua influência diminuir, o que vai enfraquecer nosso país", considerou o presidente da Comissão Parlamentar de Relações Exteriores, Tom Tugendhat.

Depois de servir em Bruxelas de 2007 a 2011, Darroch chegou aos Estados Unidos em janeiro de 2016, antes da vitória de Trump nas eleições presidenciais daquele ano.

A primeira-ministra Theresa May lamentou sua decisão de deixar o cargo. "É muito lamentável que tenha considerado necessário abandonar seu posto de embaixador em Washington", afirmou a premiê na sessão semanal de perguntas no Parlamento.

Na opinião da líder conservadora, "um bom governo depende da capacidade de seus funcionários de dar conselhos sinceros e completos". "Quero que todos os nossos funcionários tenham a confiança necessária para fazer isso", insistiu.

O líder da oposição, o trabalhista Jeremy Corbyn, disse "lamentar a demissão de Kim Darroch" e chamou o Parlamento para lhe dar todo seu apoio por seus "serviços honoráveis e de qualidade".

Já o ex-ministro das Relações Exteriores e grande favorito para suceder a May na liderança do Partido Conservador e do Executivo, Boris Johnson, evitou apoiar o diplomata na terça à noite durante um debate com Hunt pela televisão.

O governo britânico abriu uma investigação para encontrar o responsável pelo vazamento. / EFE e AFP

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