Adriano Machado / Reuters
Adriano Machado / Reuters

Embaixador da China pede 'perspectiva de longo prazo' ao comentar críticas de bolsonaristas ao País

Yang Wanming reforçou que momento é de superar diferenças; China, maior parceiro comercial do Brasil, é alvo de lideranças ligadas ao presidente Bolsonaro

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2020 | 20h15

O embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, afirmou na sexta-feira, 5, que os críticos contumazes do país asiáticos devem ter uma perspectiva de longo prazo. "Aconselhamos aos críticos contumazes da China e das relações sino-brasileiras a considerar mais os sentimentos dos dois povos e os interesses da parceria e amizade China e Brasil", afirmou Wanming. Ele participou de um painel e de uma entrevista na qual afirmou que a crise do coronavírus é transitória. "É importante ter uma perspectiva de longo prazo porque a pandemia e as dificuldades são, hoje, transitórias. A razão pela qual a China e o Brasil são parceiros estratégicos é que não há atritos históricos nem conflitos de interesse das duas nações."

As declarações de Wanming foram feitas depois de ele ser questionado sobre as críticas feitas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, e pelo presidente Jair Bolsonaro na reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo foi divulgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O embaixador não mencionou nenhum dos três, mas respondeu apenas a duas perguntas de jornalistas e uma delas foi sobre as posições do governo e dos bolsonaristas a respeito da China. A outro foi sobre a nova legislação de segurança em Hong Kong, para qual Wanming afirmou ser interesse do governo de Pequim manter a fórmula de "um país, dois sistemas".

Wanming lembrou que o Brasil é um grande parceiro comercial da China, o primeiro da América Latina a manter um comércio com o país asiático de mais de US$ 100 bilhões.  De fato, desde 2009, Pequim é o maior parceiro comercial do Brasil. Apesar disso, lideranças bolsonaristas têm insistido em criticar a China, em alinhamento com a política do presidente americano Donald Trump. Mais recentemente, a pandemia causada pelo vírus Sars-Cov-2 tem sido o motivo para os ataques ao governo chinês. Para Wanming, é importante realçar que os interesses dos dois países são comuns até em função da complementaridade de suas relações comerciais.

O embaixador afirmou ainda que neste momento é mais importante superar as diferenças de cor de pele, história, cultura e sistema sociais para construir "uma comunidade de futuro compartilhado". Wanming enfatizou a importância do multilateralismo no mundo pós-pandemia e afirmou que seu governo defende a reforma e o aprimoramento das organizações multinacionais. Ele reafirmou a política de cooperação da China, que ajudaria 150 países e organismos internacionais, como instrumentos de sua diplomacia. De acordo com ele, essa cooperação não busca "vantagens geopolíticas ou econômicas, muito menos impor quaisquer condições políticas".

O embaixador afirmou que as perspectivas de crescimento do comércio multilateral são boas - este não teria sido abalado nem mesmo pela pandemia. E refutou que o recente acordo comercial da China com os Estados Unidos possa prejudicar as vendas do Brasil para a China. Wanming reafirmou as projeções do Partido Comunista Chinês de crescimento da economia neste ano, sem fixar uma meta. E disse que o aumento da renda per capita dos chineses deve levar a um aumento do consumo de mercadorias produzidas pelo agronegócio brasileiro.

Por fim, o embaixador foi enfático ao defender a política de Pequim para Hong Kong e alertou que seu governo não aceitará nenhuma interferência estrangeiras em seus negócios internos.

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