Embaixador do Brasil só volta a Israel após trégua

Apesar de pedido de desculpas por declaração sobre 'anão diplomático', normalização só deve vir após fim de ação em Gaza

LISANDRA PARAGUASSU / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2014 | 02h37

O pedido de desculpas do presidente de Israel, Reuven Rivlin, à presidente Dilma Rousseff, na segunda-feira, agradou ao governo brasileiro, mas não foi suficiente para a normalização das relações diplomáticas.

Por enquanto, o embaixador em Tel-Aviv, Henrique Sardinha Pinto, chamado para consultas três semanas atrás, continuará em Brasília. No Palácio do Planalto, informa-se que o embaixador poderá voltar "em breve" - desde que seja duradoura a trégua entre Israel e o Hamas, iniciada nesta semana.

O governo ainda não definiu a volta de Sardinha Pinto a Tel-Aviv, segundo apurou o Estado, por ela estar condicionada não apenas à melhora na relação com Israel, mas ao fim dos ataques a Gaza. O Itamaraty observa os desdobramentos da trégua e as negociações no Egito. Enquanto isso, o embaixador está em Brasília, mas foi instruído a não falar sobre a situação para não alimentar a crise.

A inesperada desculpa formal de Rivlin pela declaração do porta-voz da sua chancelaria, Yigal Palmor - que chamou o Brasil de "anão diplomático" -, foi bem recebida pela presidente Dilma. Nos últimos dias, a ordem no Itamaraty era não alimentar o assunto. O telefonema de Rivlin serviu para "desanuviar" o ambiente. Na conversa com o israelense, Dilma repetiu que o Brasil condena os ataques do Hamas a Israel, mas seu governo considera "desproporcional" a resposta e voltou a defender o cessar-fogo.

No governo, avalia-se que o pedido de desculpas de Rivlin parece ter sido uma atitude isolada do presidente israelense.

Ontem, o porta-voz Palmor não comentou diretamente a situação. Mas em sua conta na rede de microblogs Twitter reproduziu a postagem do jornalista israelense Yossi Melman: "Israel não tem orgulho nacional. Nosso presidente se desculpou pelas duras palavras do porta-voz do nosso Ministério das Relações Exteriores depois de o Brasil ter chamado de volta seu embaixador".

Reportagem do jornal israelense Haaretz afirma que o pedido de desculpas de Rivlin teve razões puramente econômicas e ocorreu à revelia da chancelaria do país. O presidente teria sido pressionado por representantes das indústrias de aviação israelenses, temerosos de que um acordo de venda de aeronaves ao Brasil fosse afetado pela crise nas relações diplomáticas.

Fontes do Ministério da Defesa, no entanto, garantem que não há compra de aeronaves em andamento com Israel. Os contratos existentes são para fornecimento de equipamentos para aviões brasileiros, mas com empresas israelenses instaladas no Brasil e com sócios locais, como a AEL Sistemas e a Elbit.

Nos próximos meses, o único grande contrato seria o de um novo avião cargueiro que está sendo desenvolvido pela Embraer, o KC390, para o qual a AEL deve fornecer equipamentos. O negócio, no entanto, não seria afetado, já que os cargueiros já estão em construção. A presidente Dilma assinou há três meses a primeira compra, de 28 aeronaves, para as Forças Armadas. Além disso, a empresa têm sócios brasileiros.

Planalto. O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse que o pedido de desculpas de Rivlin põe fim ao mal-estar provocado por Palmor.

"Foi uma conversa muito simpática onde ele expôs as razões do governo de Israel e a presidente expôs por que tínhamos adotado a posição que adotamos", afirmou Garcia. De acordo com o assessor, a posição do governo sobre o conflito não mudou e Brasil e Israel manterão as relações diplomáticas. "Ficou claro concretamente que há disposição dos dois governos de manter a relação histórica."

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