Embaixador líbio no Brasil manifesta lealdade a rebeldes

Provavelmente o último defensor do coronel Muamar Kadafi no Brasil, o embaixador líbio Salem El Zubeide entregou os pontos e declarou nesta sexta-feira sua lealdade ao Conselho Nacional de Transição (CNT).

LISANDRA PARAGUASSU, Agência Estado

26 de agosto de 2011 | 19h14

Depois de uma semana de resistência, o diplomata convocou a imprensa para dizer que finalmente havia concluído que o povo líbio está ao lado do CNT e vai "servir aos interesses do povo".

Isolado, o embaixador leu uma declaração, respondeu a algumas perguntas e logo depois deixou o prédio sozinho, dirigindo seu próprio carro. Sem clima para continuar despachando na embaixada, voltou para a residência oficial, onde tem permanecido desde segunda-feira.

"Depois de várias semanas a estudar a situação no meu país, em consulta com vários colegas ao redor do mundo, cheguei à conclusão que o povo líbio está no lado do Conselho Nacional de Transição. Portanto, quero declarar minha lealdade ao Conselho, continuando a funcionar como embaixador líbio no Brasil, servindo aos interesses do povo líbio, à disposição do CNT, até que alguém seja designado para desempenhar esse papel", disse.

Visivelmente abatido, um tanto constrangido e com dificuldades de falar português, o embaixador não teve a ajuda de um tradutor, como em outras conversas com a imprensa. Apenas um diplomata líbio estava na sala, mas como um cético espectador.

Zubeide perdeu o controle da embaixada no mesmo dia que os rebeldes invadiram a capital líbia, Trípoli. Há uma semana, diplomatas contrários a Kadafi e outros líbios que moram no Brasil invadiram o prédio, retiraram a bandeira verde que representava a ditadura e as placas que identificam o local como "Grande Jamairia Socialista Árabe do Povo Líbio", nome oficial do país. Na segunda-feira, o embaixador chegou a ir até a representação, mas foi embora depois ser confrontado pelos demais diplomatas, que hastearam a bandeira rebelde.

Em conversas com representantes do Itamaraty, Zubeide recebeu a garantia de que ainda é considerado o embaixador da Líbia até que chegasse ao Brasil uma nova indicação. Nos últimos dias, ficou fechado na residência oficial, onde ainda tremulava a bandeira verde de Kadafi. No início da tarde de hoje, logo depois da sua declaração de apoio ao CNT, a bandeira já havia sido retirada.

O diplomata garantiu nesta sexta-feira que continua no cargo até que o CNT tome uma decisão a respeito. "Até que outro embaixador seja designado eu sou o embaixador", garantiu. "Como eu disse na minha conferência de imprensa, quando a primavera árabe chegou às praias de Benghazi, eu fui escolhido pelo povo árabe através dos mecanismos do governo líbio para representá-lo no Brasil."

Em toda a conversa, que durou menos de 10 minutos, o embaixador tomou cuidado de não declarar que apoia o CNT, mas garantiu sua lealdade aos que hoje são apoiados pelo povo líbio. Mesmo assim, suas declarações criaram apenas ceticismo nos outros funcionários da embaixada. Nenhum dos diplomatas líbios presentes apostava em um futuro muito longo para Zubeide no Brasil.

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