Embaixador sírio tem convite de casamento real anulado

A política global superou hoje o protocolo cerimonial, quando a Grã-Bretanha anulou o convite para o casamento real ao embaixador da Síria, em razão dos violentos ataques do governo sírio contra manifestantes no país árabe. Mas críticos continuam a se perguntar a razão pela qual a lista de convidados tem espaço para déspotas enquanto os ex-primeiros-ministros Gordon Brown e Tony Blair, ambos do Partido Trabalhista, ficaram de fora.

AE, Agência Estado

28 de abril de 2011 | 12h44

Grupos de direitos humanos haviam criticado a decisão de convidar o embaixador sírio Sami Khiyami para o casamento, amanhã, do príncipe William e Kate Middleton na abadia de Westminster. Mais de 450 pessoas foram mortas desde meados de março no levante contra governo autoritário do presidente sírio Bashar Assad. Só no final de semana, 120 pessoas morreram.

O governo disse que embaixadores de todos os países com os quais a Grã-Bretanha tem "relações diplomáticas normais" foram convidados para o casamento, cerca de 185 no total, e que o convite não analisa o comportamento dos governos. Mas o Ministério de Relações Exteriores informou hoje que, "tendo em vista os ataques contra civis das forças de segurança sírias nesta semana, os quais condenamos, o secretário de Relações Exteriores decidiu que a presença do embaixador sírio no casamento real seria inaceitável e que ele não deve comparecer". Segundo o comunicado, o Palácio de Buckingham compartilha com essa opinião.

Khiyami disse não estar surpreso com a decisão, que ele atribuiu ao "efeito da mídia sobre decisões de governo". "Eu acho que foi um pouco embaraçoso, mas não considero isso uma questão que vá pôr em risco as atuais relações e discussões com o governo britânico", disse ele à BBC. O governo britânico tem expressado fortes críticas à violência na Síria e ontem convocou Khiyami ao Ministério de Relações Exteriores para uma reprimenda.

Também não estão na lista de convidados os embaixadores da Líbia - a Grã-Bretanha está envolvida na missão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) contra o governo de Muamar Kadafi - e do Malavi, cujo enviado foi expulso de Londres nesta semana como uma espécie de punição diplomática.

Dentre os convidados criticados por ativistas de direitos humanos estão o monarca absolutista da Suazilândia, rei Mswati III; o embaixador do governo do presidente Robert Mugabe, do Zimbábue; e o príncipe Mohamed bin Nawaf bin Abdulaziz, da Arábia Saudita.

Manifestantes planejaram a realização de um protesto hoje do lado de fora do Palácio de Buckingham para condenar a participação da Arábia Saudita na repressão a dissidentes no vizinho Bahrein. O príncipe bareinita Salman bin Hamad Al Khalifa recusou o convite, dizendo que não quer que os protestos em seu país manchem a celebração. Os governantes do Bahrein impuseram uma lei marcial e são apoiados por uma força militar saudita que tenta conter um levante iniciado em fevereiro.

Críticos também notaram a omissão de Blair e Brown. Os dois ex-premiês não foram convidados para a cerimônia, enquanto seus colegas conservadores John Major e Margaret Thatcher estão na lista. Thatcher não vai comparecer por questões de saúde.

O palácio real rejeitou as insinuações de que a realeza se sinta mais próxima dos políticos conservadores do que dos trabalhistas. Mas algumas pessoas acreditam que a rainha Elizabeth II se distanciou de Blair quando ele aconselhou a família real a mostrar mais emoção após a morte da princesa Diana, em 1997. Sua mulher, Cherie, recusou-se a fazer reverências à rainha e revelou, num livro de memórias, que Leo, filho do casal, foi concebido durante uma visita à propriedade real em Balmoral.

Funcionários do palácio disseram que a decisão não foi uma afronta, mas uma questão de protocolo. Brown e Blair não são Cavalheiros da Ordem de Garter, a ordem cerimonial da cavalaria, enquanto Major e Thatcher são.

Blair afirmou que não está ofendido. Durante uma visita à Colômbia, ele disse que a falta do convite "não é de forma alguma um problema" e desejou felicidade ao príncipe e à sua noiva, informou a agência de notícias britânica Press Association. Mas o ex-secretário de Relações Exteriores Jack Straw disse que foi estranho que Blair e Brown não tenham sido convidados e o embaixador da Síria, sim. "No passado, eu acho que provavelmente as decisões teriam sido diferentes", disse ele à BBC. As informações são da Associated Press.

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