Embate entre esquerda e direita volta à França com duelo Sarkozy-Hollande

Jeannette B.T., de 67 anos, deixava a estação de metrô Convention, em um bairro de classe média no sul de Paris, na quinta-feira, quando foi abordada por um universitário de 24 anos que lhe oferecia um panfleto do Partido Socialista (PS). "Só os estúpidos votam em François Hollande", respondeu a senhora, recusando a oferta com gentileza parisiense.

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h03

"Tenho tanto medo de ele ser eleito que não vou ver os resultados. Será uma catástrofe para a França", acrescentou. Sem se intimidar, o jovem respondeu: "Em matéria de catástrofe, será difícil superar Nicolas Sarkozy, madame. Eu farei parte dos estúpidos que tentarão outro caminho".

É nesse clima de medo, esperança e rivalidade entre direita e esquerda que 43 milhões de eleitores vão às urnas hoje, no primeiro turno das eleições presidenciais na França. Nunca, desde os enfrentamentos entre François Mitterrand e Jacques Chirac, nos anos 80, e da queda do Muro de Berlim, os franceses foram chamados a arbitrar discursos tão antagônicos quanto os de Hollande e Sarkozy, um clássico entre progressistas e conservadores.

O clima de maniqueísmo que paira em Paris tem como pano de fundo a crise das dívidas na Europa, iniciada em 2009. Quinta maior potência mundial e segunda da zona do euro, atrás da Alemanha, a França sofreu no mês de janeiro o rebaixamento de sua dívida pública -até então avaliada como AAA, a nota mais elevada possível - pela agência de rating Standard & Poor's. Desde então, teme-se que o país seja envolvido pelo turbilhão que já arrastou Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e ameaça implodir a zona do euro.

As razões para o medo são concretas. A França registra déficit público de 5,2%, sua dívida pública chega a 87% do Produto Interno Bruto (PIB), seu crescimento é raquítico, de 0,2% no quarto trimestre de 2011, e sua taxa de desemprego chega a 9,8% da população ativa e a 25% entre jovens. Mesmo apresentando essa credenciais, Sarkozy apresenta-se na campanha de 2012 com uma plataforma com base na austeridade fiscal e como o único fiador da estabilidade contra o caos. "Uma vitória de Hollande colocaria a França de joelhos", alertou o chefe de Estado.

Hollande adota o discurso da "esperança" e aposta na receita contrária para tirar o país do buraco: controle das contas sim, mas com prioridade ao crescimento. Com um forte discurso de esquerda, propõe taxar em 75% os salários anuais superiores a € 1 milhão, contratar 60 mil professores - quando seu oponente reduz o funcionalismo - e a reestabelecer a aposentadoria aos 60 anos para quem tinha direito adquirido. "Cada geração tem uma responsabilidade. A hora é agora de vocês tomarem a decisão de mudar", afirmou na sexta-feira.

O surpreendente é que, mesmo com essa plataforma, o socialista obteve o elogio do jornal britânico Financial Times. "É encorajador que um número crescente de políticos, incluindo Hollande, defenda uma estratégia de crescimento para a Europa", disse a publicação, em editorial que criticava Sarkozy.

Maniqueísmo. O antagonismo segue em todas as áreas. Se o atual governo era conhecido pela isenção fiscal às grandes fortunas, o socialista propõe taxá-las para aliviar a carga sobre a base da pirâmide. Se Sarkozy promete reduzir em 50% a imigração ilegal, Hollande defende a regularização de parte dos estrangeiros ilegais.

"A opinião pública vê grandes diferenças nas propostas de ambos", diz o cientista político Émmanuel Rivière, do instituto TNS-Sofres. "Há uma fronteira direita-esquerda que se aplica a quase todos os temas: economia, emprego, Estado, imigração, homossexualismo."

Nessa disputa de conceitos, quem chega com curta vantagem é Hollande. Se os prognósticos dos institutos de pesquisa estiverem corretos, o candidato socialista deve obter entre 27% e 30% dos votos, contra 25% a 27% de Sarkozy.

As explicações para o eventual fracasso eleitoral de um presidente respeitado no exterior, como Sarkozy, passam por sua personalidade. Centralizador, ele rompeu com a liturgia do cargo de presidente em 2007 e enfraqueceu o premiê, François Fillon. Expôs-se na política e na vida pessoal, com um estilo "novo rico" rejeitado pelos franceses.

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