Embate sobre punição à Síria chega à internet

Dissidentes, ONGs e países usam rede para influenciar debate no Conselho de Segurança

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Diante do impasse sobre a Síria, a cena da semana passada na ONU parecia familiar: embaixadores trancafiados numa sala negociando até alcançar uma posição comum no Conselho de Segurança. A disputa envolvendo a condenação a Damasco, porém, foi além da velha diplomacia de gabinete. O embate "transbordou" para outro ambiente internacional - a internet.

Enquanto a ONU debatia, dissidentes, ONGs e mesmo governos nacionais recorriam à internet - via Twitter, Facebook e YouTube - para tentar influenciar o rumo das negociações.

Em uma das pontas do cabo de guerra virtual estavam ativistas sírios que tentam expor ao mundo os massacres em seu país, apoiados por potências ocidentais que querem o fim do regime de Bashar Assad. Do outro, estavam Brasil, Índia, África do Sul, Rússia e China, que resistem a uma resolução mais dura na ONU, temerosos da ingerência do Ocidente no país árabe.

O Estado falou com quatro dissidentes - dois no exílio, dois na Síria - que passaram os últimos dias entre campanhas em redes sociais, contagens de corpos e vídeos de barbaridades cometidas contra civis. O objetivo: ampliar a pressão da opinião pública e arrancar uma condenação da ONU a Assad.

"Usamos a internet para mandar notícias sobre o que está ocorrendo aqui, sobre as violações, as histórias dos feridos e dos mortos", explica a advogada Razan Zaytouna, que há 11 anos atua como defensora dos direitos humanos na Síria.

De dentro do país árabe, opositores postam as informações. Ativistas que tiveram de partir para o exílio, como o jornalista Massoud Akko, que mora na Noruega, ajudam a divulgar o material na imprensa ocidental.

"Celulares e internet são as "veias" desse corpo chamado oposição síria", explica Akko. Curdo, ele fugiu em setembro de seu país depois de passar uma semana na cadeia por escrever uma matéria sobre o assassinato de um ativista de sua etnia.

"Por que o Brasil esperou 2 mil mortes e um massacre em Hama para apoiar uma declaração presidencial na ONU? Eles não estavam vendo as imagens do horror sírio?", questiona o ativista. "Estou certo de que os brasileiros estão do lado do povo sírio. Se nossa mensagem chegar até eles, pressionarão seu governo."

Um ativista da cidade de Alepo, cujo nome não será revelado por questões de segurança, explicou ao Estado como funciona a estrutura para levar ao mundo as imagens da repressão.

Com programas para proteger a transmissão de dados, os chamados "TOR" e "VPN", opositores driblam os filtros da rede síria. Cada cidade ou região tem uma célula de ativistas, o "Comitê de Coordenação Local", que centraliza as informações e, então, posta o material. "O Twitter é usado por sírios bilíngues, com o apoio de exilados, para levar a mensagem ao mundo", explica.

Um dos tuiteiros sírios mais populares é Ausama Monajed, no exílio britânico desde 2005. "Lutamos contra uma propaganda ao estilo Goebbels e um aparato de repressão criado pela KGB. Contra eles, só temos a internet", disse ele ao Estado.

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