Emergentes definem nova ordem mundial

Conselheiro da campanha de Barack Obama fala sobre o papel de países como Índia e Brasil na nova realidade multipolar

Entrevista com

Cristiano Dias, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Aos 31 anos, o indiano Parag Khanna chegou aonde poucos chegaram. Pesquisador da Fundação Nova América, foi um dos conselheiros de política externa da campanha vitoriosa de Barack Obama. Em 2007, concluiu uma volta ao mundo que durou dois anos, passou por 50 países e rendeu o livro Segundo Mundo - Impérios e Influência na Nova Ordem Global (560 páginas, editora Atlas), que será lançado amanhã no Brasil. Khanna diz que vivemos em um mundo multipolar dominado por três impérios: EUA, Europa e China, que tentam construir suas esferas de influência. O jogo será decidido por uma amálgama de nações emergentes - Índia, Rússia e Brasil, entre outras -, que serão o fiel da balança em um novo equilíbrio de poder. A seguir, na entrevista que concedeu por e-mail ao Estado, ele fala sobre o fim da hegemonia americana e o papel do Brasil na nova ordem mundial. Você escreveu seu livro antes da crise financeira dos EUA e da vitória russa na guerra da Ossétia. Sua visão da geopolítica mundial ainda é a mesma? É. A Rússia não faz parte do "G-3". De jeito nenhum. Ela representa uma fração mínima da economia mundial e sua saúde financeira piorou após a invasão da Geórgia. A Bolsa de Valores de Moscou quase entrou em colapso. Com a queda do preço do petróleo, o déficit demográfico e um sistema financeiro em ruínas, a Rússia nunca mais será uma superpotência.E a crise americana alterou sua opinião em alguma medida?Não. Há algum tempo venho enfatizando a falência da economia americana. Com o crescimento de outros modelos capitalistas na Europa e na China, o fim da hegemonia dos EUA era inevitável.Por que os EUA provocam tanto a Rússia em questões como o escudo antimíssil na Europa Oriental? O sistema de mísseis nunca será eficiente, pelo menos não agora. Seria muito mais fácil uma atuação diplomática conjunta com a Rússia para conter o Irã. E Kosovo? Por que os EUA preferiram passar por cima da soberania sérvia e contrariar a Rússia em nome da independência de um Estado tão insignificante?Os EUA não levaram em consideração nenhum princípio legal em Kosovo. A independência ocorreu em razão do lobby albanês e do desejo de muitos no Ocidente, especialmente nos EUA, de confirmar a derrota da Sérvia na Guerra dos Bálcãs. Eu prevejo que ainda teremos outros proto-Estados surgindo nos próximos anos, incluindo a Palestina e o Curdistão.E quanto à insistência em levar a Geórgia para a Otan? Vale a pena arriscar a relação EUA-Rússia? Eu deixei muito claro no meu livro que Mikhail Saakashvili (presidente da Geórgia) não é um sujeito confiável. No entanto, existe a questão da segurança energética e a Geórgia ocupa uma posição estratégica. Repare que a Rússia teve a oportunidade de destruir o oleoduto Baku-Ceyhan, mas não o fez. Além disso, não acredito que a Geórgia será membro da Otan tão cedo.A imagem dos EUA saiu arranhada de Guantánamo e Abu Ghraib. Como o governo Obama pode mudar o jogo?Obama deve fechar Guantánamo, retirar-se do Iraque e concentrar-se mais em um tipo de segurança social, em vez da tradicional segurança militar. Além disso, seu governo dará bem menos ajuda para regimes autoritários no Oriente Médio. Você acha que o novo governo se reaproximará da América Latina?Os EUA terão de se aproximar da América Latina. Principalmente se quiserem competir com a Ásia. Isso ocorrerá quando Washington acordar para a necessidade de obter energias alternativas e novas parcerias industriais.O fato de Obama ter uma ligação forte com Estados produtores de etanol de milho (Iowa e Illinois) deixa algum espaço para cortes na tarifa sobre a importação do etanol brasileiro?É preciso saber primeiro quem serão seus assessores na área e se o Congresso conseguirá resistir à pressão protecionista. O presidente também terá como base alguns dados econômicos que mostram que o etanol americano não tem as mesmas vantagens comparativas do etanol brasileiro.Como será a relação de Obama com Cuba?Obama deixou claro que haverá mudanças. Acho que EUA e Cuba estão mais próximos do diálogo do que do isolamento. O mesmo vale para o Irã.Que papel terá o Brasil nessa nova ordem? Estou muito otimista quanto ao Brasil por causa de sua economia diversificada, de seu corpo diplomático altamente treinado e muitas outras razões. Acho que o Brasil será protagonista em muitas áreas, como meio ambiente, comércio e desenvolvimento.

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