ROBYN BECK / AF'P
ROBYN BECK / AF'P

Emissora americana suspende jornalista por mentir sobre cobertura de guerra

Brian Williams, âncora do telejornal mais popular da NBC, admitiu ter distorcido fatos sobre cobertura da segunda Guerra do Golfo

O Estado de S. Paulo

11 de fevereiro de 2015 | 13h54

(Atualizado às 18h30)

WASHINGTON - O jornalista americano Brian Williams, âncora do telejornal da grande audiência da NBC Nightly News, foi suspenso sem direito a salário por seis meses após admitir, na semana passada, que uma história contada por ele sobre ter sido atingido em um helicóptero durante a segunda Guerra do Golfo (2003-2011) não era verdadeira, informou a emissora americana.

Por se tratar de um dos jornalistas de maior destaque dos Estados Unidos, a suspensão de Williams representa um grande abalo para a emissora de propriedade da Comcast e para sua reputação como uma das fontes de informação mais confiáveis do país.

"Com suas ações, Brian afetou a confiança de milhões de lares americanos na NBC News", disse o presidente-executivo da NBC Universal, Steve Burke, em um comunicado da emissora. "Suas ações são indesculpáveis e sua suspensão é grave e apropriada."


Williams, de 55 anos, que lidera o Nighlty News desde 2004, contou diferentes versões da história em que o helicóptero militar americano em que estava durante os primeiros dias da segunda Guerra do Golfo em 2003 foi atingido por um lança-granadas.

Sua suspensão foi anunciada após o jornalista ter saído voluntariamente do ar no sábado e cinco dias após a NBC News iniciar um inquérito sobre o ocorrido.

A presidente da NBC News, Debrorah Turness, disse em memorando para funcionários que a investigação ainda continua.

As críticas a Williams, que também ocupava o posto de editor-chefe do telejornal, rapidamente ganharam espaço nas redes sociais após um segmento do Nighly News em dia 30 de janeiro, no qual Williams recontou sua versão da história.

O jornal militar americano Star and Stripes foi o primeiro a relatar que vários soldados discordavam da história de Williams, dizendo que ele não estava perto ou no helicóptero que foi atingido.

Retrospecto. Na segunda-feira, o jornal militar Star and Stripes publicou na segunda-feira a íntegra da entrevista que fez com o jornalista depois que vários veteranos da Guerra do Iraque (2003-2011) garantiram que Williams inventou ter sido vítima de um ataque com lança-granadas a seu helicóptero em 2003, já que ele viajava em outra aeronave.

"Era minha primeira vez na guerra e lembrou que tinha medo(...). Tudo se transformou em um nevoeiro quando descemos no terreno(...). O que fiz como civil é o que teria feito um civil sem treinamento (militar) em minha situação: passar medo. O único que sabia é que tinham disparado em nossa direção", explicou o jornalista.

Várias testemunhas militares do incidente, que não deixou vítimas, lembraram ao Star and Stripes que Williams não voava no helicóptero atacado e não podia ter presenciado o ataque porque chegou em outra aeronave que fazia parte de uma mesma frota cerca de uma hora depois.

"Suponho que presumi que todas as aeronaves tinham sofrido algum dano porque todos aterrissamos", afirmou o repórter, acrescentando que ele teve uma visão diferente dos "profissionais" pela maneira distinta de analisar a situação.

O jornalista falou do incidente durante a exibição de uma notícia sobre uma partida de hóquei no gelo à qual compareceu um militar retirado a quem agradeceu por ter cuidado de sua segurança no Iraque.

Williams contou que essa história de sua amizade "começou com um terrível momento há 11 anos durante a invasão do Iraque, quando o helicóptero" em que viajavam "se viu obrigado a aterrissar após receber o impacto de uma lança-granadas", e acrescentou que foram resgatados por um pelotão de infantaria do exército americano.

Na quarta-feira passada, Williams leu um comunicado ao vivo para eximir-se por sua falta de rigor e neste fim de semana anunciou que abandonará temporariamente seu posto como apresentador do principal noticiário noturno da emissora NBC, Nightly News, enquanto o canal investiga seu caso.

No entanto, o escândalo aumentou nos últimos dias com novas acusações sobre os exageros de Williams durante a cobertura do furacão Katrina em 2005 e durante a guerra de Israel contra a milícia libanesa xiita do Hezbollah em 2006.

Não é a primeira vez que a imprensa americana lida com casos como o de Williams. Jayson Blair, do New York Times, plagiou, copiou ou inventou 36 reportagens publicadas entre 2002 e 2003, algumas delas relacionadas à segunda Guerra do Golfo. Antes, de 1995 até 1998, Stephen Glass inventou fontes, relatos e reportagens inteiras para a revista New Republic para ganhar prestígio.  / REUTERS e EFE

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.