Netflix/Divulgação
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Empresa de interrogatórios acusa Netflix de imprecisão na série ‘Olhos que condenam’

Companhia diz que a série interpretou errado uma das técnicas empregadas no caso da corredora do Central Park; empresa está processando Netflix por difamação

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2019 | 15h10

NOVA YORK - Uma empresa que treina investigadores processou o site de streaming Netflix por difamação ao utilizar um termo erroneamente na série Olhos que Condenam (When They See Us, no título original). A companhia desenvolvedora da chamada “técnica de Reid”, John E. Reid and Associates, diz que ela teria sido explicada erroneamente em um dos episódios. A diretora da série, Ava DuVernay, também foi processada.

Olhos que Condenam é uma série de ficção que relembra o caso real do ataque a uma corredora em pleno Central Park, no coração de Manhattan, em Nova York (EUA). Nele, cinco adolescentes negros e hispânicos foram acusados de estuprar a mulher em 1989. Eles foram condenados injustamente e cumpriram penas de entre 6 e 13 anos e só começaram a sair da prisão em 2002.

Descobriu-se que os jovens foram obrigados a confessar o suposto crime após serem pressionados pelos investigadores. A história se tornou um testemunho doloroso da injustiça racial, do excesso de acusação e de outros problemas que marcaram a justiça criminal nos Estados Unidos.

Na série, um dos investigadores se refere aos métodos duros de investigação como a “técnica de Reid”, um conjunto de diretrizes usadas por autoridades policiais em interrogatórios de todo o país. Porém, a ação movida pelo escritório aponta que essa caracterização estava errada.

A técnica de Reid é um método de interrogar pessoas suspeitas de cometer um crime. Consiste em três etapas: uma análise de fatos, uma entrevista investigativa e um interrogatório conflituoso.

As diretrizes explicam que, se um suspeito chegar ao terceiro estágio, o investigador deve sair brevemente da sala, voltar (possivelmente com um apoio, como uma pasta) e dizer ao suspeito que as evidências sugerem que ele cometeu o crime, mesmo que isso não seja verdade.

"Andy, não há dúvida de que você é a pessoa que recebeu esse dinheiro", exemplifica um diálogo do livro The Investigator Anthology (A Antologia do Investigador, em tradução literal), que fornece uma visão geral da técnica de Reid. "Quero me sentar aqui com você e ver se não podemos consertar isso", continua o trecho.

Os críticos da técnica dizem que ela pode levar a falsas confissões. Já a empresa desenvolvedora do método argumenta que as confissões falsas surgem principalmente quando as diretrizes não são seguidas corretamente, quando, por exemplo, os investigadores abusam fisicamente de pessoas ou deixam de tomar precauções especiais ao lidar com menores de idade.

Representação na série

O primeiro episódio de Olhos que Condenam mostra os adolescentes em salas de interrogatório da polícia. Nessas cenas, os investigadores dizem aos meninos que foram acusados de estupro, convencem-os que podem ir para casa se cooperarem, condicioná-los no que dizer e, em alguns casos, agredi-los fisicamente.

Porém, o processo diz que a técnica de Reid proíbe “atacar ou agredir um sujeito, fazer promessas de clemência, negar direitos a um sujeito, conduzir interrogatórios excessivamente longos ou negar ao sujeito qualquer necessidade física”.

“Reid também pede que extremo cuidado e cautela sejam usados ​​com jovens ou pessoas com deficiência mental”, continua a ação. “Todas essas informações estão disponíveis ao público mesmo nas pesquisas mais superficiais.”

No quarto e último episódio da série, a técnica de Reid é mencionada. A cena, ambientada em 2002, inclui três personagens: Nancy Ryan e Peter Casolaro, da promotoria de Manhattan; e Mike Sheehan, que serviu como detetive no caso do corredor do Central Park.

“Você extraiu declarações deles depois de 42 horas de interrogatório e coação”, diz Casolaro a Sheehan na cena. “Sem comida, intervalos para o banheiro. Sem a supervisão dos pais. A técnica de Reid foi universalmente rejeitada. Isso é verdade para você?” Sheehan responde: “Não sei qual é a técnica de Reid”.

Especialistas avaliam a técnica Reid

O professor de justiça criminal da Universidade Estadual de Bowling Green, Philip M. Stinson, disse que também não sabia qual era a técnica de Reid quando usou uma aproximação dela como policial em New Hampshire na década de 80. Ele não havia sido treinado formalmente no método nem aprendido com outros pesquisadores.

Ele diz que usou o método pela primeira vez para obter uma confissão de um homem acusado de abuso infantil e que funcionou. À época, embora Stinson tenha dito que não duvidava da veracidade dessa confissão, agora ele questiona a metodologia.

“Sempre pensei nisso como jogo psicológico”, diz o professor. “Você está jogando um jogo em que está realmente tentando enganar e confundir alguém para fazer uma confissão”, continua.

Veja o trailer original da série: 

O processo diz que John Reid desenvolveu a técnica e que foi ensinada pela primeira vez a investigadores em 1974. Ele atuou como policial em Chicago e era considerado especialista em interrogatórios desde a década de 50. Criminal Interrogation and Confessions (Interrogatório e Confissões Criminais, tradução literal), livro em que é co-autor, está em sua quinta edição e tem sido um texto de destaque na justiça criminal desde a primeira publicação, em 1962.

Essa primeira edição continha recomendações que ecoam a técnica de Reid hoje. Também alertou que o abuso físico pode levar a falsas confissões, e que haveria possibilidade de que outras situações como “negação temporária de alimentos, sono ou outros confortos físicos, não são tão previsíveis”.

Uma decisão da Suprema Corte de 1966 proibiu que a polícia interrogasse suspeitos sob custódia sem que esses soubessem os seus direitos. A sentença cita o livro de Reid como prova da importância desse reconhecimento. Stinson explica que, embora a técnica e os métodos de treinamento possam ter sido formalmente codificados na década de 70, os princípios de interrogatório introduzidos por Reid, que morreu em 1982, exercem uma grande influência sobre interrogadores há mais de meio século. 

O professor também explica que ele e muitos oficiais não aprenderam sobre as técnicas por meio de sessões formais de treinamento de John E. Reid and Associates. “Como resultado, ao longo dos anos, coisas como a técnica de Reid degeneraram e realmente se descontrolaram em termos de como estão sendo implementadas”, disse Stinson.

O professor de psicologia na Faculdade de Justiça Criminal John Jay, Saul Kassin, pediu que todos os interrogatórios policiais fossem gravados em vídeo. Ele apontou vários documentos e artigos na última década que levantaram preocupações sobre a confiabilidade de métodos como a técnica de Reid. A metodologia “tem maioria de críticos entre cientistas e profissionais”, diz Kassin.

A ação contra a Netflix

O processo movido pela John E. Reid and Associates desafia a ideia de que a técnica está perdendo a relevância. A ação aponta que o FBI, o Departamento de Estado e todos os ramos das forças armadas dos Estados Unidos incluíram uma programação de treinamento da técnica. O site da empresa mostra que centenas de cursos foram agendados em cidades dos Estados Unidos desde agora até o fim de 2020.

A empresa, sediada em Chicago, diz que a série da Netflix atraiu atenção negativa para o método. “Em quase todos os seus seminários e programas, Reid agora responde a perguntas e comentários negativos sobre Olhos que Condenam, aponta a queixa.

“Consequentemente, Reid agora dedicou uma seção regular de seus seminários e programas de treinamento para abordar” a série e o caso, acrescentou a denúncia, chamando de drenagem de tempo e recursos.

O processo, aberto na segunda-feira no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte de Illinois, busca indenização monetária e uma liminar que force a Netflix a parar a transmissão da série ou que “exclua as referências difamatórias”.

A Netflix se recusou a comentar o processo. John E. Reid and Associates, seus advogados nem representantes de DuVernay quiseram comentar o caso. / NYT 

 

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