China OUT via REUTERS
China OUT via REUTERS

Empresa de testes de covid tem laços com Exército chinês

EUA temem que a China possa usar os dados biológicos obtidos pelo BGI Group no exterior para explorar fraquezas genéticas

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2021 | 05h00

SYDNEY - O BGI Group, maior empresa especializada em genômica do mundo, que vendeu milhões de kits de teste de covid-19 para vários países, tem trabalhado com militares da China em pesquisas que vão desde testes em massa de patógenos respiratórios até ciências do cérebro, segundo levantamento feito pela Reuters com base em pesquisas, pedidos de patentes e outros documentos. A empresa está desde outubro  no radar dos Estados Unidos, que temem o uso ilegal da coleta biológica.  

A análise de mais de 40 documentos publicamente disponíveis e artigos de pesquisa em chinês e inglês mostra que as ligações do BGI com o Exército de Libertação do Povo incluem pesquisas com importantes especialistas em supercomputação militar da China. A extensão deste relacionamento nunca tinha sido divulgada.

O BGI vendeu milhões de kits de teste de covid-19  desde o início da pandemia para países da Europa e EUA. Mas autoridades de segurança americanas de alto escalão  alertaram os laboratórios americanos contra o uso de testes chineses por causa da preocupação de que a China esteja tentando reunir dados genéticos estrangeiros para suas pesquisas. O BGI, cujas ações dobraram de preço nos últimos 12 meses, dando a ela um valor de mercado de cerca de US$ 9 bilhões, negou isso. “O BGI rejeita veementemente as acusações de elos com o EPL, particularmente no que diz respeito a nossos kits de teste da covid-19”, disse a organização.

Um recente congresso da indústria de tecnologia, convocado pelo governo dos EUA, soou o alarme em outubro diante do apoio financeiro da China a seu setor de biotecnologia, suas vantagens na coleta de dados biológicos, e o interesse do EPL em possíveis aplicações militares. O congresso, que apresentará seu relatório final em março, alertou para a possibilidade de adversários usarem a inteligência artificial para identificar fraquezas genéticas em uma população, criando patógenos para explorá-las, e em pesquisas genéticas voltadas para o aprimoramento da força mental e física dos soldados.

O congresso recomendou que o governo americano “adote uma posição pública mais agressiva diante do BGI”, citando riscos de segurança nacional apresentados pelos elos da empresa com o governo chinês e seu vasto acervo de dados genômicos. O Ministério das Relações Exteriores da China disse que o governo americano tinha “distorcido deliberadamente sua interpretação da política de fusão civil-militar da China, difamando-a”.

Os documentos analisados pela Reuters não contradizem nem sustentam a suspeita americana. Mesmo assim, o material mostra que as ligações entre os militares chineses e o BGI são mais profundas do que se pensava anteriormente, ilustrando como a China tem agido para integrar empresas privadas de tecnologia em pesquisas militares sob o presidente Xi Jinping.

O BGI tem trabalhado em projetos do EPL com o objetivo de tornar os integrantes da maioria étnica chinesa Han menos suscetíveis a problemas de altitude, em pesquisa genética que beneficiaria soldados em algumas áreas de fronteira, segundo análise da Reuters.

Elsa Kania, pesquisadora adjunta sênior do centro de estudos estratégicos Center for a New American Security, que depôs perante comissões parlamentares americanas, disse à Reuters que as Forças Armadas da China pressionaram por pesquisas nas áreas de ciência do cérebro, edição genética e criação de genomas artificiais que poderiam ser aplicados em armas biológicas no futuro. Ela acrescentou que, no momento, tais armamentos são tecnicamente inviáveis. Mas o padrão de cooperação do BGI com as Forças Armadas chinesas seria uma “preocupação merecedora da atenção” das autoridades americanas, disse.

 As empresas de tecnologia chinesas são cada vez mais alvo de investigação por parte dos EUA, e foram submetidas a crescentes restrições durante o governo de Donald Trump. Em novembro, o Departamento do Comércio propôs uma regra para acrescentar o software de edição genética à lista de exportações americanas controladas, dizendo que este poderia ser usado para criar armas biológicas. Funcionários do governo do Joe Biden indicaram que a abordagem mais dura será mantida diante daquilo que enxergam como uma crescente ameaça por parte de Pequim. / REUTERS, TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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