EFE/ Cristian Hernandez
EFE/ Cristian Hernandez

Empresa dos EUA mantinha contas falsas no Facebook na Venezuela, Bolívia e México, diz relatório

Levantamento de observatório mostra que americanos, assim como os russos, também participam de campanhas de desinformação em outros países

Craig Timberg e Elizabeth Dwoskin / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2020 | 17h29

Quando o líder da oposição venezuelana Juan Guaidó se declarou o presidente legítimo do país, em janeiro de 2019, uma conta do Instagram, @FrenteLibreVzla, postou um vídeo dizendo que um "novo líder" traria liberdade para a nação em conflito.

Quem estava assistindo ao vídeo não tinha como saber que a conta não estava sediada na capital da Venezuela, Caracas, mas no centro de Washington, administrada por uma empresa de comunicação estratégica com clientes em toda a América Latina. A história foi revelada em um relatório divulgado nesta sexta-feira, 4. 

A empresa, a CLS Strategies, se tornou esta semana a última empresa de comunicação a ser punida pelo Facebook por usar contas falsas - incluindo no Instagram, uma subsidiária da rede social - para manipular secretamente a política de outro país, em violação às normas do Facebook de interferência estrangeira.

A CLS Strategies informou hoje que iniciou uma investigação interna em conjunto com um escritório de advocacia e colocou o chefe de seu setor de América Latina em licença administrativa. Mas negou que suas atividades significassem interferência estrangeira, alegando que seus clientes estavam localizados nos países afetados.

“É importante ressaltar que nosso trabalho anterior com clientes na América Latina, incluindo oposição a regimes opressores, não foi conduzido em nome de entidades estrangeiras - o trabalho foi financiado e dirigido por clientes dentro de cada país. Isso torna o trabalho da CLS muito diferente das atividades de influência estrangeira relatadas pelo Facebook, e qualquer caracterização do trabalho da CLS nos três países em questão como ‘estrangeiro’ está errada”, disse o presidente-executivo da CLS Strategies, Bob Chlopak, em um comunicado.

“Levamos muito a sério as questões levantadas pelo Facebook e outros em relação à publicidade anterior da CLS na América Latina”, disse Chlopak em seu comunicado, acrescentando que a empresa quer "garantir que o trabalho futuro da CLS atenda aos mais altos padrões de transparência e plataformas de publicidade". 

O Facebook anunciou na terça-feira que fechou 55 contas, 42 páginas e 36 contas do Instagram vinculadas à CLS Strategies que visavam a política na Venezuela, Bolívia e México. A empresa teria gastado US$ 3,6 milhões em publicidade nos três países, uma soma que os executivos do Facebook disseram ser notável por seu tamanho e  reflete o que acontece quando atores com muito dinheiro montam uma operação de desinformação. As páginas acumularam mais de 500 mil seguidores, informou o Facebook.

O relatório desta sexta-feira, produzido pelo Stanford Internet Observatory, um grupo de pesquisa de desinformação que recebeu dados do Facebook, focou as contas ativas na Bolívia e na Venezuela, incluindo vários perfis reais operados por funcionários da CLS Strategies. 

Segundo os pesquisadores, as contas fechadas pelo Facebook não operavam em conjunto para ampliar artificialmente o conteúdo, mas eles descobriram que 11 delas destinadas à Bolívia foram abertas no mesmo período, em fevereiro de 2020, e listaram quatro gerentes nos Estados Unidos, um na própria Bolívia e outro na Venezuela.

O relatório também observou que os funcionários da CLS Strategies tinham vínculos profissionais anteriores com líderes políticos da oposição na Venezuela.

As contas direcionadas à Bolívia apoiavam a presidente interina Jeanine Áñez e criticaram seu antecessor, Evo Morales, que renunciou em meio a protestos nacionais em novembro, após quase 14 anos no cargo.

Uma das páginas falsas do Facebook, a Prohibido Olvidar, postou conteúdo principalmente sobre alegações de fraude eleitoral contra Evo e teve 524 curtidas e 595 seguidores, apontou o relatório. 

O documento mostra ainda que outra página boliviana falsa do Facebook, a Bolificado, apresentou-se como uma operação de verificação de fatos e em pelo menos uma ocasião contradisse as descobertas de verificadores de fatos autênticos da Bolívia, rotulando uma história verdadeira de “NOTÍCIAS FALSAS” em negrito.

O relatório da Stanford descreveu a tendência de se contratar uma empresa de relações públicas ou de marketing para conduzir uma operação de desinformação como cada vez mais comum, observando que o Facebook já retirou conta do ar de  empresas de comunicação em Israel, Canadá, Índia, Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos - e agora, os Estados Unidos - por se engajar em um comportamento não autêntico coordenado.

“É evidente que essas campanhas se tornaram um serviço lucrativo e de alta procura, e há uma série de empresas de marketing digital dispostas a fornecê-las e lucrar com elas", aponta o relatório.

Embora a maioria dessas operações tenha sido vinculada a empresas de fora dos EUA, a atuação da CLS é uma evidência de que os americanos também participam de campanhas de desinformação em outros países.

As empresas de mídia social foram pegas de surpresa durante as eleições de 2016, quando agentes russos ligados à Agência de Pesquisa da Internet abusaram de suas plataformas para espalhar mensagens divisivas para milhões de eleitores americanos. Desde então, Facebook, Twitter e YouTube têm reunido recursos significativos para melhorar suas regras que proíbem esse tipo de comportamento e se defendem de ataques.

Mas, desde 2016, as táticas empregadas pela Agência de Pesquisa da Internet tornaram-se apenas mais sofisticadas e mais acessíveis a um grupo mais amplo de jogadores, alguns com motivações financeiras.

No início deste ano, o Facebook interrompeu um esforço vinculado à Rússia para pagar aos usuários de redes sociais do Gana para se passarem por americanos e executarem páginas do Facebook dedicadas a temas destinados a influenciar eleitores negros nos Estados Unidos.

Também nesta semana, o Facebook retirou contas e páginas vinculadas a indivíduos associados à Agência de Pesquisa da Internet. Eles haviam criado uma rede de páginas e contas falsas no Facebook para promover um site fictício, Peace Data. Os operadores recrutaram mais de 200 jornalistas freelance com base nos Estados Unidos para escrever artigos inadvertidamente para o site de esquerda.

Na quinta-feira, o gabinete de Áñez, na Bolívia, confirmou que a CLS Strategies foi contratada em dezembro de 2019 “para fazer lobby em apoio à democracia boliviana” e “em apoio à realização de novas eleições presidenciais”. A empresa, disse o comunicado, apenas facilitou os contatos entre o governo Áñez e funcionários dos EUA nos ramos "Executivo e Legislativo", e não forneceu "nenhum outro serviço ou atividade". O contrato, alegou, foi estabelecido conforme exigido pela lei dos EUA.

O governo, no entanto, disse que não foi capaz de pagar a taxa da CLS devido a "restrições legais". Não especificou quais restrições foram essas. Um documento de registro do governo dos EUA citado pelo relatório de Stanford concluiu que o governo boliviano concordou em dezembro em pagar US$ 90 mil por um período de 90 dias.

A direitista Áñez, ex-segunda vice-presidente do Senado boliviano por um partido minoritário, foi instalada como líder interina em um acordo mediado por partidos de oposição, a Igreja Católica e a União Europeia em novembro.

Áñez inicialmente prometeu não se candidatar, mas mais tarde ela mudou de ideia agora está buscando um mandato completo nas eleições de outubro, embora esteja atrás nas pesquisas. O governo Trump apoiou Áñez apesar das evidências crescentes de que seu governo interino lançou uma campanha brutal para silenciar a dissidência, anular a liberdade de imprensa e pressionar a esquerda política durante seus dez meses no cargo./W. POST 

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