Yaser Al-Khodor/Reuters
Yaser Al-Khodor/Reuters

Empresa francesa e o EI

Ciments Lafarge é investigada por pagar proteção a seus funcionários na Síria

Gilles Lapouge, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2017 | 05h00

Eis uma empresa francesa que prospera. A Ciments Lafarge é líder mundial no setor de concreto. Implantada em 63 países, ela emprega 64 mil pessoas e seu volume de negócios, em 2015, foi de ¤ 13 bilhões. Na origem, em 1833, ela era uma empresa familiar no interior da França. Hoje, é uma teia de aranha planetária. Realizou numerosas fusões ou absorções de concorrentes. 

Infelizmente, ontem, três juízes foram nomeados para investigar a empresa. Qual foi o pecado? “Financiamento do terrorismo” e “cumplicidade em crime contra a humanidade”. É preciso dizer que a Lafarge tem produtoras de cimento por toda parte, por exemplo, na Síria. Lá, a usina Lafarger Cement Syria teve de imaginar alguns acertos com os jihadistas. Desde 2013, o grupo tem se preocupado com a segurança de seus operários no país.

Ele encontrou uma solução: financiar indiretamente os jihadistas porque eles haviam instituído um pedágio tanto para os operários como para os compradores que vinham se abastecer. A Lafarge conseguiu que o Estado Islâmico desse a seus operários “vistos” que lhes permitissem transpor os “pontos de inspeção”. Sobre esse arranjo, Paris estava informada.

A partir de 2013, o EI instalou-se nos terrenos e nas estradas que conduzem à usina. A grande cidade de Raqqa caiu em suas mãos. A Lafarge negociou com os matadores para que seus operários pudessem continuar a fazer seu cimento. A empresa encontrou ainda outra maneira de cativar os terroristas: ela se abastece de petróleo (indiretamente) com o grupo jihadista. Mas a situação desandou. Alguns operários, ao que parece, foram sequestrados e trocados por resgate.

Assim, a Lafarge pôde manter sua produção. O caldo entornou em 19 de setembro de 2014. O local, com 30 operários, foi atacado por jihadistas. Eles tiveram de fugir por seus próprios meios. A Ciments Lafarge tem por hábito defender sua honra. Ela já foi acusada por duas ONGs de explorar o trabalho de crianças em Uganda.

Há um ano, Michel Aubier, um dos pneumologistas mais conhecidos de Paris, foi ouvido pelo Senado sobre o custo financeiro da poluição do ar. Ele foi interrogado sobre as relações entre os cânceres e a poluição por veículos, sobretudo diesel. Felizmente, o professor Michel tranquilizou seus inquisidores. “Não, o número de cânceres relacionado à poluição é extremamente pequeno.” Este parecer trouxe um grande alívio para os inquisidores, ainda mais que o veredicto do pneumologista havia sido “feito sob juramento”.

No início do ano, o jornal Le Monde fez uma pesquisa e descobriu que o pneumologista era colaborador de vários laboratórios e também era remunerado pela petrolífera Total. Quanto ele ganhava por seus conselhos? Os salários diretos alcançavam ¤ 170 mil por ano, em 2014, mas ele possui um pacote de ações da Total, gratuitas, no valor de ¤ 64 mil.

Tudo isso é nebuloso. Seria preciso, talvez um especialista financeiro para destrinchar as contas do pneumologista.

Uma última observação: uma vez mais, como em quase todos os assuntos de corrupção que demoliram um futuro presidente da república (François Fillon), mas também com personagens políticas de primeiro plano, foi preciso que um jornal se envolvesse para expor essas acomodações.

Hoje, na França, a moda é denunciar a imprensa. Os jornalistas são “fuçadores de m...” Talvez seja melhor “fuçar a m...” do que produzi-la. E, considerando o pessoal político, muita gente que hoje sofre de insônia poderia dormir tranquilamente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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