Empresários temem cenário pós-eleição

Provocada pelo rumo que o comando central dos governistas impôs à campanha, uma dúvida que jamais será revelada publicamente toma conta dos setores empresarial e financeiro da Argentina: o que fará Nestor Kirchner depois de 28 de junho? Quer dizer, o que fará se for derrotado ou se conseguir uma vitória não decisiva que pode deixá-lo muito debilitado? Todo mundo sabe que "nós ou o caos" é um lema de campanha que visa a amedrontar os eleitores e tentar conter a fuga de votos. A questão é que se está vagando num universo de incerteza que pesará nessas decisões. Um dos candidatos da oposição com chances de enfrentar Kirchner na Província de Buenos Aires tem colocado ainda mais pressão. Todos sabem que, em qualquer eleição de meio de mandato, o governo pode perder a maioria parlamentar, o que muitos analistas já dão por certo. Mas afirmar que isso equivale a uma ingovernabilidade é falar que o governo não tem capacidade de governar, ou que tudo o que se construiu durante todos estes anos foi muito frágil.As dificuldades enfrentadas pela economia hoje não se assemelham aos gravíssimos problemas enfrentados em 2001. E o modelo que se apresenta hoje, na verdade, nasceu das primeiras medidas adotadas em 2002. Além disso, esse mesmo modelo começou a perder força em 2007, com as ações e falta de ação do governo Kirchner e suas políticas convulsivas e de curto prazo, como assinalam economistas. De qualquer maneira, os fantasmas que se agitam do alto do poder político surgem em circunstâncias que não são as mais propícias. Têm o peso dos seus atores e parecem apostar no tudo ou nada, mesmo que isso signifique jogar de modo arriscado, além dos limites estabelecidos. Há muito tempo os investimentos estão estagnados. Ninguém pede empréstimo e podem ser contadas a dedo as ofertas de crédito. Essa morosidade cada vez mais presente pode ser efeito dos juros altos, mas os empresários reforçaram suas estratégias para defender as posições conseguidas e se proteger contra eventualidades. Obviamente, as estatísticas oficiais trazem uma outra leitura do quadro econômico. Mas os dados revelam que também o consumo entrou em declínio. Foi exatamente esse componente que nestes anos refreou, mais do que qualquer outro, a atividade econômica. E é consumo de alimentos o último que recua em tempos de crise. O governo insistiu em seu programa para impulsionar a demanda e sustentar uma economia em queda. O problema é que as linhas de crédito foram direcionadas para setores de renda média, mais conservadores e pouco propensos a contrair dívidas nos tempos atuais. Os resultados são nítidos. Economistas heterodoxos, como o deputado Claudio Lozano, afirmam que teria sido muito mais produtivo "aumentar seriamente as aposentadorias". Com poucas possibilidades de poupar por causa da pequena renda, sabe-se que nesse segmento todo aumento vai direto para o consumo. Embora nada se assemelhe à crise de 2001, o certo é que as contas fiscais estão em dificuldades, a pressão cambial é recorrente e acompanha a fuga de capitais. Portanto, a questão é como será administrada a transição até 2011 - se vai se admitir as dificuldades e acertar nas decisões. Talvez o "kirchnerismo" não tenha as mãos livres para impor suas leis no Congresso e tenha de negociar com a oposição; isso também significa capacidade para governar. Segundo um economista, a chave deve ser deixar de lado as expectativas e priorizar a previsibilidade, embora ela não seja a que alguns empresários gostariam. Para um outro, "do modo como as coisas estão, o melhor é chegar, seja como for, a 28 de junho. E depois ver o que acontece".*Alcaldio Oña é analista de assuntos políticos

Alcadio Oña*, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

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