Eros Hoagland/The New York Times
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Empresas correm para conseguir vistos para trabalhadores estrangeiros nos EUA

Com o programa conhecido como H-1B, que permite que empresas americanas contratem funcionários estrangeiros por três anos, sob revisão do governo, corrida por vagas atingiu um nível de disputa inédito neste ano

Miriam Jordan / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2017 | 16h06

LAGUNA NIGUEL, CALIFÓRNIA - Os caminhões de entrega começaram a chegar com seus pacotes preciosos antes do nascer do sol, formando uma fila em frente a uma imensa torre governamental que se eleva sobre os subúrbios de Orange County.

Foi o começo da temporada de inscrições para vistos de trabalhadores qualificados, conhecidos como H-1B, que permitem que empregadores americanos, principalmente empresas de tecnologia, contratem funcionários estrangeiros por três anos cada um. Nos últimos anos, o governo federal esteve tão sobrecarregado com as inscrições que parou de aceitá-las uma semana depois do início do recebimento - e esse é o motivo da fila de caminhões tentando entregar inscrições para os H-1B antes que as portas do programa se fechem por mais um ano.

Este ano, a corrida atingiu um nível de disputa total porque o futuro do programa H-1B não está claro. Aplaudido por seus proponentes como vital para a inovação americana, o programa também foi criticado como um esquema para deslocar trabalhadores americanos e colocar no lugar estrangeiros com salários menores. Na terça-feira, Trump assinou um decreto que direciona uma ampla revisão no governo para reforçar as diretrizes do lema “compre produtos americanos” e “contrate americanos”.

Os Serviços de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos recentemente anunciaram uma mudança técnica que pode dificultar ainda mais o recebimento de vistos para programadores iniciantes, e o Departamento de Justiça avisou que iria investigar empresas que supostamente estariam negligenciando trabalhadores americanos qualificados.

"O Departamento de Justiça não vai tolerar empregadores que usam indevidamente o processo dos vistos H-1B para discriminar os trabalhadores americanos", escreveu o chefe da divisão de direitos civis do departamento, Tom Wheeler, em um comunicado.

A cada ano, 65 mil vistos H-1B são disponibilizados para trabalhadores com formação universitária e outros 20 mil são reservados para aqueles com mestrados ou graus superiores.

Quando os portões se abriram no centro de processamento do governo, o primeiro caminhão da fila, da empresa FedEx, carregava 15 mil pacotes, afirmou o funcionário Andrew Langyo. "Estamos lotados e temos mais caminhões chegando", contou Langyo, que voltaria duas horas depois com o mesmo caminhão cheio novamente.

No ano passado, o governo recebeu 236 mil inscrições na primeira semana antes de decidir que não iria aceitar mais nenhuma. Um computador escolheu os beneficiários aleatoriamente.

A petição média do H-1B, uma coleção de formulários e documentos atestando a boa fé de uma oferta de emprego e da pessoa escolhida para preenchê-la, tem cerca de cinco centímetros de espessura. Mas algumas inscrições têm mais de 15 centímetros, segundo Bill Yates, ex-diretor do Centro de Serviços de Vermont, que também processa inscrições do H-1B.

Yates se lembra de alguns contratempos, como uma vez em que um motorista que ia para o centro dirigiu 80 quilômetros sem saber que a porta traseira de seu caminhão estava aberta e havia derrubado a carga na estrada.

Os vistos são atraentes não apenas para as empresas que preenchem as inscrições, mas também para os próprios trabalhadores, que podem se tornar elegíveis para um green card enquanto trabalham com um H-1B.

Entre as petições que se espera que cheguem ao centro da Califórnia está a de Minh Nguyen, engenheiro de design de software do Vietnã que tem uma promessa de emprego da BitTitan, empresa de software na nuvem de Kirkland, em Washington. Será sua segunda tentativa de conseguir um visto.

"Nos Estados Unidos, você está no centro da nova tecnologia e das mudanças de ponta na indústria da tecnologia da informação. Eu poderia contribuir diretamente para a empresa e para o desenvolvimento de software nos Estados Unidos", explica Nguyen, de 25 anos.

Em 2014, o último ano em que há informações disponíveis, apenas 13 empresas de terceirização receberam um terço de todos os vistos concedidos. Os maiores destinatários foram a Tata Consultancy Services, a Infosys e a Wipro, todas com sede na Índia.

As companhias - que subcontratam seus funcionários para bancos, varejistas e outros negócios nos Estados Unidos para fazer programação de computadores, contabilidade e trabalhos variados - frequentemente inundam o serviço de imigração federal com dezenas de milhares de inscrições.

Vários projetos de lei bipartidários pendentes no senado e na câmara procuram fazer com que as empresas deem maior prioridade aos trabalhadores americanos antes que preencham as vagas com pessoas que possuem um visto H-1B. Eles também querem aumentar o pagamento mínimo para os empregos, o que depende do nível de habilidade e do lugar - um analista de sistemas de computador em Pittsburgh, por exemplo, precisa ganhar pelo menos US$49 mil anuais sob as leis de hoje. A teoria é que, com pagamentos mais altos, esses empregos poderiam competir com as vagas que os americanos ocupam e eliminariam algumas das razões para importar trabalhadores.

Neste sentido, no começo do mês e sem aviso, o Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos publicou um memorando em seu site que poderia afetar muitas inscrições. Especialmente as empresas que buscam importar programadores de computador com os níveis de remuneração mais baixos terão que provar que o trabalho que eles fazem pode ser qualificado como "especializado", para os quais foram criados os vistos H-1B. "Haverá um escrutínio maior para a vaga que a empresa quer preencher", avisa Lynden Melmed, advogado de Washington que já foi conselheiro-chefe do serviço de imigração.

A medida parece estar direcionada principalmente a firmas de terceirização, ao invés de grandes empresas de tecnologia, que tendem a contratar trabalhadores com níveis mais elevados de qualificação e remuneração.

Em uma declaração, a National Association of Software and Services Cos., o principal grupo de negócios da indústria da terceirização da Índia, disse: "O sistema de vistos H-1B existe especificamente porque os Estados Unidos têm uma escassez persistente de talentos de TI altamente qualificados".

O grupo afirma que seus membros seguem todas as regras do programa e que as mudanças teriam pouco impacto. "O objetivo é rastrear trabalhadores menos qualificados, enquanto nossos membros tendem a oferecer pessoal muito bem credenciado para as empresas americanas preencherem suas vagas e competirem globalmente", diz o grupo no comunicado.

Mesmo antes do memorando e do aviso do Departamento de Justiça, o medo sobre o futuro do programa H-1B estava fazendo com que a pressão fosse maior este ano. "Apenas para ter certeza de que a petição vai entrar no Departamento, quase todos os clientes exigem que as suas cheguem no primeiro dia", conta Greg McCall, advogado da Perkins Coie, de Seattle, que preparou 150 inscrições.

Dentro do prédio federal, uma estrutura formidável que já serviu de cenário para filmes como "Coma" e "Epidemia", a dança logística se desdobra em dois andares. Na sala do correio, cerca de 40 pessoas com luvas azuis se sentam em volta de mesas abrindo os pacotes que chegam sem parar em caixas de 1,8 metros de altura. Em um galpão gigantesco, os pacotes são separados entre os inscritos com grau universitário e os que possuem mestrado e doutorado.

Ao todo, 1.500 trabalhadores estão envolvidos no processo, e espera-se que o segundo turno vá além do horário comercial. "Este é um dia para o qual nós nos preparamos com meses de antecedência", afirma Donna P. Campagnolo, vice-diretora do centro.

Os caminhões chegam e saem o dia todo, alguns com trabalhadores, como os da FedEx, que fazem suas entregas diretamente, evitando as situações em que dezenas de veículos ficam parados no portão. Algumas empresas menores de entrega também fazem parte da ação. O motorista Fernando Salas chega em uma van Suzuki vermelha com dez caixas. "Tenho 109 envelopes. É o que cabe aí dentro", conta ele.

É tudo surpreendentemente pouco tecnológico para um programa usado principalmente para vagas em alta tecnologia. Perguntada sobre o porquê de o governo não digitalizar o processo, Campagnolo diz: "Realmente há muito papel. Não temos como negar". O maior desafio, segundo ela, é "o excesso de lixo".

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