Manaure Quintero/Reuters
Manaure Quintero/Reuters

Empresas esperam abertura chinesa na Venezuela

Otimista com liberalização econômica, fábrica de rum vende ações na Bolsa de Caracas para levantar dólares e ampliar seus negócios

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2020 | 04h00

Uma fábrica de rum na Venezuela vendeu um milhão de ações na sexta-feira – na primeira operação desse tipo na Bolsa de Caracas em 11 anos –, animada por um grupo de empresários que confia que o governo chavista levará adiante uma mudança econômica similar à da transição da China na década de 80.

Alberto Vollmer, presidente da companhia Rum Santa Teresa, voltou ao mercado de ações lembrando da abertura da Bolsa de Xangai, há 30 anos, em uma estratégia que também será seguida neste ano por Horacio Velutini, diretor do Fundo de Valores Imobiliários (FVI). Ambos estão convencidos de que a liberação da economia dificilmente poderá ser revertida.

Os dois empresários fazem parte de um grupo que se define como “otimistas anônimos” e há alguns meses reúne 39 homens de negócios, banqueiros e investidores venezuelanos com um ponto de vista diferente de boa parte dos porta-vozes das associações do setor privado.

As opiniões dos líderes da companhia Santa Teresa e do FVI também contrastam com a oposição política e a crença do governo do presidente americano, Donald Trump, para quem nenhuma mudança econômica será sustentável até que o presidente Nicolás Maduro deixe o poder.

No ano passado, o governo chavista relaxou inesperadamente os controles da economia, o que permitiu transações em divisas que por mais de 15 anos foram tabu e hoje alimentam o livre-comércio local em meio à crise e às sanções dos EUA, apesar de as leis regulatórias continuarem vigentes.

Nesta nova etapa, Santa Teresa, uma das marcas de rum mais conhecidas da Venezuela, que há três anos exporta em conjunto com a Bacardi, prevê vender até US$ 6 milhões de ações para arrecadar cerca de US$ 3 milhões, com os quais ampliará suas adegas e o número de barris.

“Cada vez que nos sentamos com as autoridades e com outros empresários, dizemos que isso deve ser feito e é parte da recuperação da economia”, afirmou Vollmer, antes de um evento muito parecido com o que aconteceu na China dos anos 80, que passou por uma reforma e permitiu que muitas empresas saíssem da falência e buscassem capital no mercado de ações.

A ideia do produtor de rum é que mais empresas locais sigam seu exemplo. A jogada surpreende, após seis anos de recessão e três de hiperinflação em um país com um governo que afastou a maioria das multinacionais e levou grandes e médias indústrias a operar em seu nível mais baixo, ampliando a pobreza e a desigualdade.

“Acredito que a Venezuela esteja entrando em um ciclo de abertura econômica liberal”, disse Velutini, que com Vollmer impulsiona uma câmara de emissores de ações criada em dezembro. “Essas mudanças estão chegando de forma desordenada, como aconteceu com a China e a Rússia da perestroika, mas chegaram para ficar.”

Os empresários, que tiveram reuniões informais com autoridades americanas sobre o impacto das sanções, estão dispostos a falar com o Departamento do Tesouro dos EUA, pois as medidas – impostas para asfixiar o governo Maduro – estão afetando o setor privado formal que sobreviveu ao chavismo.

Consultado pela agência Reuters, o Departamento de Estado disse que os EUA estão utilizando as sanções para apoiar uma “transição para eleições presidenciais livres e justas” e destacou que “geralmente autorizam várias transações relacionadas com a importação de remédios, de equipamentos médicos e de produtos agrícolas para a Venezuela”.

As ofertas de ações, apesar de serem mínimas em comparação com as que são feitas nos mercados internacionais, poderão servir como um salva-vidas para as empresas que ficaram sem nenhum financiamento bancário.

Os bancos locais – pressionados pelas regulamentações e pela inflação –, há dois anos, são incapazes de conceder empréstimos às empresas e, por isso, os “otimistas” acreditam que o mercado de ações será uma alternativa para obter fundos com os quais poderão expandir seus negócios.

A Bolsa de Caracas foi abandonada depois que o presidente Hugo Chávez – que morreu em 2013 – nacionalizou, em 2007, as duas maiores companhias que tinham suas ações nela. Apesar de o intercâmbio ter permanecido aberto, sua movimentação foi caindo. 

Velutini acredita que há empresas antigas que estão crescendo e têm o potencial para vender suas ações na Bolsa. Mais de uma dúzia de empresários e operadores consultados disseram que há interesse no mercado para novos títulos, em grande parte entre investidores venezuelanos com dinheiro, no país e no exterior, que também acreditam que as coisas estão mudando. “O pessimismo é como um vírus que chegou à Venezuela, e nós somos o anticorpo”, afirmou Velutini. / REUTERS

 

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