Empresas mudam a cara das eleições nos EUA

Após aval da Suprema Corte, 200 grupos privados batizados de 'Comitês de Ação Política' são criados para caçar votos e dólares rumo à Casa Branca

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h05

As eleições de 2012 nos EUA estão sendo marcadas, pela primeira vez em 221 anos, por um combate entre companhias montadas para atrair doações ilimitadas e custear a parcela mais cara das campanhas: as propagandas nas TVs e rádios. A permissão para a criação dessas empresas eleitorais - oficialmente, Comitês de Ação Política ou Super PACs - saiu da tribuna da Suprema Corte de Justiça, em 2010. Cerca de 200 Super PACs estão registrados.

Segundo Thomas Mann, analista sênior do Brookings Institution, os Super PACs não terão força suficiente para mudar a escolha do candidato republicano à Casa Branca. "Mas são uma força nova e perniciosa na nossa política, que pode ser bastante destrutiva se ou quando organizadas exclusivamente para eleger ou derrotar um candidato ao Congresso", alertou, ao lembrar que 2012 também terá eleições legislativas.

Candidato à reeleição desde abril de 2011, o presidente dos EUA, Barack Obama, tem no Priorities USA Action o seu Super PAC. Atualmente, veicula o anúncio "Rejeite a América de Romney", com ataques ao republicano considerado pela Casa Branca como potencial adversário na eleição, o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney.

Os Super PACs dos quatro rivais nas primárias republicanas não se concentram em Obama. A disputa interna no partido ainda absorve seus recursos. Para as primárias da Carolina do Sul, no dia 17, o Restore Our Future (Restaurar nosso Futuro) foi usado por Romney para reforçar suas credenciais como homem de negócios e criador de empregos em uma propaganda de 30 segundos. O custo de veiculação foi de US$ 2,3 milhões.

No campo adversário, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Newt Gingrich valeu-se do seu Super PAC, o Winning our Future (Vencendo nosso Futuro), para veicular o documentário Quando Romney chegou na Cidade, ao custo de US$ 3,4 milhões. O filme rotulou Romney como "destruidor de empregos" e ajudou Gingrich a vencer.

Com a primária republicana na Flórida marcada para o dia 31, a guerra dos Super PAC desses dois candidatos tornou-se tão intensa quanto seus bate-bocas no último debate, na quinta-feira. O Restore our Future, de Romney, desembolsou US$ 9 milhões para comprar espaço diário em redes locais de televisão para a propaganda contra Gingrich. Os anúncios mostram o rival como lobista da Freddie Mac, agência federal de financiamento da habitação que esteve no centro da crise de 2008, e como ex-deputado multado em US$ 300 mil pela comissão de ética da Câmara nos anos 90. O Winning our Future, de Gingrich, planeja fechar a campanha na Flórida com um gasto total de US$ 10 milhões em propaganda contra Romney.

Obama acabou interferindo na briga republicana na Flórida. Seu Super PAC e o maior sindicato de trabalhadores do setor de serviços do país veicularam propagandas em espanhol nas rádios locais para acusar Romney de ter "duas caras" quando fala em imigração. O sindicato de funcionários públicos em Estados e municípios desembolsou US$ 1 milhão em outros anúncios contra Romney.

Nas propagandas dos Super PACs dos dois principais rivais republicanos, distorções de fatos e de opiniões são correntes. Gingrich foi acusado de ser favorável à anistia aos imigrantes ilegais - quando de fato ele está a anos-luz dessa posição. Romney foi apresentado como demolidor de empregos, sem nenhuma referência ao fato de, como presidente da Bay Capital nos anos 80 e 90, ter também salvo empresas.

Antecedentes. Os Comitês de Ação Política (PACs) existiam antes de 2010, com total liberdade para divulgar anúncios, mas as doações recebidas de empresas, sindicatos e pessoas físicas eram limitadas a US$ 5.000 ao ano. A Corte Suprema dos EUA acabou com o teto, sob a condição de os Super PACs não despejarem seus fundos dos comitês dos candidatos nem coordenarem suas ações com os mesmos.

O Winning our Future recebeu US$ 10 milhões em aporte do magnata de cassinos Sheldon Adelson, o oitavo cidadão mais rico dos EUA. O Super PAC de Romney tem no bilionário John Paulson, especialista em transações de títulos podres antes de 2008, um de seus principais doadores. O de Obama acumulou cerca de US$ 5 milhões até junho de 2011, dos quais US$ 2 milhões vieram das doações de Jeffrey Kratzenberg, executivo do estúdio de cinema DreamWorks.

Como alertou Thomas Mann, os Super PACs são apêndices dos candidatos. A interação é tão flagrante que os humoristas Stephen Colbert e Jon Stewart fizeram disso uma paródia. Em seu programa de televisão, Colbert "lançou" sua campanha à presidência, como republicano, e "passou seus poderes" para Stewart comandar seu Super PAC.

Segundo Paul Ryan, diretor do Campaign Legal Center, órgão voltado a examinar a legalidade nas eleições, os Super PACs são uma sombra dos comitês de campanha e servem para derrubar, na prática, o limite legal de contribuição direta de empresas e pessoas físicas, ainda hoje de US$ 2.500. "Milhões de dólares em contribuições para os Super PACs são ameaças de corrupção assim como seriam milhões de dólares em contribuições diretas aos candidatos", resumiu.

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