Empresas não perderam tanto com enchentes

As enchentes que atingiram na semana passada grandes cidades européias, como Dresden, Salzburgo e Praga, deixaram a imagem de enorme destruição, principalmente pelos danos a edifícios e obras de arte de valor histórico. Mas o conceito que os brasileiros têm dos europeus faz pensar como Fátima do Espírito Santo, comerciante na zona oeste de São Paulo: "Essas cidades e suas obras de arte devem estar cobertas pelo seguro". O pensamento, infelizmente, é equivocado. A contratação de seguros não é um costume no Leste Europeu, que recebeu a maior carga das inundações. Mesmo na rica Alemanha, a prática não tem crescido, apesar das perdas provocadas por enchentes terem aumentado. Na Alemanha, entre 1993 e 1995, as enchentes do Rio Reno provocaram US$ 2 bilhões de perdas para a economia e as parcelas seguradas dessas perdas caíram de US$ 800 milhões para US$ 780 milhões no período. Para as enchentes da semana passada, não há ainda um quadro completo, mas as seguradoras e resseguradoras não estão preocupadas. Isso apesar do chanceler alemão Gerard Schroeder ter declarado, na quarta-feira, que os prejuízos causados pelas enchentes na Alemanha ultrapassavam bilhões de dólares. Além disso, o tema das inundações e das políticas para combatê-las passou a fazer parte das eleições na Alemanha e na Holanda, polarizando a atenção pública. Apesar disso, segundo a Munich Re., a maior resseguradora do mundo, "as enchentes na Alemanha devem dar perdas aos seguros de US$ 500 milhões, próximo ao contabilizado em 2001, um ano comum". A segunda maior resseguradora, a Swiss Re., estimou através de Ivo Menzinger, chefe da unidade de enchentes, que "as perdas econômicas na Áustria são da ordem de US$ 3 bilhões e de US$ 2 bilhões na República Checa, devendo alcançar vários bilhões de dólares na Alemanha". Para Menzinger, as perdas seguradas vão ficar entre um décimo e um quinto das perdas econômicas. "Uma participação baixa para eventos que ocorrem várias vezes ao longo do ano." Ainda segundo Menzinger, as perdas não cobertas pelos seguros vão ser compensadas por fundos públicos regionais. Essa socialização das perdas incentivou o debate político, no qual não faltaram as advertências das entidades ambientalistas contra as mudanças climáticas globais. Tudo isso pode lembrar situações que vivemos em nossas cidades. Mas essas semelhanças não vão muito longe. Ao contrário daqui, as empresas seguradoras lá querem aumentar a contratação de seguros contra enchentes. Para Jonathan Conway, da General Cologne Re. "enchentes na Europa são um perigo que não pode ser ignorado, mas do qual temos conhecimentos suficientes para encontrar soluções e torná-lo um risco securitizável."

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