Empresas suspendem voos na Venezuela

Falta de repasse de dólares e novas regras por parte de Caracas põem aéreas em alerta

O Estado de S.Paulo/EFE

25 de janeiro de 2014 | 02h03

CARACAS - A Venezuela está em xeque em razão da situação limite a que chegou com as companhias aéreas, algumas das quais anunciaram a suspensão de operações no país à espera de que o governo liquide uma dívida de US$ 3 bilhões, enquanto as autoridades procuram encontrar uma solução.

Nos últimos meses, várias empresas aéreas anunciaram mudanças em suas rotas com Caracas. Algumas, como a espanhola Air Europa, decidiram reajustar seus assentos nos voos Caracas-Madri para vendê-los em outros países, várias escolheram vender só por dois meses e algumas optaram, diretamente, pela suspensão de suas operações.

A última foi a Air Canadá. Uma fonte dessa empresa confirmou à agência Efe que suspendeu provisoriamente a venda de passagens. Na quinta-feira, a companhia aérea estatal equatoriana Tame anunciou que deixará de operar temporariamente a rota Quito-Caracas.

A razão que levou as companhias aéreas a adotar tais medidas é a dívida que vai de US$ 3 bilhões a US$ 3,3 bilhões, segundo a fonte, que o governo tem pela não liquidação de divisas durante 2013, num país onde o Estado tem o monopólio da administração das divisas estrangeiras.

O resultado é que há meses pegar um voo para sair da Venezuela é uma verdadeira odisseia e quem o consegue descobre que tem de pagar uma fortuna por isso. Existe na Venezuela, desde 2003, um sistema de controle de câmbio que deixa nas mãos do Estado a administração e distribuição de divisas para uma série de circunstâncias, entre elas, as viagens ao exterior.

Com o dólar no mercado negro disparando para um preço que chega a dez vezes o do dólar oficial (6,30 bolívares), surgiu todo tipo de comportamentos irregulares e de fraudes como a compra de passagens aéreas só para conseguir a compra de divisas ao câmbio oficial e revendê-las ilegalmente.

Isso fez disparar a demanda de passagens aéreas por parte do que o governo chamou de "raspa-cotas", que eram vendidas sem que o governo liquidasse as vendas em bolívares com dólares. Ou seja, cabe ao governo pagar US$ 1 para cada 6,30 bolívares pago às companhias em moeda nacional.

O governo denunciou a existência de máfias e especuladores que se beneficiam desse mecanismo e também de estrangeiros que viajavam à Venezuela para comprar passagens em bolívares, com o consequente custo para o Estado.

O vice-presidente para assuntos econômicos, Rafael Ramírez, anunciou na quarta-feira que os estrangeiros não residentes não poderão comprar no país e a partir de agora o câmbio para os viajantes será de um tipo variável, cotado a 11,30 bolívares por dólar (quase o dobro do oficial), a fim de reduzir a quantia destinada a esse setor e favorecer a entrega de dólares à atividade produtiva.

Essa medida também afeta as companhias aéreas, que estão na espera para conhecer os detalhes e saber quando se aplicará esse novo tipo de câmbio. Nessa espera dos detalhes, praticamente todas as empresas aéreas suspenderam momentaneamente a venda de passagens em bolívares, segundo várias agências de viagens.

Governo e aéreas reuniram-se na quinta-feira para encontrar uma solução para o problema. Os ministros do Transporte Aéreo, Hebert García Plaza, e da Economia, Rodolfo Marco, informaram as companhias que operam no país que os pagamentos das vendas de 2014 serão normalizados e eles revisarão com cada uma a situação da dívida de 2013, segundo participantes da reunião.

Segundo as fontes, as autoridades indicaram que a partir de segunda-feira elas visitarão as sedes das empresas aéreas para fazer uma fiscalização com o propósito de revisar os custos das companhias e os preços das passagens aéreas.

O governo informou que vai pagar regularmente às empresas pelas vendas de 2014, mas que "vai verificar" a dívida de 2013, depois que os preços das passagens dispararam no último trimestre do ano passado.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, lançou no final do ano passado uma campanha para revisar preços dos produtos em todos os setores da economia que recebem dólares do Estado, denunciando margens de lucro superiores a 1.000% que não têm explicação econômica.

No marco dessa campanha, ele está revisando também todo o sistema de atribuição de divisas às empresas depois que o ano passado foi, nas palavras do presidente, "perfurado" por máfias e irregularidades que custaram ao Estado pelo menos US$ 20 bilhões.

Fontes de companhias aéreas consultadas declararam que determinar o custo de um voo internacional depende de uma infinidade de fatores que não pode se circunscrever à rota concreta nem aos países entre os quais se voa.

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