Empresas temem que Brasil quebre patente de vacina contra aids

Outubro de 2002. Essa é a data estabelecida pelos cientistas para saber se a população mundial contará com uma vacina contra a aids. Mesmo antes de saber os resultados, porém, as empresas farmacêuticas já temem que países como o Brasil e a África do Sul ameacem quebrar a patente da futura vacina, alegando emergência nacional. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) realizou, em Genebra, a primeira reunião com as sete maiores empresas do setor farmacêutico no mundo, entre elas Merck, Avantis e VaxGen. O objetivo foi começar a traçar um plano de como será utilizada a vacina, quantas doses serão produzidas e, principalmente, qual será o preço da vacina. Uma das questões levantadas pelo setor privado, porém, foi exatamente sobre a propriedade intelectual dos produtos que serão colocados no mercado. O temor é que, caso seja quebrada a patente, mais de 15 anos de pesquisas e bilhões de dólares investidos estarão em risco. No caso dos remédios para o tratamento do vírus HIV, o Brasil chegou a ameaçar empresas como a Roche de quebrar a patente de seu produto caso os preços do medicamento não fossem reduzidos. Para evitar essas mesmas disputas, a OMS realizará consultas com governos, sociedade e empresas para elaborar uma estratégia de uso da vacina. De um lado, o plano terá que garantir que o setor privado lucre com a vacina e, de outro, que as populações tenham acesso a um dos produtos mais esperados nas última décadas. Cerca de dez vacinas diferentes estão sendo testadas atualmente no mundo, mas em outubro de 2002 estará concluída a fase de análise da vacina GP-120, produzida pela VaxGen, que faz parte do Grupo Roche. A pesquisa envolve mais de 8 mil voluntários, que estão testando o produto, tanto nos Estados Unidos como na Tailândia. Segundo o coordenador do Departamento de Vacinas contra a Aids da OMS, José Esparza, o mundo necessitará de centenas de milhões de doses da vacina e, para que sua fabricação compense as empresas, as vendas terão que ser volumosas. "As empresas devem lucrar, caso contrário não produzirão a vacina", afirma Esparza. Para que a demanda seja significativa, porém, deve ser definido de que forma os governos estão pensando em incluir a vacina contra a aids em suas políticas públicas. Esparza alerta que, seja qual for o resultado das pesquisas da GP-120, a vacina não será 100% eficaz e segura. "Nenhuma vacina tem garantia total. Temos que conscientizar as pessoas de que, mesmo vacinadas, não existirá a possibilidade de estarem totalmente imunizadas", alerta. Ele afirma temer que a população comece a adotar comportamentos sexuais de risco, uma vez descoberta a vacina.

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