Encantados com Putin

No futuro, os americanos serão gratos pela posição moderada do presidente Barack Obama

Fareed Zakaria, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2015 | 02h02

Vladimir Putin suscitou a admiração do establishment político dos Estados Unidos. Um colunista admirou a "determinação" que o colocou na direção dos acontecimentos no Oriente Médio, enquanto um veterano diplomata observou com a maior gravidade: "Neste momento, a influência e o engajamento dos EUA se encontram em seu nível mais baixo desde a 2ª Guerra ". E um especialista moderado declarou: "Nos últimos 25 anos, a Rússia não se mostrava tão decidida, desde o final da Guerra Fria, ou Washington tão condescendente".

De fato, faz 25 anos desde que Moscou se mostrou tão intervencionista fora de suas fronteiras. Na última vez em que tomou esta decisão, no final dos anos 70 e 80, invadiu o Afeganistão e interveio em vários outros países. Na época, os comentaristas também aplaudiram suas ações como sinais de que Moscou estava vencendo a Guerra Fria. Quais foram as consequências para a União Soviética?

Os responsáveis pela política externa de Washington desenvolveram uma mentalidade que confunde atividade com realização. Eles pressupõem que toda crise mundial pode e deve ser resolvida por uma afirmação enérgica do poderio americano, preferivelmente o poderio militar. Se não recorrermos a ele, será por passividade e uma demonstração de fraqueza.

De acordo com esta lógica, a Rússia e o Irã são os novos donos do Oriente Médio. Não importa que esses países tentem desesperadamente ajudar um aliado que está desfalecendo. Seu cliente, o regime alauita da Síria, é um regime minoritário - representa menos de 15% dos habitantes do país - e enfrenta uma série de revoltas sangrentas apoiadas por amplas parcelas da população.

O Irã está sofrendo uma hemorragia de recursos na Síria. E, se Rússia e Irã vencerem, de algum modo, contra todas as probabilidades, ganharão a Síria - que é um caldeirão em ebulição, e não um prêmio. Os Estados Unidos estiveram na direção dos acontecimentos do Afeganistão por 14 anos. Acaso isto contribuiu para fortalecê-los?

Nos decênios 1870 e 1880, as maiores potências da Europa lutavam para ganhar influência na África, os últimos territórios do globo que ninguém ainda reclamara. Todas as nações, com exceção de uma: a Alemanha. Seu chanceler, um homem de olhos frios como o aço, Otto von Bismarck, estava convencido de que uma intervenção acabaria com o poderio da Alemanha e contribuiria para desviar a atenção dos seus principais desafios estratégicos.

Quando mostraram ao chanceler um mapa do continente na tentativa de convencê-lo, ele respondeu: "Seu mapa da África é muito bonito, mas o meu mapa da África fica na Europa. Aqui está a Rússia e aqui está a França, e nós estamos no meio. Este é o meu mapa da África."

Imaginem se os intervencionistas de hoje conseguissem o que pretendem, o presidente Obama aumentasse a força militar e o regime de Bashar Assad caísse. Qual seria o resultado? Façamos algumas considerações.

Washington depôs o regime de Saddam Hussein no Iraque (vizinho da Síria, com várias de suas mesmas tribos e divisões sectárias). Os EUA realizaram muito mais no Iraque do que quaisquer outros propõem que se faça na Síria, colocaram 170 mil soldados em campo, no pico da guerra, e gastaram cerca de US$ 2 trilhões. E, no entanto, o que se seguiu foi uma catástrofe humanitária - cerca de 4 milhões de civis perderam suas casas e pelo menos 150 mil pessoas perderam a vida.

Washington depôs o regime de Muamar Kadafi na Líbia, mas preferiu deixar que os líbios se encarregassem da reconstrução do país. O resultado foi, na avaliação da New Yorker, "um desolado campo de batalha".

No Iêmen, os EUA apoiaram a mudança de regime e a realização de novas eleições. O resultado foi uma guerra civil que está dilacerando o país. Os que se julgam tão justos e seguros de que esta próxima intervenção salvaria vidas, deveriam pelo menos parar um pouco e refletir sobre as consequências humanitárias das últimas três.

Na inteligente e favorável biografia do início da vida política de Henry Kissinger, de autoria de Niall Ferguson, fiquei impressionado com a semelhança do clima dos dias atuais com o dos anos 50. Agora, nós nos referimos a àquela década como um ponto alto da história dos EUA, mas na época, os responsáveis pela política externa do país desesperavam, achando que o governo de Washington se mostrava demasiado passivo e paralisado diante da ação direta do regime soviético.

"Mais 15 anos de tamanha deterioração da nossa posição mundial", escreveu Kissinger na abertura do seu livro, de 1961, The Necessity for Choice, "e estaremos reduzidos a uma fortaleza em política externa num mundo em que nos tornamos tremendamente irrelevantes".

Anos antes, no livro que lançou sua carreira, Nuclear Weapons and Foreign Policy, Kissinger defendera o uso tático das armas nucleares para responder de algum modo à estratégia de ação soviética. E vale a pena ressaltar que Kissinger era um dos mais moderados e inteligentes do grupo.

Os anos 50 produziram uma abundância de propostas que, olhando retrospectivamente, pareceram profundamente perigosas, destinadas a mostrar o vigor dos EUA - da deposição de Gamal Nasser, do Egito, a confrontos militares na Hungria, até o emprego de armas nucleares na questão de Taiwan.

Os gurus sentiram-se ultrajados pelo fato de o Vietnã do Norte e Cuba terem se tornado comunistas enquanto os Estados Unidos permaneciam sentados olhando. Em meio a este clamor por alguma forma de ação, um homem, o presidente Dwight Eisenhower, se manteve calmo, embora as pesquisas mostrassem sua popularidade em queda.

O governo de John F. Kennedy acabou com a passividade, notadamente em Cuba e no Vietnã, com resultados desastrosos. Acredito que nas próximas décadas, nos sentiremos felizes pelo fato de Obama ter optado pelo caminho de Eisenhower rumo à supremacia global, e não o de Putin. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

FAREED ZAKARIA ​É COLUNISTA DO THE WASHINGTON POST

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