Enchentes atingem 14 milhões no Paquistão

Tragédia supera tsunami da Ásia e torna-se 'a pior da história recente', segundo a ONU, que organiza maior operação humanitária de todos os tempos

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

Fuga. Família atravessa região alagada do vilarejo de Baseera, no Punjab, em busca de ajuda            

 

 

 

As enchentes no Paquistão já atingiram 14 milhões de pessoas e se tornaram "o maior desastre humano da história recente", segundo a ONU. O total de paquistaneses afetados supera o de três tragédias somadas: os terremotos do Haiti, em janeiro, o da Caxemira, em 2005, e o tsunami da Ásia, em 2004 - juntos, as três catástrofes afetaram 12 milhões de pessoas.

A ONU lançou ontem a maior operação de socorro de sua história e fez um apelo para ajudar as vítimas. A organização tenta obter recursos para atender, de forma emergencial, 6 milhões de paquistaneses. Segundo a porta-voz do serviço de assistência humanitária da ONU, Elisabeth Byrs, nunca a organização teve de intervir de forma tão urgente para atender tantas pessoas ao mesmo tempo.

"No Haiti, atendemos 3 milhões de pessoas. No tsunami, foram 5 milhões. Agora, 6 milhões de pessoas precisam de alimentos, abrigo e remédios de forma urgente para sobreviver", disse Elisabeth. Ela lembrou que a ONU nem sequer terminou sua missão no Haiti. "Estamos atuando no limite."

As enchentes no Paquistão destruíram a produção agrícola e colocaram o país em uma situação crítica. A ONU reconhece que mais da metade dos 14 milhões de paquistaneses afetados não será atendida em um primeiro momento.

"Acreditamos que esse número (14 milhões) inclui todos aqueles que, de alguma forma, foram atingidos. Mas não significa que todos precisam de ajuda já", explicou Elisabeth.

Em número de mortes, no entanto, as enchentes não foram tão trágicas quanto os três desastres anteriores. Até o momento, cerca de 1,6 mil pessoas morreram no Paquistão desde que as chuvas começaram, em 22 de julho. No Haiti, houve pelo menos 300 mil mortos. Na Caxemira, foram cerca de 40 mil vítimas. O tsunami deixou 220 mil mortos e 70 mil desaparecidos.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, enviou cartas a governos de todo o mundo pedindo "centenas de milhões de dólares" para a fase emergencial das operações. No entanto, Jean-Maurice Ripert, enviado especial da ONU para o Paquistão, já alertou que a reconstrução exigirá "bilhões de dólares".

A perspectiva assusta a ONU, que até agora não recebeu nem 10% do dinheiro que havia pedido para o Haiti. "Esse novo desastre testará os limites da organização", afirmou Andrej Mahecic, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Segundo ele, pelo menos 1,4 milhão de refugiados afegãos, que fugiram da guerra, viviam em áreas afetadas pelas chuvas.

De acordo com estimativas, pelo menos 2 milhões de paquistaneses precisarão ser alimentados pela ONU nos próximos três meses. o que custaria mais de US$ 150 milhões.

Em muitos locais, a ONU só chega com mulas para distribuir comida. "As operações estão atuando em uma área muito limitada", disse Marco Jimenez, da Unicef. De acordo com ele, dos 6 milhões de paquistaneses que precisam de ajuda, 2,7 milhões são crianças. Fadela Chaib, porta-voz da Organização Mundial da Saúde, afirma que mais de 5 mil casos de diarreia já foram tratados na região.

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