Encontro tenta reparar relações entre Londres e Paris

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o presidente francês, Jacques Chirac, se reencontraram em Touquet, cidade do norte da França, chique e tradicionalmente freqüentada por cavalheiros ingleses. Será preciso muita habilidade e muitas doses de detergente para lavar toda a roupa suja que separa os dois países há algumas semanas. O primeiro racha aconteceu há alguns meses, quando Blair reclamou da política agrícola francesa. Em seguida, as coisas se agravaram.Tony Blair grudou como uma sombra em seu amigo Bush. Ele apoiou a guerra contra o Iraque, ainda que a grande maioria dos ingleses fosse contra. Um pouco mais tarde, foi a vez de o francês cometer um ato de indelicadeza. Chirac e o alemão Schroder se aliaram como se fossem da mesma turma.Pretendiam retomar a idéia da "máquina franco-alemã", que passou anos no estaleiro. O inglês Blair não gostou. O velho espectro da Europa submissa à dominação da dupla franco-alemã reapareceu em Londres e, por contaminação, em todos os membros da União Européia, principalmente nos mais recentes do Leste europeu.Blair contra-atacou. Com sete outros europeus, entre os quais a Polônia e a República Checa, publicou uma declaração sobre a questão da guerra contra o Iraque em que se distanciava claramente da França e se solidarizava com os americanos. Esse texto fulminou as grandes estratégias de Berlim e Paris.Franceses e alemães estão isolados, humilhados. Além disso, a União Européia recebeu um Exocet nas suas partes vivas. No momento em que uma questão diplomática se coloca (a guerra ou a paz), a UE se divide em duas. E como Blair deu seu golpe com o poderoso apoio de Bush, todo mundo concluiu que Washington começou a realizar seu sonho: forjar a Europa unida com o fogo da solidariedade atlântica. Fazer da UE uma sucursal da Otan.Esse era o estado de coisas até a manhã do reencontro entre Blair e Chirac, em que o objetivo é aparar as arestas, retomar a aparente unidade entre Londres e Paris, harmonizar as posições dos dois países com relação ao Iraque, de esboçar uma política de defesa comum entre a França e a Inglaterra, impulsionando a colaboração de Paris e Londres em matéria de marinha de guerra.Até o momento, coube a uma empresa francesa, a Alcatel, a tarefa de equipar o novo porta-aviões inglês. Entretanto, há também a vontade de estabelecer uma colaboração regular entre os porta-aviões dos dois países. Um programa bonito. Saberemos rápido quando a fissura na aliança cordial entre Paris e Londres começar a ser reparada.

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