Federico PARRA / AFP
Federico PARRA / AFP

Energia barata faz criptomoedas virarem grande negócio na Venezuela

Criação dessa moeda se torna negócio lucrativo no país onde o serviço de eletricidade subsidiado é praticamente gratuito

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 20h00

CARACAS - O barulho é ensurdecedor em um prédio em Caracas: máquinas “mineram” bitcoins sem parar. Em uma Venezuela com custos de eletricidade baixos, a criação de criptomoedas se tornou um negócio muito lucrativo.

Menores do que caixas de sapatos e com um valor unitário de US$ 400, quase 80 computadores geram em tempo integral cerca de US$ 125 por mês por equipamento. Quatro ventiladores refrigeram o espaço onde a temperatura é alta. 

A conta de luz para manter os equipamentos funcionando não é uma preocupação. “Acho que não chega a US$ 10 por mês”, diz Theodoro Toukoumidis sobre sua empresa Doctor Miner, dedicada à instalação de fazendas de mineração no país e comercialização de equipamentos. “Descobrimos uma forma de gerar renda passiva, transformando energia em dinheiro”, conta ele, em seu escritório.

Sua empresa instala equipamentos de informática para a mineração, um processo que gera uma série de sequências numéricas complexas para cunhar uma moeda virtual e validar transações financeiras.

Essa tarefa requer um poder de processamento significativo e, portanto, grandes quantidades de energia.

Na Venezuela, com um serviço de eletricidade subsidiado e praticamente gratuito, a mineração é lucrativa, porque uma das variáveis fundamentais é o custo da eletricidade, explica Aaron Olmos, economista e pesquisador. Segundo ele, nem os apagões constantes nas províncias, provocados pelo colapso dos serviços públicos, fazem diferença. 

Tampouco importa que o país tenha uma das menores bandas largas fixas do continente, superando apenas Cuba e Haiti, segundo o índice global Speedtest. “Para a mineração não é preciso supervelocidade. É preciso ter internet estável”, afirma Olmos.

Toukoumidis e seu atual sócio aproveitaram a oportunidade. “Vendi meu carro para comprar uma máquina e meu sócio trocou a motocicleta que tinha por uma máquina”, lembra.

Em sua sala de jantar, ele começou a montar computadores para mineração e a vendê-los para parentes e amigos em 2016. “Diziam pra gente ‘eu quero uma’, sem entender nada”, conta.

É, no entanto, um pequeno grupo de pessoas em meio à pior crise da história recente no país com a maior inflação do mundo.

O ano de 2020 encerrou com uma inflação acumulada de 2.959,8%. A moeda local – o bolívar – foi pulverizada, assim como o poder de compra, cedendo espaço ao dólar. 

“Ter criptomoedas é uma saída da hiperinflação, uma ferramenta adicional para fazer frente à crise”, enfatiza o economista Olmos, apesar de as criptomoedas criadas por particulares não terem o lastro de bancos centrais.

Pedro (nome fictício) surfou na inflação quando, em 2017, comprou duas placas de vídeo por US $ 800, com as quais também pode minerar. No terceiro mês, ele recuperou o investimento. Agora, já tem US$ 20 mil no bolso, diz ele.

O governo do presidente Nicolás Maduro também se aventurou e lançou em 2018 a criptomoeda petro, vetada pelos Estados Unidos e denominada de fraude pelas plataformas de câmbio na web.

Enquanto isso, o popular bitcoin é aceito como meio de pagamento, aos poucos, nos negócios de Caracas.As transações nesta moeda, segundo o portal LocalBitcoin.com, geraram um pico de US$ 303 milhões em 2019 na Venezuela. Até agora, em 2021, US$ 110 milhões foram negociados.

Na Venezuela, existe um órgão regulador de ativos criptográficos (Sunacrip), criado em 2018 quando a atividade era considerada ilegal. Dois anos depois, a geração de criptomoedas foi regulamentada pelo Executivo e a Sunacrip lançou um registro de mineiros.

Toukoumidis cumpre as regras: “Descobrimos ao longo do caminho instituições que realizam procedimentos que nem conhecíamos”. 

Por falta de documentação, alguns são detidos, de acordo com portais especializados como o CriptoNoticias. Na semana passada, a polícia prendeu uma mulher em Caracas e apreendeu 17 máquinas.

No interior do país, as apreensões chegam a centenas. Por isso, muitos, como Pedro, preferem manter um perfil discreto. “É algo (do qual) é melhor não falar.”/AFP

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