Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Enfarte mata Kirchner, ex-presidente e líder de fato do governo argentino

Desde as 9h15 de ontem (10h15 em Brasília) a política argentina está lançada num cenário de ainda mais incerteza, com a morte súbita do ex-presidente Néstor Kirchner - considerado o político que verdadeiramente exercia o poder no governo de sua mulher, Cristina.

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

Ele estava em El Calafate, no extremo sul da Argentina, quando passou mal de madrugada. Às 7 horas, ao lado de Cristina, deu entrada no Hospital José Formenti. Pouco mais de duas horas depois, apesar das tentativas dos médicos de reanimá-lo, o homem mais poderoso da Argentina - o caudilho que alinhou o país à agenda bolivariana do venezuelano Hugo Chávez, acirrou a disputa do peronismo com produtores agrícolas, empresários e jornalistas, centralizou todas as decisões de governo e não poupou seus opositores do peso da máquina implacável do Estado - estava morto.

Oficialmente, segundo seu médico, Luis Bonuomo, Kirchner teve uma "parada cardíaca com morte súbita". Com isso, Cristina se vê forçada a ocupar o vácuo político deixado pelo marido. Com exceção da mulher, Kirchner não deixa herdeiros políticos claros - nem no governo, nem na liderança de sua facção política, a mais poderosa do Partido Justicialista (peronista).

Nos últimos dias, Kirchner vinha liderando atos oficiais, em plena campanha para voltar à Casa Rosada nas eleições do ano que vem. As primeiras pesquisas de intenção de voto o indicavam como o favorito para voltar ao cargo - cobiçado também por Cristina. Segundo o analista político Rosendo Fraga, "sem Kirchner, Cristina poderá agora assumir o poder".

Embora líderes de várias partes do mundo tenham enviado condolências ou declarado jornadas de luto - como no caso do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva -, mercados europeus reagiram com o que foi definido como "euforia" à morte de Kirchner: as ações de empresas argentinas nas bolsas europeias valorizaram-se fortemente e a procura por bônus da dívida argentina aumentou (mais informações na página A21).

Pelas ruas de Buenos Aires, o clima era o de morte de um presidente e não de um ex-presidente. Mas os analistas estimavam que a saída de cena de Kirchner abriria para Cristina a possibilidade de reduzir os conflitos iniciados pelo marido e tentar aplicar políticas menos radicais.

Governabilidade. Para evitar rumores sobre problemas de governabilidade, o secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano, convocou uma reunião de emergência da principal central sindical do país, a maior base de apoio social do governo, e declarou "apoio para a continuidade do modelo econômico".

"Cristina, você não está sozinha", dizia um dos vários cartazes colocados por simpatizantes do governo Kirchner nas grades de proteção da Casa Rosada instaladas na Praça de Maio, no centro portenho, onde milhares de pessoas se reuniram ontem à noite com bandeiras e flores.

Líderes da oposição e empresários, que haviam mantido duros confrontos com Kirchner nos últimos anos, deixaram de lado as divergências e manifestaram seu "pesar" pelo falecimento do ex-presidente.

O ex-presidente Carlos Menem (1989-1999), que disputou contra Kirchner as eleições presidenciais de 2003, qualificou Kirchner de "trabalhador". No ano passado, Menem o qualificara de "o anti-Cristo da economia argentina".

O ministro do Trabalho, Carlos Tomada, anunciou que o velório será realizado a partir de hoje, na Casa Rosada. Segundo ele, a cerimônia durará 48 horas e contará com a presença de diversos chefes de Estado, incluindo Lula e Chávez - que ontem enviou suas condolências à Cristina por meio de seu Twitter. "Ai, minha querida Cristina. Quanta dor! Que grande perda sofre a Argentina e nossa América!"

O enterro de Kirchner seria em Río Gallegos, capital da Província de Santa Cruz e cidade natal do ex-presidente. Informações extraoficiais indicavam que a cerimônia ocorrerá no sábado.

Nos últimos anos, a saúde de Kirchner deu vários sinais de fragilidade. Em 2004, ele foi internado às pressas por uma grave hemorragia gastrointestinal. Em fevereiro, Kirchner foi submetido a uma cirurgia de obstrução da carótida. Em setembro, o líder peronista foi novamente internado, desta vez para ser submetido a uma angioplastia.

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