Fernanda Simas / Estadão
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‘Enfermeiro das Farc’ deixa legado de esperanças

Filho de Pedro Ardila, que cuidou da saúde do fundador da guerrilha, cobra melhorias para os camponeses

Fernanda Simas, enviada especial / Planadas, Colômbia, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 05h00

PLANADAS, COLÔMBIA - Caminhar pela praça principal da área urbana de Planadas implica em esbarrar em alguém que conheça o senhor Jorge Ardila, o filho do enfermeiro de Tirofijo, fundador das Farc. Com 59 anos, Ardila tenta escrever um livro para contar como a guerrilha se formou e tomou conta da região por tantos anos. “Meu pai era maravilhoso. Ele trabalhou para todo mundo, sem discriminação. Realizava partos, indicava remédios. Ele servia a todos que precisavam e as Farc confiavam muito nele, por isso mandavam pedir os medicamentos para ele”, conta o homem, emocionado, sobre o pai, Pedro Antonio Ardila.

Os anos de conflito foram muito difíceis para sua família, segundo relata. “Quando mataram meu primeiro irmão, ele (Tirofijo) fez uma reunião e eles destituíram o comandante que deu a ordem das Farc. Isso foi em 1993. Eu perdi dois irmãos. O segundo também morreu pelas balas das Farc em 1994. Eles pediram desculpas depois”, lembra, sem dar detalhes de como ocorreram as mortes.

Ardila não tem muitas lembranças do convívio com o líder guerrilheiro da época, pois era uma criança, mas um gesto ficou marcado em sua memória. “Eu era muito pequeno na época, mas lembro que quando Charro Negro (Jacobo Prías Alape) morreu, ele (Tirofijo) pegou eu e meu irmão pelos braços e disse ‘ele morreu pelo povo’.”

Atualmente, Ardila vê o processo de paz na Colômbia de forma positiva, principalmente porque já trouxe mudanças. Mas ele pede que o governo nacional não se esqueça de desenvolver os setores agrícolas. “A guerrilha, que claramente se arrependeu, só esteve aqui por tanto tempo porque faltava a presença do Estado. Tomara que os camponeses tenham oportunidades agora. O campo está abandonado. Se o Estado quer nos dar uma nova forma de vida, precisa começar pelos camponeses.”

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