Alisson Contijo/Estadão
Alisson Contijo/Estadão

Enfim a confissão

Cesare Battisti levou 40 anos para admitir quatro assassinatos

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 01h06

O antigo militante italiano de extrema esquerda Cesare Battisti confessou. Extraditado da Bolívia, onde se refugiou depois de uma longa fuga da França e depois do Brasil, ele admitiu perante o procurador Alberto Nobili, chefe da unidade antiterrorista de Milão, ter assassinado quatro pessoas durante os “anos de chumbo” na Itália. Ele sempre se recusou a assumir os crimes.

Mas, para que acabasse reconhecendo os crimes foram necessários muitos anos e um longo caminho por diversos países, incluindo a França, durante uma quinzena de anos, e depois o Brasil, onde refez sua vida e teve um filho. Ele ainda estava no Brasil até o momento em que o novo poder instalado em Brasília decidiu responder ao pedido de sua extradição.

Os quatro assassinatos que Battisti admitiu ter cometido ou dos quais participou são aqueles que levaram à sua condenação à revelia na Itália em 1987. As quatro pessoas eram o guarda da prisão Antonio Santoro, em 1978, o policial Campagna, em Milão, em 1979, o joalheiro Pierluigi Torregiani e o açougueiro Lino Sabbadin.

O procurador de Milão não se contentou em revelar que ele finalmente assumiu a responsabilidade por esses assassinatos, mas acrescentou que Cesare Battisti apresentou em seguida suas desculpas às famílias das suas vítimas “pela dor que ele lhes causou”.

Bom! Tardiamente e forçado, mas melhor do que nada. Observamos que sua recusa em reconhecer seus crimes lhe valeu uma triste reputação com seus velhos camaradas da luta armada na Itália, indignados com sua covardia. Em 2004, quando a França parecia decidida a entrega-lo às autoridades italianas, Battisti mudou de advogado e de estratégia.

Renunciou à tática da circunspeção adotada pela maior parte dos  militantes da extrema-esquerda italiana escondidos na França, e se declarou vítima de um erro judiciário, o que provocou uma nova onda de críticas duras por parte dos outros membros das redes extremistas italianas revoltados com sua falta de coragem.

Curiosamente, inúmeros intelectuais franceses adotaram uma atitude oposta: eles batalharam em favor de Battisti. É verdade que esses intelectuais eram ainda influenciados por Bernard-Henry Levy, filósofo medíocre, mais falastrão do que combatente armado, e que, mais tarde, conseguiu outra façanha: ao se tornar amigo do presidente Nicolas Sarkozy, ele, ao que parece, instou para a França se lançar na estúpida operação montada pela Otan contra a Líbia e Muammar Kadafi.

O ditador líbio foi morto e a Líbia deixada no caos que dura até hoje e serve de retaguarda para o terrorismo nos países do Sahel. Vale observar que, na França, Battisti teve também o apoio de uma escritora de romances policiais, Fred Vargas, bastante talentosa.

Quais as razões que forçaram Battisti a confessar seus crimes? Seu advogado, Davide Steccanella, afirmou que ele desejou aliviar sua consciência. “Durante 40 anos Battisti foi descrito na Itália como o pior dos monstros. Com esse gesto ele quis se apropriar de novo da sua história”.

Podemos também esclarecer esse “arrependimento” pensando nas condições que ele enfrentou após seu retorno, enviado para o presidio de Oristano, na Sardenha. Uma prisão descrita como terrível e desumana, uma cela estreita, de três metros quadrados, vigiada por guardas severos 24 horas por dia.

Um membro das Brigadas Vermelhas, condenado e depois libertado e que conheceu Battisti em Paris, deu outra explicação para sua confissão. “Quando foi preso, ele foi submetido a um tratamento desumano”, disse. “Falam da sua confissão, mas ele sofreu por três meses esse tratamento com o objetivo de aniquilá-lo.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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