Amani Jaber/Estadão
Amani Jaber/Estadão

Enfrentamento da pandemia e protestos contra racismo conduziram vitória de Biden em Wisconsin

Classificado como um dos Estados-pêndulo desta eleição, condado atraiu interesse do mundo todo durante a reta final da campanha

Amani Jaber, especial para o Estadão

05 de novembro de 2020 | 21h08

KENOSHA - Nesta semana, os olhares do mundo se voltaram para Wisconsin, pequeno Estado no Meio-Oeste dos Estados Unidos onde vivem, segundo o último censo americano, 5.822.434 pessoas. De economia agropecuária, o Estado é o maior produtor de leite do país e lidera a produção nacional de queijos. Mas não foi seu principal produto o destaque no café da manhã de quem aqui vive. O dia amanheceu com sabor de ressaca. Quase não se viam mais placas de apoiadores de candidatos dos dois lados da corrida presidencial. O que não quer dizer que o assunto nas ruas não fosse um só: o resultado da apuração dos votos.

Os moradores sabiam da importância de Wisconsin na votação e já esperavam, qualquer que fosse o resultado, que o burburinho continuasse. O Estado foi classificado como um dos Estados-pêndulo desta eleição e atraiu interesse da imprensa do mundo todo e a atenção dos candidatos na reta final da campanha americana.

Além dos temas que estão sempre no radar de uma disputa eleitoral, dois fatores marcaram a eleição em Wisconsin. O primeiro teve origem na região: os protestos contra racismo após a morte de Jacob Blake em Kenosha, a maior cidade do condado de mesmo nome onde vivem 168.920 habitantes. O condado é a quarto maior do Wisconsin e também o quarto maior à beira do lago Michigan. As manifestações aconteceram após um policial branco ter atirado repetidas vezes e atingido pelas costas o homem negro na frente dos três filhos. O segundo fator foi a pandemia de covid-19, principalmente depois do aumento no número de casos da doença desde o início de outubro.

Foram exatamente esses dois temas que levaram o estoquista David Williams, de 63 anos, a votar em Joe Biden. "Eu não saí de casa nos dias dos protestos, fiquei com medo. Fiquei sem trabalhar, já nao trabalhei na pandemia. Trump não fez nada, deixou acontecer! Estou aliviado que ele não levou de novo o voto do nosso Estado", comemorou. 

O eleitor de Biden se referia ao duro golpe que o partido levou nas eleições de 2016. Naquele ano, Trump venceu Hillary Clinton em redutos democratas do Meio Oeste como Wisconsin e Michigan. Foi a queda da chamada barreira azul – uma referência à cor que identifica o partido democrata. Nestas eleições, os democratas retomaram Wisconsin, que eles vinham dominando em sete eleições consecutivas, de 1988 a 2012.

Uma vitória que para a cubana naturalizada americana Ayres Ruiz, de 67 anos, teve sabor muito amargo. Ela vive há 41 anos nos Estados Unidos. Destes, 23 no Wisconsin. "Estou muito chateada. Votei no Trump. Ele escuta a gente. Ele dá emprego. Não existe esse negócio de tudo igual para todo mundo, isso não existe. Tenho pavor de socialismo", disse ela, usando uma máscara com a bandeira dos Estados Unidos. "Gosto de viver aqui. Amanheci bem triste", completou Ruiz, que trabalha numa fábrica de Kenosha.

Quem amanheceu bem feliz foi o aposentado Roy Olson. “Eu não gosto da figura do Trump, do personagem que ele criou, das coisas que ele fala, do jeito que ele trata as pessoas. Não gosto de pensar que durante os protestos aqui em Kenosha ele ficou dando palpite do escritório”, disse.

Wisconsin tem uma das taxas mais altas de comparecimento nas votações. Enquanto na zona rural a tendência é o voto republicano, nos grandes centros a maioria costuma ser democrata. Esses perfis eleitorais diferentes tem efeitos imprevisíveis na urnas. Mas o “efeito surpresa” não convenceu a dona de casa Judie Schroeder, mãe de dois filhos. Ela votou em todas as eleições anteriores no partido republicano. Segundo ela, por ser cristã, se identifica com a filosofia do partido de Trump. O que houve não foi uma surpresa e sim uma fraude, aponta. “Ouvi que os condados tiveram mais votos contados do que registrados”.

Trump quer recontagem de votos

A vitória de Biden em Wisconsin foi fundamental para o democrata. Mas o analista político Carlo Barbieri é cauteloso ao falar de uma mudança de posição em relação à eleição passada, já que “no resultado final, a diferença de votos foi muito pequena”. Segundo ele, o que mudou foi o processo eleitoral, com muitas pessoas enviando voto pelo correio, a maioria democratas.

O sistema eleitoral americano tem várias peculiaridades e, neste aspecto, o voto de cada condado faz diferença. Em Wisconsin, 13 condados, a minoria é azul. Cerca de 90% - mais de 60 condados - são vermelhos. Mas alguns condados como Dane fizeram a diferença. Lá, Trump teve 22,9% dos votos, ante 75,7% de Biden. Só este condado garantiu a diferença no resultado. Numa eleição tão disputada, os dez votos de Wisconsin no colégio eleitoral têm peso enorme, diz o analista.

Nos Estados Unidos, cada Estado tem uma legislação e em Wisconsin o candidato que perde com menos de um por cento de diferença pode pedir a recontagem dos votos. O presidente Trump anunciou que vai usar a prerrogativa. Sua equipe de advogados deve pedir a recontagem, apesar de Trump não ter mostrado provas. 

Apesar de não haver indícios, ele deve judicializar o processo em Wisconsin. O caminho é longo e pode se arrastar por semanas até chegar à Suprema Corte. A instituição vai analisar a constitucionalidade do caso e deve decidir se toma conhecimento, ou seja, aceita o caso ou não. Para o analista, a reação de Trump já era esperada. "Ele há meses combatia as mudanças das regras dos Estados para estimular o voto por correio pois, segundo ele, haveria fraude. E já ameaçava ir à Suprema Corte se isto ocorresse. Claro que, perdendo, iria usar este recurso já anunciado”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.