''Enfrentamos a ideolo gia totalitária''

Davood Moradian: assessor-chefe do ministro das Relações Exteriores do Afeganistão; assessor de chanceler afegão defende aliança regional para combater Taleban e anuncia abertura de embaixada no Brasil

Entrevista com

Lourival Sant'Anna, CABUL, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

Começa uma corrida para a exploração dos recursos minerais do Afeganistão. A China saiu na frente, ganhando o primeiro grande contrato, de cobre. Agora concorre com quatro empresas indianas e um consórcio paquistanês e saudita pela exploração de ferro. Seguirão petróleo, gás, urânio, ouro... O Brasil é o próximo país no qual o Afeganistão abrirá uma embaixada. "É uma potência emergente", diz Davood Moradian, assessor-chefe do ministro das Relações Exteriores afegão, Rangin Dadfar Spanta. Doutor em relações internacionais pela Universidade St. Andrews, na Escócia, Moradian, de 33 anos, recebeu o Estado em seu ministério em Cabul, vazio no primeiro dia do Ramadã, o mês de jejum muçulmano. O apoio do governo Bush ao presidente Karzai era quase incondicional. Tem sido difícil ganhar a confiança do governo Obama?Na verdade, ficamos muito satisfeitos com as críticas (de Obama), porque não eram apenas contra o governo afegão, mas contra os erros cometidos pela administração (americana) anterior. O Afeganistão foi rebaixado pelo governo Bush. Não era prioridade. Estamos muito contentes de ver que agora o Afeganistão se tornou prioridade para Washington. Cada parte tem de assumir suas responsabilidades por erros passados.O prestígio da Otan está em jogo no Afeganistão. Não é só o prestígio, mas a segurança da Otan que está em jogo. Enfrentamos uma ameaça perigosa: a ideologia totalitária do Taleban e da Al-Qaeda. Eles não estão restritos ao Afeganistão, mas espalham-se pela Ásia Central, o Oriente Médio e a Europa. A estabilidade e a segurança de muitas partes do mundo estão em jogo. Portanto, é importante que a comunidade internacional assuma um compromisso de longo prazo com o Afeganistão para ter êxito aqui.Como vocês veem o desejo manifesto da Rússia e da China de ter um papel maior aqui?Temos um problema nesta parte do globo: muitos ainda veem o mundo da perspectiva do século 20, da Guerra Fria - Oeste versus Leste, Otan versus Rússia. Os verdadeiros desafios que temos no Afeganistão são do século 21: terrorismo e fundamentalismo islâmico, que não diferencia entre o governo afegão, chinês, russo ou da Otan. Para eles, todos são inimigos. Assim como os terroristas têm uma aliança, também precisamos de uma, entre Afeganistão, China, Rússia e Otan. Todos enfrentamos as mesmas ameaças e inimigos. Qual a perspectiva dos projetos de gasodutos entre Ásia Central e a Europa, passando pelo Afeganistão?Igualmente, o problema é que a Rússia e o Irã fazem cálculos de soma zero, segundo os quais um gasoduto do Turcomenistão para a Índia e o Paquistão via Afeganistão não é de seu interesse nacional, e tentam adiar esse projeto. Mas temos argumentado com os russos e iranianos que a situação mudou e que um Afeganistão próspero e desenvolvido também interessa a eles. Felizmente, tem havido passos concretos importantes na realização do projeto, que conta com apoio dos Estados Unidos, da União Europeia, da Índia e do Paquistão, além do Afeganistão. Esperamos que no ano que vem sejam tomadas as primeiras medidas práticas.O conflito entre a Índia e o Paquistão é uma das principais causas da instabilidade do Afeganistão. Há esforços de aproximação. O problema é que o Exército e o serviço secreto paquistaneses pensam que o terrorismo é uma boa moeda de troca contra a Índia, contra o Afeganistão e contra a comunidade internacional. A insurgência do Taleban no Paquistão não mudou isso?O governo civil tem alguma legitimidade política, mas não poder institucional. As decisões importantes são tomadas pelo establishment militar e de inteligência, para o qual o terrorismo é um negócio muito vantajoso.A China está abordando o Afeganistão como tem feito com outros países ricos em recursos. Não há o risco de um monopólio na exploração de minérios?Não. Ainda temos muitos minérios para explorar, e esperamos que as empresas brasileiras venham para cá. O Brasil é o próximo país no qual planejamos abrir uma embaixada, no ano que vem. É uma potência emergente. Sentimos falta dos brasileiros aqui.

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