TANG CHHIN SOTHY / AFP
TANG CHHIN SOTHY / AFP

Enfrentando a pobreza, dezenas de famílias moram em cemitérios no Camboja

Pessoas dizem que construíram barracos no local porque desde 2005 não é permitido enterrar corpos no local

O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2015 | 10h38

PHNOM PENH - Enfrentando a pobreza e a desigualdade, centenas de pessoas de uma comunidade ao sul de Phnom Penh passaram a morar em um cemitério vietnamita. Em Thmor San, uma área da cidade de Doeum Sleng, os sepulcros se mesclam com lares onde fazem parte da mobília doméstica, enquanto as crianças brincam entre as lajes de pedra e os adultos preparam a comida.

Ra Maly, 38 anos, comentou que se transferiu com sua família para o local há dez anos depois que sua casa anterior desabou por causa da extração de areia na ribeira do rio Mekong. "Tive que me mudar porque minha casa ruiu", lamentou a mulher enquanto mostrava um túmulo que integra a parede de um barraco.

Em outros casos, as famílias ocuparam o terreno após migrar do mundo rural na busca de oportunidades trabalhistas, mas se depararam com os caros aluguéis de Phnom Penh. "Há pessoas que acordam muito cedo e dizem que veem os espíritos caminhando, mas não quero falar porque há crianças aqui", disse Maly, sem mostrar de medo.

"Às vezes viver com os fantasmas é melhor do que viver com as pessoas", acrescentou a mulher, enquanto de fundo soava a música tradicional cambojana, motocicletas, crianças brincando e algum bêbado que falava sozinho.

Outro problema é a relação com os parentes dos mortos, já que muitos túmulos foram tapados com cimento para que fossem levantadas casas em cima. O sexagenário chefe do povo Keiv Chang, que vive em uma casa de tijolos afastada do cemitério, assegurou que desde 2005 não é permitido enterrar mortos e só é permitido construir quando os túmulos são transferidos de cemitério.

A paz na comunidade, que cresceu sobretudo no começo dos anos 90, é especialmente importante já que pelo menos dez famílias do cemitério são cambojanas de origem vietnamita, o que é um possível germe de conflitos tribais no cemitério.

Sakun, chefe de projeto da organização Friends International, enumera entre os problemas de Thmor San "o álcool, a violência doméstica, a desnutrição, a falta de escolarização, o abuso de menores, o trabalho infantil, as doenças como HIV e as inundações".

Segundo as autoridades locais, 5 crianças morreram devido ao HIV e 10 em inundações durante a época de chuvas entre 2007 e 2013 na área. /EFE

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