James Hill/The New York Times
James Hill/The New York Times

Engenheiro francês diz ter decifrado códigos do Assassino do Zodíaco, que chocou os EUA nos anos 70

Fayçal Ziraoui provocou um estardalhaço online quando afirmou ter decifrado códigos insolúveis atribuídos ao assassino que agiu na Califórnia e o identificou, acabando possivelmente com uma busca iniciada há 50 anos

Constant Méheut / The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 05h00

ARGENTEUIL, FRANÇA - Fayçal Ziraoui adora um bom desafio. Quando adolescente, ele projetava animações em 3D. Em 2018, concluiu a Ironman Race. Mais recentemente desenvolveu um software de realidade virtual que permite que as pessoas experimentem a vida em uma cápsula espacial.

“Nunca estabeleci limites para o que posso aprender”, afirmou Ziraoui, consultor de negócios franco-marroquino de 38 anos, em uma entrevista em sua casa em Argenteuil, Paris.

Por isso, quando em dezembro encontrou um artigo em uma revista francesa afirmando que ninguém jamais havia solucionado dois códigos atribuídos ao Assassino do Zodíaco, que aterrorizou a região de São Francisco nos anos 60 e 70, pensou: “Por que não eu?”

Os códigos por muito tempo intrigaram os criptógrafos, a polícia e investigadores amadores obcecados por códigos. Meio século de inúteis buscas levou muitos a acreditar que a identidade do assassino permaneceria  para sempre um mistério. Numerosos investigadores afirmaram ter desvendado o mistério por meio de variadas técnicas ao longo das décadas, mas suas teorias foram desmascaradas.

Entretanto, duas semanas depois de embarcar em sua busca, Ziraoui disse ter quebrado os dois códigos restantes - inclusive um que revelava a identidade do assassino - usando uma chave de criptografia descoberta somente em dezembro, e técnicas criativas de quebra de códigos.

Excitado, começou a postar mensagens e vídeos online em algumas das dezenas de fóruns chamados, por exemplo, “O Assassino do Zodíaco - Insolúvel e Inesquecível” onde dezena de milhares de investigadores amadores acompanham e debatem detalhes de um dos mais notórios assassinos em série da história americana - inclusive os dois códigos conhecidos como Z32 e Z13.

Ele não levou muito tempo para alvoroçar a enorme e agora furiosa comunidade online que se dedicava ao caso. Uma de suas mensagens foi deletada por um moderador de um site, em outros, suas teorias foram denunciadas por pessoas que questionavam sua credibilidade e descobertas.

“Não acredito nisso por um instante sequer”, alguém comentou no zodiackillersite.com. “Quando ele diz que levou duas semanas para quebrar o Z32, e uma hora para o Z13, acho que isto resume muito bem a história.”

Retrospectivamente, Ziraoui se deu conta de que havia sido um pouco desastrado, estourando descaradamente uma comunidade muito coesa com o que apresentou como soluções definitivas. “Ele entrou e declarou ‘fim do jogo’,” disse Youssef Ziraoui, seu irmão e jornalista em Marrocos. “Só que estas pessoas não querem que o jogo acabe.”

E não está muito claro se o caso - que durante décadas consumiu detetives policiais, gerou dezenas de afirmações mais estranhas do que ficção, e inspirou um filme de enorme sucesso - será resolvido em algum momento. O FBI e o Departamento de Polícia de São Francisco, aos quais Ziraoui enviou as suas descobertas, não quiseram comentar, alegando que a investigação ainda prosseguia.

Nascido e criado em Marrocos, Ziraoui estudou na França, onde se formou na Escola Politécnica e HEC de Paris (Escola de Altos Estudos Comerciais), as mais prestigiosas escolas de engenharia e negócios, e onde agora trabalha como consultor de negócios freelance.

Inicialmente, Ziraoui pensou  que a solução do código seria uma atividade divertida durante o lockdown do coronavírus. Na época, ele não sabia nada a respeito do Assassino do Zodíaco, suspeito de cinco assassinatos no fim dos anos 60, mas que se gabava de 37 vítimas.

A marca do matador era uma série de quatro cifras, que usavam letras do alfabeto e símbolos, por ele enviadas aos veículos de comunicação de julho de 1969 a abril de 1970, com advertências, e para tentá-los, com a promessa de que revelaria a própria identidade.

Uma primeira cifra de 408 caracteres, em que o assassino disse que adorava matar pessoas, foi quebrada logo depois de ter sido enviada.

O artigo da revista francesa que Ziraoui leu em dezembro dizia que o FBI havia admitido que, 51 anos mais tarde, uma equipe de três criptólogos amadores havia solucionado uma segunda cifra de 340 caracteres, com um programa de quebra de códigos que carregava 650 mil  possíveis soluções  antes de encontrar a chave de criptografia. Mas a mensagem não forneceu nenhuma indicação sobre a identidade do assassino.

Com isso, restavam dois códigos não solucionados, um de 32 caracteres e uma cifra de 13, precedidos pelas palavras: “Meu nome é---.”

Muitos entusiastas do Zodíaco consideram  as cifras restantes - a Z32 e a Z13 - insolúveis porque são curtas demais para determinar a chave de criptografia. Um número não revelado de soluções poderia funcionar, afirmam, tornando a verificação quase impossível.

Mas Ziraoui disse que de repente pensou: “Os que quebraram os códigos que haviam solucionado a cifra de 340 caracteres em dezembro conseguiram fazê-lo identificando a chave de encriptação, que colocaram no domínio público ao anunciar a sua façanha. E se o assassino usou a mesma chave para as duas cifras remanescentes?

Então contou que a aplicou à cifra de 32 caracteres, que o matador incluiu em uma carta como a chave para a localização de uma bomba que deveria explodir em uma escola, no outono de 1970 (nunca explodiu, embora a polícia não tenha decifrado o código).

Isto produziu uma sequência de letras do alfabeto aleatórias. Ziraoui afirmou que então trabalhou com meia dúzia de passos, incluindo as substituições de letras por números, identificando as coordenadas em números e usando um programa para a quebra de códigos que ele criou para esmiuçar rolos de letras até chegar a palavras coerentes.

O trabalho consumia os seus pensamentos; acordava à noite e mergulhava em um estado constante de ansiedade ao conhecer os macabros detalhes dos assassinatos. “Estava obcecado, 24 horas por dia só conseguia pensar nisso” afirmou Ziraoui.

Depois de duas semanas de intenso trabalho, decifrou a sentença: “Dia do Trabalho encontre 45.069 Norte 58.719 Oeste”.

A sequência apontava para um local próximo de uma escola em South Lake Tahoe, uma cidade da Califórnia referida em outro cartão postal supostamente enviado pelo matador do Zodíaco em 1971.

Agitado, Ziraoui disse que imediatamente voltou para a Z13, que supostamente revelara o nome do matador, usando a mesma chave de encriptação e várias técnicas de quebra de códigos.

Depois de cerca de uma hora, Ziraoui disse que chegou a “KAYR”, e notou que era semelhante ao último nome de Lawrence Kaye, um vendedor, e criminoso profissional que vivia em South Lake Tahoe, um suspeito no caso. Kaye, que usou também o pseudônimo Kane, morreu em 2010.

O erro de digitação era semelhante aos encontrados em cifras anteriores, observou, provavelmente erros cometidos pelo matador ao codificar a mensagem. O resultado foi tão próximo ao nome de Kaye e a localização, Salt Lake Tahoe, eram demais para serem uma mera coincidência, pensou.

Kaye havia sido tema de uma reportagem de Harvey Hines, um detetive policial, falecido, que estava convencido de que ele era o matador do Zodíaco, mas não conseguiu convencer os seus superiores.

Por volta de 2 horas da madrugada  do dia 3 de janeiro, Ziraoui, exausto porém exaltado, postou uma mensagem  intitulada “Z13 - Meu nome é KAYE”  em um fórum do Reddit que tem 50 mil membros, dedicado ao Matador do Zodíaco.

A mensagem foi deletada em 30 minutos.

“Desculpem, retirei esta como parte de uma espécie de política geral contra os posts de solução da Z13”, escreveu o moderador do fórum, afirmando que a cifra era breve demais para ser solucionável. O moderador não quis ser entrevistado pelo New York Times.

Comentários desdenhosos foram feitos em outros fóruns. Muitos dos comentários chegaram ao fantástico, ao surreal, às vezes irracional; outros diziam que os métodos de Ziraoui eram complexos demais.

David Oranchak, chefe da equipe que quebrou a cifra 340, disse em uma mensagem escrita que era cético em relação à solução de Ziraoui, observando que já existiam centenas de proposta para a Z13 e a Z32 , e que “é praticamente impossível determinar se algumas delas são corretas por causa da brevidade das cifras. Outros também haviam chegado ao Kaye como possível suspeito por meio de provas circunstanciais.

Mas David Naccache, criptógrafo e professor da École Normale Supérieure de Paris, e Emmanuel Thomê, especialista em criptografia do Instituto Nacional de Pesquisas em Ciência Digital e Tecnologia da França, disse que os métodos de quebra de códigos de Ziraoui  eram corretos e que deveriam ser levados em conta pelos investigadores da polícia.

Outro criptógrafo, Rémi Géraud, também da École Normale Supérieure, discordou, afirmando que Ziraoui  havia feito escolhas arbitrárias em seu trabalho. Olhando para trás, Ziraoi disse que se deu conta de ter  entrado como um elefante em loja de porcelanas contestando abertamente décadas de teorias a respeito do caso nos fóruns online.

Oranchak disse que a comunidade do Zodíaco é formada por facções em torno dos suspeitos preferidos, influenciando a maneira como avaliam as afirmações de quebra de códigos.

"Eles, em geral, se mostram amistosos com pessoas que são cordiais quando apresentam suas ideias, mas quando começam a agir como se estivessem 100% seguros de ter quebrado os códigos ou solucionado o caso, a comunidade se torna bastante hostil", afirmou.

Cinco meses depois de ter postado suas soluções online, Ziraoui agora desapareceu dos fóruns do Zodíaco. Parou de responder aos comentários, afirmando que não tem habilidade para brincar no ambiente carregado dos fóruns online.

"Meu irmão dirá: 'Mano, o que você acaba de fazer é a parte mais fácil'", disse Ziraoui com um sorriso, "Na realidade, o mais difícil é convencer as pessoas'". /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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