England your England

Nos dias anteriores ao referendo virtudes britânicas - pragmatismo, individualismo, espírito tolerante e democrático, respeito pelas instituições, leis e tradições - brilharam pela ausência, tanto que me pareceu estar em outro país

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

10 de julho de 2016 | 03h00

Vivi muitos anos em Londres e ali aprendi a admirar as virtudes inglesas: o pragmatismo que vacina seus cidadãos contra os fanatismos ideológicos, seu individualismo, seu espírito tolerante e democrático, seu respeito pelas instituições, as leis, as tradições. Nos dias anteriores ao referendo estive lá e todas essas virtudes brilharam pela ausência, tanto que me pareceu estar em outro país. Um país irritado, presa da demagogia nacionalista mais ridícula e xenófoba, derramada copiosamente pelos defensores do Brexit. Estes apresentavam a saída do Reino Unido da União Europeia como “a recuperação da independência”, uma panaceia com a qual a Grã-Bretanha obteria a prosperidade e o controle absoluto de uma imigração que Nigel Farage, líder do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), mostrava num cartaz racista como uma invasão enlouquecida de subdesenvolvidos negros, mulatos, africanos e asiáticos – enquanto o ex-prefeito de Londres Boris Johnson manifestava seu temor de que a Turquia (cuja incorporação à Europa ele pressagiava iminente) ganhasse o direito de inundar o Reino Unido com 78 milhões de turcos. 

A demagogia, o nacionalismo mais chauvinista e estúpido, os preconceitos racistas, pareciam ter transformado da noite para o dia a Grã-Bretanha num paisinho terceiro-mundista. Essa impressão atingiu para mim o auge quando Boris Johnson, o despenteado e tagarela líder conservador, batia o recorde da mentira protestando porque, segundo ele, os euroburocratas de Bruxelas – os inimigos a vencer para devolver a liberdade ao Reino Unido – gastavam os impostos dos espoliados cidadãos britânicos subsidiando as cruéis touradas na Espanha! 

Enquanto os defensores do Brexit, com bom apoio dos meios de comunicação, inundavam o país com exageros, falsidades, calúnias e um patriotismo de fachada e baixo nível, os defensores da permanência da Grã-Bretanha na Europa – penso principalmente no Partido Trabalhista – mostravam uma frouxidão e pessimismo tais (a começar por seu letárgico líder, Jeremy Corbin, agora questionado por boa parte de seus camaradas que exigem sua renúncia por não ter defendido melhor o que era a política oficial do trabalhismo) que, dir-se-ia, resignavam-se de antemão a uma derrota que, pelo menos alguns deles, secretamente desejavam. Não é de estranhar, portanto, que nas cidadelas trabalhistas da Inglaterra o voto pela saída da Europa tenha suplantado o voto pela permanência. 

O único que defendia energicamente a permanência era o primeiro-ministro David Cameron, o mesmo que, por uma precipitação desnecessária e lamentável, convocou esse referendo sem nenhuma necessidade legal, por um oportunismo político circunstancial que pagou com o fim de sua carreira política – erro pelo qual dificilmente a futura história da Inglaterra o perdoará. E agora? A Europa vai sofrer uma perda considerável com o afastamento do Reino Unido, o país que – vale lembrar agora mais que nunca –, com heroísmo sem igual, salvou o Velho Continente de Hitler e dos nazistas. E não só porque a Grã-Bretanha é a segunda potência industrial europeia, mas porque era, dentro da Europa, a defensora mais enérgica das políticas de livre-comércio e de integração de todos os mercados do mundo.

O triunfo do Brexit abre um péssimo precedente e dá uma ajuda inestimável aos partidos, movimentos e grupelhos antieuropeus e geralmente fascistoides – como a Frente Nacional de Marine Le Pen, na França, a Alternativa para a Alemanha, a frente encabeçada por Geert Wilders na Holanda e aqueles da Polônia, Áustria, Hungria e países escandinavos – que quiseram, em nome do nacionalismo, dar a estocada final na mais ambiciosa empreitada democrática do Ocidente nos tempos modernos. 

Danos. Mas, provavelmente, como disse Chris Patten num dos artigos mais lúcidos que li sobre os resultados do referendo britânico, o mais prejudicado vá ser o próprio Reino Unido. Que a Grã-Bretanha venha a desaparecer, com a separação da Escócia e da própria Irlanda do Norte – que, em consequência do Brexit, perderá suas fronteiras abertas com a República da Irlanda –, é uma perspectiva perfeitamente possível, sobretudo tratando-se da Escócia, onde 62% dos votantes defenderam a opção europeia. 

Mais grave, porém, que o possível desmembramento, o que ameaça agora a Inglaterra é uma lenta decadência, com o país vítima de um nacionalismo político e econômico antiquado que vai contra a tendência dominante no restante do mundo e, sobretudo, no Ocidente; uma tendência que precisamente o Reino Unido impulsionou nos anos dos governos de Margaret Thatcher, John Major e Tony Blair e agora renega de maneira pouco menos que suicida. 

Uma análise rápida dos resultados do referendo mostra uma divisão geracional e intelectual inequívoca: os ingleses mais jovens, mais educados, mais conscientes do risco para seu futuro que o isolamento implica, votaram pela Europa; os mais velhos e mais despreparados, pela saída. A nostalgia de um mundo que se foi e não voltará prevaleceu sobre o realismo, e preferir a irrealidade e os sonhos ao mundo verdadeiro só traz benefícios no campo da arte e da literatura; na vida política e social, geralmente origina catástrofes. 

A decepção dos vencedores do referendo virá rapidamente, e será muito grande, no que diz respeito à imigração, quando eles se derem conta de que sua vitória não vai impedir, nem mesmo diminuir em nada, a chegada dos temidos forasteiros. Porque o que Orwell chamou ironicamente de England your England num de seus melhores ensaios simplesmente já não existe, salvo na fantasia passadista de alguns sonhadores. (Em meio à campanha descobriu-se, por exemplo, que o albiônico Boris Johnson, caudilho do nacionalismo britânico, tinha ancestrais turcos.)

E se derem conta de que não é a União Europeia que traz essa onda de imigrantes a suas praias, mas a necessidade que a Grã-Bretanha tem dela para fazer trabalhos que os ingleses já não fariam nem à força; e as leis sociais que, com mais generosidade que realismo, foram criadas em épocas de bonança para favorecer essa imigração que então parecia tão necessária (e continua sendo, mais que nunca, ainda que as remelas nacionalistas impeçam de ver, se os países desenvolvidos quiserem manter seu alto padrão de vida). 

Em O Leão e o Unicórnio, Orwell fala com muito carinho da Inglaterra e destaca, com justiça, as virtudes de seu povo, seu amor à liberdade, sua sobriedade, o respeito ao próximo, sua crença em que as leis foram feitas para favorecer o bem e os bons e, portanto, têm de ser cumpridas. Ele resume assim suas ideias (cito de memória): “É um bom país, com gente errada no controle”. Lembrei-me muito desse belo ensaio nestes dias deprimentes. Porque se o “controle” da Inglaterra cair em mãos dos homens do Brexit, como quer o pequeno fuehrer Nigel Farage, eles vão transformar de tal modo a terra de Shakespeare que em breve nem a boa mãe que a deu à luz a reconhecerá. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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