Engraxates brasileiros escapam de tragédia no WTC

Um casal de brasileiros que trabalhavam como engraxates no World Trade Center e suas imediações conseguiu escapar da morte depois de o marido, David Mançano, ter ficado preso no elevador, no 50º andar de uma das torres gêmeas, durante os atentados. Para sair do elevador, os ocupantes tiveram de quebrar duas paredes de gesso, caminhar por um saguão escuro e esfumaçado, até encontrarem o corredor por onde já desciam centenas de pessoas, orientadas por bombeiros.Depois de descer os 50 andares a pé pela escada de incêndio, David Mançano encontrou sua esposa, que trabalha num prédio próximo, e viu quando a torre em que trabalhava caiu. Os dois correram muito para não morrer asfixiados pela nuvem de fuligem que os perseguiu por vários quarteirões da baixa Manhattan. "A gente estava respirando terra, era como se estivéssemos mastigando terra pura", revelou, ainda abalado pelas memórias da tragédia.David Mançano é paulistano e trabalhava no World Trade Center há dois anos. Sua esposa, Sofia Sobrinho, natural de Parnaíba, no Piauí, trabalhava no Banco de Nova York, num edifício que fica próximo. No Brasil, Mançano foi assessor de Marketing da CTBC, uma companhia telefônica do Triângulo Mineiro. Quando as possibilidades de ascensão profissional se limitaram, ele procurou a iniciativa privada, mas já com 38 anos encontrou barreiras por causa da idade. Tinha um irmão nos EUA e resolveu tentar a vida no país, onde já mora há 4 anos e meio com a mulher."No Brasil eu achava o que todo mundo acha sobre os Estados Unidos, que dólar nascia em árvore", conta Mançano, que já trabalhou na construção civil e há dois anos trabalhava como engraxate no World Trade Center. Apesar do sufoco por que passou, Mançano não sabe se vai voltar para o Brasil. "Neste momento, ainda estou muito dividido". Ele trabalhava para a empresa Sander O´Neill, no 104º andar da Torre 2. Agora, ele se preocupa com o destino de seus patrões e colegas de trabalho, executivos que "trabalhavam muito, até 14 horas por dia".Segundo o brasileiro, pelo menos 70% dos funcionários já deveriam estar na empresa quando a tragédia ocorreu. Por causa da localização da empresa no prédio, ele acha que muitos podem ter morrido. "Só sinto pelas pessoas que ficaram. É um pessoal muito trabalhador, que não parava nem para almoçar. Mas nestes 2 anos no World Trade Center, nunca vi ninguém de mau humor, brigando. Apesar de não entender muito o inglês, a gente entende o tratamento que eles nos dão. Sei que estava num subemprego, mas era um pessoal que nunca me menosprezou. Eles puxavam conversa comigo, interessados, querendo que eu crescesse aqui."Católico, Mançano diz que agora passa por um período de reavaliação de seus valores espirituais. "Acho que agora tenho que freqüentar mais a igreja". Apesar de já estar há algum tempo nos Estados Unidos, ele ainda tem dificuldades com a língua inglesa, o que é normal com imigrantes que moram em comunidades de brasileiros. Leia a seguir o depoimento em que David Mançano revela momento a momento o drama dos que estiveram no World Trade Center quando o complexo sofreu os ataques terroristas."Chegamos por volta das 8h30, descemos do trem Path, como fazíamos todos os dias. Subimos as escadas rolantes e nos despedimos. Minha mulher saiu pelas galerias em direção ao emprego dela. Eu tomei o elevador até o 44º andar, onde tem uma cantina. Parei para tomar café.Quando estava no 50º andar, o elevador chacoalhou e parou. Não ouvimos nenhum barulho, mas a chacoalhada foi forte e pensamos que alguma coisa havia acontecido. Era um grupo de 6 pessoas, contando comigo. Tentamos abrir a porta, mas ela só abriu parcialmente e dava para uma parede que parecia de concreto.Aí começou a entrar fumaça pela parte de cima do elevador. Os americanos são gente boa, são calmos. Começamos a bater na parede e percebemos que era de gesso. Alguém tinha um canivete, começamos a furar a parede e abrimos um buraco que dava para passar uma pessoa. Todos saíram. Eu fui o segundo. Quando saltamos, estávamos num vão escuro, com muita fumaça, e havia outra parede.Começamos a sentir falta de ar, pois o vão era pequeno e havia muita fumaça. Como a parede também era de gesso, quebramos com os pés, chutando e arrancando os blocos que caíam. Saímos num banheiro que estava escuro. Não sei se estava escuro por falta de luz ou se era a fumaça que cobria a iluminação. Como a fumaça vinha de cima, andamos nos rebaixando. De lá saímos para um corredor, onde vimos muitas pessoas correndo.Não sei dizer quanto tempo se passou, se foram minutos ou segundos. Fomos no sentido em que o pessoal estava correndo, foi uma reação instintiva. Vimos os bombeiros americanos, com aquelas roupas que parecem de astronautas, com faixas brilhando. Eles nos orientaram para seguirmos para as escadas de incêndio.A gente nem via o chão, de tanta gente que tinha. Não chegou a haver pânico, ou histeria, mas todo mundo dizia impaciente "go, go, go, don´t stop". Todos descemos em passo acelerado, mas sem pânico. Quando chegamos ao térreo, saímos pelo hall de elevadores já perto da rua. Na rua, muito papel, computadores, vidro no chão, cheiro de gasolina.A única coisa em que eu pensava era correr para poder pegar minha mulher no outro prédio. Saí pela Rua Liberty, onde havia uma feirinha de doces caseiros e de produtos naturais. Os donos das barracas ainda tentavam recolher os produtos. A polícia mandava a gente correr, se afastar dali. Subi até a Liberty Plaza e fui até a porta do prédio onde minha mulher trabalha. Quando eu cheguei, minha mulher estava do lado de fora, me esperando. Ela estava chocada, pois tinha ouvido a primeira explosão e, quando foi para o lado de fora, viu a explosão na Torre 2. Ela gelou, apontou para cima. Foi aí que eu parei para olhar e vi o que estava acontecendo. Ficamos atônitos, sem saber o que estava acontecendo. Tinha gente comprando máquina fotográfica para tirar foto. As pessoas demoraram a cair na real naquele momento.A polícia e os bombeiros começaram a empurrar a gente, era para continuar, seguir em frente, sair dali. Aí começamos a andar. Quis correr, mas minhas pernas não deixaram. Algumas pessoas falaram, em espanhol, que o prédio estava caindo. Era exatamente a Torre 2, em que eu estava.A gente estava a umas três quadras dali, no sentido da Wall Street, e a fumaça ainda pegou a gente. Por mais que a gente corresse, a fumaça vinha rápido. Vinha de todo lado, por baixo, por cima. Não sei quanto tempo isso levou. Não soltei a mão da minha mulher, a gente não podia se perder.Um paramédico chegou com uma pequena máscara de oxigênio, deu uma aliviada. A gente estava respirando terra, era como se estivéssemos mastigando terra pura. Ficava uma coisa grossa na boca, que a gente mastigava. Depois do oxigênio, continuamos em frente. A fumaça veio atrás. A gente andava, andava, a fumaça continuava. Fui olhando, para tentar ver para que lado a fumaça estava indo, para tentar ir para um outro lado, mas a nuvem de fumaça era muito alta, não deu para ver nada. A gente só sabia que estava indo no sentido contrário do que tinha acontecido, não dava para ver nada, nem as placas dava para ler.Entramos numa deli (lanchonete), o pessoal deu água para gente. Seguimos por ruas estreitas e só paramos de correr da fumaça quando já conseguíamos ver o rio East River, e alguns barcos, alguns píers.Quem mais ajudou a gente foram os hispanos, que a gente entendia. Alguns hispanos ofereceram carona para o Queens, mas moramos do outro lado. Eles deixaram a gente na Rua 42. Caminhamos até a Rua 46, mas as lojas dos brasileiros já estavam fechadas. Vimos alguns brasileiros que estavam assustados. Contamos para eles o que tinha acontecido. Perguntamos se eles tinham algum lugar para onde ir. Mas eles eram turistas e não conheciam nada.Foi um outro casal, do Equador, que nos acolheu. Nos levaram para o quarto deles na Rua 58. Lavamos o rosto, fomos ver TV. Começamos a ver o que estava acontecendo. Soubemos que não havia como sair de Nova York. Além disso, estávamos exaustos. Eles nos convidaram para ficar lá, e nós ficamos. Compraram alguma comida e ficamos lá até quarta-feira de manhã.Eles foram muito amigos, nos trouxeram no caminhão de um amigo, quando clareou o dia. No caminho para Newark, víamos a fumaça do WTC. Viemos por cima, pela George Washington Bridge. Vimos a fumaça todo o dia.Chegamos em casa e ligamos para o César (dono do restaurante Tropicana, onde se reúnem imigrantes brasileiros em Ironbound, o bairro de imigrantes de Newark) e passamos lá para comprar cartões de telefone. A primeira preocupação era ligar para o Brasil. Quando ligamos, estavam todos tristes, em pânico, chorando. Até eles se convencerem de que estávamos bem... Agora é agradecer.Até agora, às vezes eu acho que não foi nada disso... Fico pensando nas pessoas todas que conhecíamos. Os executivos da empresa Sander O´Neill e da Turkey Anthony (esta fica no World Financial Center, vizinho ao WTC) eram muito esforçados. Uns 70% dos funcionários já estavam lá quando tudo começou."

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