David McNew/Reuters
David McNew/Reuters

Enquanto Biden e Xi Jinping adotam movimentos cuidadosos, nova política americana ganha corpo

Autoridades do alto comando do governo se reuniram com seus colegas chineses pela primeira vez nesta semana, com os Estados Unidos adotando uma postura mais competitiva com relação a Pequim

David E. Sanger e Michael Crowley, The New York Times

19 de março de 2021 | 05h00

WASHINGTON - O presidente Joe Biden projeta uma mudança drástica da política relativa à China, concentrada na reunião de aliados para frear a diplomacia coercitiva chinesa e garantir que o país não assuma uma posição de vantagem permanente no campo das tecnologias consideradas cruciais.

À primeira vista, a impressão é de que o projeto de Biden tem muito da convicção do governo Donald Trump, de que as duas maiores potências do mundo estão seguindo o caminho do confronto, uma nítida mudança de tom da política adotada nos anos do presidente Obama.

Mas a nova estratégia repudia mais diretamente a visão predominante nos últimos 25 anos de que a forte interdependência econômica pode contribuir para uma moderação de conflitos fundamentais em assuntos como a ascensão militar da China, suas ambições territoriais e direitos humanos.

O novo foco é numa competição mais agressiva com Pequim no campo de tecnologias vitais para o poder militar e econômico de longo prazo, entendendo que a estratégia adotada por Trump - uma combinação de tarifas altas, esforços para banir a Huawei e TikTok e acusações de que o país enviou “um vírus chinês” para as costas americanas - não mudou a trajetória seguida por Xi Jinping.

Mudança    

O resultado, como o assessor de segurança nacional de Biden, Jake Sullivan, já havia afirmado à época da campanha eleitoral no ano passado, é uma estratégia “com menos foco em deter a China e mais ênfase nas nossas tentativas para avançarmos mais rápido”, por meio de mais investimentos do governo em pesquisa e tecnologias como semicondutores, inteligência artificial e energia.

Sullivan e o secretário de Estado Antony Blinken testarão a nova estratégia com seus colegas chineses no primeiro encontro esta semana em Anchorage, Alasca. Trata-se de uma reunião que havia sido retardada até conseguirem esboçar os contornos de uma estratégia comum com seus aliados - especialmente o Japão, Coreia do Sul, Índia e Austrália - e um encontro que insistiram para ser em solo americano.

Mas a reunião também é a primeira demonstração da determinação de Pequim de fazer frente ao novo governo americano e uma chance de os seus diplomatas apresentarem uma lista de queixas sobre a interferência “maligna” de Washington em assuntos que dizem respeito à China, como declarou na quarta-feira o porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês.

Na quarta-feira, os Estados Unidos impuseram sanções sobre 24 autoridades chinesas alegando que estão minando as liberdades democráticas de Hong-Kong,  medida cujo sentido de oportunidade foi pontual e claramente intencional. Esta semana, em Tóquio, Blinken afirmou que “rechaçaremos caso seja necessário quando a China usar da coerção ou agressão para conseguir o que deseja”.

E é o que vem ocorrendo quase que diariamente, incluindo os esforços de Pequim para pôr fim à autonomia de Hong Kong, intimidar a Austrália e Taiwan e continuar, mesmo com a condenação internacional, com o que Blinken chamou de “genocídio” da minoria uigur na China. Tudo isto faz parte dessa redefinição do relacionamento entre os dois países que marcou os novos contatos, bem mais tensos, de Biden com Xi Jinping.

Confronto inevitável?

Quando Biden foi vice-presidente e Xi vinha consolidando seu poder para se tornar o líder mais poderoso da China em décadas, os dois se reuniram na China e nos Estados Unidos e publicamente deram garantias de que o confronto não era algo inevitável.

A avaliação da inteligência dentro do governo naquela época era de que Xi Jinping avançaria cautelosamente, com foco no desenvolvimento econômico doméstico e no sentido de evitar um confronto direto. Mas nos seus anos longe do poder, os assessores encarregados da condução dessa nova estratégia concluíram que a avaliação anterior foi um mau julgamento das intenções e da agressividade do líder chinês.

E a nova abordagem - uma combinação de promessas para cooperar em áreas de preocupação mútua, como a mudança climática e ao mesmo tempo enfrentar mais diretamente a China na competição militar e tecnológica no espaço e no ciberespaço - está se tornando cada vez mais clara.

Seus contornos ficaram refletidos, segundo os assessores, quando de uma conversa telefônica de duas horas, no mês passado, entre Biden e Xi, cujo conteúdo foi mantido em sigilo por ambos os lados. Os assessores de Biden informaram que o presidente alertou Xi para não acreditar na própria narrativa da China de que os Estados Unidos são uma potência decadente consumida pelas divisões políticas que ficaram à mostra nos tumultos no Capitólio em 6 de janeiro.

Entretanto, logo após essa conversa, Xi teria afirmado a autoridades locais, numa visita ao noroeste da China, que “a maior fonte de caos no mundo atual são os Estados Unidos”,  que ele descreveu como “a maior ameaça ao desenvolvimento e à segurança do nosso país”.

Sullivan e Blinken estão apostando que a declaração feita por Xi tem um vestígio de insegurança, um temor de que, apesar de todo o alarde do país sobre seus novos sistemas de armamentos e avanços no campo da inteligência artificial, ele é vulnerável a “pontos de estrangulamento” onde os Estados Unidos continuam no controle da tecnologia de base.

Corrida

O resultado é que ambos os países estão numa corrida para assegurar suas próprias cadeias de suprimento e reduzir a dependência recíproca - uma reversão de 40 anos de integração econômica. Mas, num sentido mais amplo, isto reflete o fim de um conceito pós-Guerra Fria segundo o qual os interesses das duas potências estavam inextricavelmente interligados.

Henry Kissinger, o homem que abriu o caminho dos EUA para a China, há quase 50 anos, disse logo depois de Biden ser eleito que Estados Unidos e China cada vez mais se dirigiam no sentido de um confronto. Numa conferência da Bloomberg em novembro, Kissinger afirmou que “o perigo é de que alguma crise venha a ocorrer que possa ir além da retórica e se tornar um conflito militar real”.

As autoridades chinesas leram e releram um artigo publicado há três anos no Foreign Affairs segundo o qual o mundo tinha de admitir a ideia de que “um fim da pós-Guerra Fria presumia que as duas grandes potências tinham de se entender - e o fariam”. Os EUA, escreveram Kurt Campbell e Ely Ratner, “subestimaram a disposição da China a fazer frente aos Estados Unidos, ou usar sua força econômica para reescrever as regras do comércio e da tecnologia a seu favor” e não “detectaram os instintos nacionalistas e autoritários de Xi Jinping”.

Hoje Campbell é o coordenador de políticas para a Ásia na Casa Branca com novos poderes sobre uma série de departamentos de governo. E Ratner, recentemente investido como principal autoridade do Pentágono para a Ásia, está encarregado de um projeto há quatro meses para reavaliar a competição militar entre os dois países.

A sua revisão deve abranger tudo, desde a adoção por Pequim, de modo lento, mas firme, de um arsenal nuclear mais sofisticado, até suas capacidades cada vez maiores no campo espacial e do maquinário supersônico, com o fim de manter as frotas navais americanas à distância e impedir os Estados Unidos de assumirem o risco de armar uma defesa de Taiwan.

As autoridades americanas alertam que uma crise em Taiwan vem fermentando, uma vez que Xi, encorajado pelo seu sucesso em sufocar os dissidentes em Hong Kong, pode começar a intimidar uma ilha que considera uma província separatista.

Taiwan

Na semana passada, o chefe do Comando Indo-Pacífico americano, o almirante Philip Davidson, avisou que a China poderia tentar assumir o controle de Taiwan nos próximos seis anos. E um contratorpedeiro americano se dirigiu para o Estreito de Taiwan no dia seguinte, um lembrete de que qualquer medida explícita para assumir o controle da ilha resultaria numa resposta dos Estados Unidos.

Entretanto, muitas pessoas no Pentágono acham que os estrategistas chineses olham cada vez mais essas demonstrações de força como gestos vazios, convencidos de que um país já cansado de guerras fracassadas no Afeganistão e em outras partes do mundo não assumirá o risco de um confronto militar.

O ponto central da crítica do governo Biden da estratégia adotada pelo presidente Trump com relação à China é exatamente a ausência de uma estratégia competitiva. Trump e seu secretário de Estado, Mike Pompeo, ameaçaram os aliados que vinham negociando para instalar a rede de comunicações 5G da Huawei, afirmando que poderiam ser excluídos da inteligência dos Estados Unidos porque Washington não se arriscaria a ter dados críticos desviados para os chineses.

Mas ele não ofereceu nenhuma alternativa a eles. A equipe de Biden promete um enfoque diferente, que explora, por exemplo, maneiras de organizar as democracias ocidentais de modo a utilizarem software de fonte aberta americano e dispositivos feitos na Europa, da Nokia e Ericsson, oferecendo uma alternativa mais segura, e ocidental, à Huawei.

Mas isto exige um nível de cooperação de governos e setor privado que é muito raro em tempos de paz e pode levar anos para reunir. Elementos da estratégia adotada por Trump naturalmente continuam, como as tarifas punitivas sobre as importações chinesas, que uma autoridade do governo, em conversa com jornalistas no mês passado, chamou de fonte de “alavancagem”.

Mas Biden discorda da declaração de Pompeo de que, com pressão suficiente, o Partido Comunista chinês cairá. No mês passado, Graham Allison, cientista político de Harvard, e Fred Hu, um importante investidor, afirmaram que hoje não existe nenhuma alternativa a não ser lidar com a China como ela é.

“Evitar crises militares, combater a mudança climática, frear futuras pandemias, impedir a proliferação nuclear, combater o terrorismo, solucionar crises financeiras”, escreveram, “nada disto pode ser feito sem aceitar a realidade de que o regime autocrático de Pequim governa a China agora e continuará governando num futuro previsível”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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