Eric Thayer/The New York Times
Eric Thayer/The New York Times

Enquanto Trump silencia sobre armas, Las Vegas estimula ‘turismo da bala’

Clubes da cidade oferecem pacotes de diferentes preços para quem quiser descarregar revólveres ou rifles semiautomáticos; por US$ 3 mil, turista pode decolar de um helicóptero e disparar uma metralhadora M249 durante o voo

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Las Vegas, EUA, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2017 | 05h00

Na manhã do último dia de sua lua de mel em Las Vegas, os britânicos Patrick e Jacqueline Louise decidiram fazer algo proibido em Londres: atirar. A cidade conhecida pelos cassinos também tem uma movimentada rota de “turismo da bala”, com clubes que oferecem do básico revólver a disparos de metralhadora a bordo de helicópteros sobre o deserto.

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Não é necessária experiência prévia e crianças a partir de 10 anos podem usar determinadas armas, desde que acompanhadas dos pais. No Machine Gun Vegas (MGV), a “experiência infantil” custa US$ 55 e abrange tiros com Beretta ARX e M4, ambas com balas de calibre 22. Frequentado principalmente por estrangeiros, o clube foi o escolhido pelo casal Louise.

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“Viemos para a América e decidimos atirar, porque é algo que não conseguimos fazer na Inglaterra”, disse Patrick. O casal chegou a Las Vegas no sábado, na véspera do ataque que deixou 59 mortos e mais de 500 feridos. “Essa é uma semana que não esqueceremos. E não por boas razões.” Três dias depois do massacre, a polícia ainda não descobriu o que levou o aposentado Stephen Paddock a cometer o massacre.

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Como muitos, Patrick disse “não entender” a facilidade com que Paddock conseguiu reuniu um arsenal e rifles semiautomáticos, 12 dos quais transformados em metralhadoras graças a um acessório vendido legalmente. Das 47 armas que atirador tinha, 33 foram compradas no ano passado. Apesar do elevado número, isso não levantou suspeitas porque Paddock não tinha antecedentes criminais e passou pelas checagens exigidas por lei.

“Uma coisa é ter uma arma que dispara seis balas para se proteger. Mas por que alguém precisa de 23?”, perguntou, em referência ao número de armas encontradas no quarto do atirador. “Nós, britânicos, não entendemos por que alguém precisa ter uma metralhadora.” 

O presidente Donald Trump esteve ontem em Las Vegas, visitou feridos e se reuniu com policiais e médicos que responderam à tragédia. “Não vamos falar sobre isso hoje”, respondeu Trump quando perguntado sobre a questão da violência com armas. “Ele era um homem doente, uma pessoa muito demente”, observou, em relação a Paddock. Ontem, enquanto Trump percorria as ruas da cidade, clientes chegavam ao Strip Gun Club, o galpão de tiros que fica na parte antiga da “The Strip”, a avenida de 6,8 quilômetros que reúne os principais cassinos e atrações turísticas de Las Vegas. 

O preço dos pacotes do Strip Gun Club varia de US$ 99,95 (R$ 313) a US$ 309 (R$ 972), dependendo das armas envolvidas. Com sorrisos, jovens de regata e shorts recebem os clientes na recepção, que parece uma butique, na qual são vendidas camisetas e bugigangas, entre as quais um abridor gigante de champanhe em formato de rifle vendido por US$ 524,95 (R$ 1.646).

Com música eletrônica ao fundo, o instrutor explica, em menos de três minutos, os procedimentos básicos de segurança, que podem ser resumidos a duas regras: não mire a arma em nada além do alvo à sua frente e nunca tire o protetor de seus ouvidos. Enquanto ele fala, é possível escutar os disparos dos que já estão no galpão de tiros.

Mas a prévia não é suficiente para preparar os inexperientes para o barulho. É quase impossível não reagir com saltos e gritos abafados aos primeiros estrondos. “Isso é comum. Você logo se acostumará”, diz o instrutor. A faixa ao lado no galpão é ocupada por um homem que dispara com rifle de alto calibre. Mesmo com proteção, o som é assustador. O cliente a sua direita optou por uma metralhadora manual, movida por manivela.

No site de viagens Trip Advisor, os clubes de tiro aparecem como a quinta atração mais popular de Las Vegas, em uma lista de 460. O MGV é um dos maiores e tem pacotes que incluem despedidas de solteiro e armas de combate. A opção mais cara, de US$ 2.999 (R$ 9.400), envolve helicópteros e metralhadoras. Segundo o site da empresa, essa é a “única experiência do mundo em que civis” podem atirar com uma M249 da porta de um helicóptero durante o voo.

 

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