Ensino nos EUA e os super-herois

Enquanto Washington se consome na discussão sobre se o nosso presidente seria secretamente um muçulmano, gostaria de abordar uma boa notícia. Mas para assimilá-la é preciso fazer um grande esforço.

Thomas L. Friedman The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2010 | 00h00

E o que vai descobrir é que existe um movimento apaixonado no país em torno do sistema de ensino. Desde o surgimento das novas escolas Charter (escolas públicas sob administração privada) até o novo contrato do sindicato dos professores em Washington, pelo qual se pretende recompensar muito os professores que conseguirem que seus alunos aprendam mais rápido, eliminando os que não avançam, os americanos finalmente começam a levar a sério a crise do ensino. Se você não quiser fazer nenhum esforço, vá ao cinema após 24 de setembro para assistir ao documentário Esperando pelo Super-homem. E saberá sobre o que estamos falando.

Dirigido por David Guggenheim, o título desse documentário tem como base uma entrevista com o notável Geoffrey Canada, fundador do Harlem Children"s Zone. O HCZ adotou uma ampla estratégia, incluindo o Baby College pré-natal e tempo maior de permanência das crianças nas escolas, para criar um novo caminho para o futuro de uma das áreas mais inóspitas de Nova York. O argumento de Canada é que a única maneira de resolver o problema de nossas escolas não é com um super-homem ou uma superteoria. Mas com super-homens e supermulheres esforçando-se ao máximo para reunir o que sabemos que funciona: professores mais bem treinados trabalhando com os melhores métodos sob a condução dos diretores mais capacitados e apoiados por pais mais envolvidos.

"Um dos dias mais tristes da minha vida foi quando minha mãe me disse que o Super-homem não existia", diz Geoffrey no filme. "Ela achou que eu chorava porque era como o Papai Noel, que não é real. Mas eu chorava por outra razão, porque não havia ninguém com grande poder para nos salvar."

Esperando pelo Super-homem acompanha cinco crianças e seus pais que aspiram um ensino público decente, mas precisam participar de uma loteria para conseguir uma boa escola Charter, pois as escolas públicas do seu distrito são totalmente ineficientes.

Guggenheim abre o filme explicando que ele sempre foi a favor de os pais enviarem os filhos para as escolas públicas locais, até "chegar o momento de escolher uma escola para meus próprios filhos. Aí, então, a realidade se fez presente. Minhas impressões sobre a escola pública não importavam tanto quanto meu temor de matriculá-los numa escola deficiente.

Então, a cada manhã, traindo meus ideais de vida, passamos por três escolas públicas para depois matricular meus filhos numa escola Charter. Mas sou afortunado. Tive essa possibilidade. Outras famílias depositam suas esperanças num número da sorte. Porque quando há uma escola pública excelente, o espaço não é suficiente. Por isso colocamos nossos filhos e seu futuro nas mãos da sorte".

É intolerável o fato de que hoje, nos EUA, uma bola de sorteio de loteria é que vai determinar o futuro educacional de uma criança. O documentário é sobre as pessoas que estão tentando mudar isso. A tese central é que por um tempo muito longo nosso sistema público de ensino tem por meta atender os adultos, não as crianças. O filme lança um desafio a todos os adultos que dirigem nossas escolas com uma pergunta: você está colocando seu filho e a educação dele em primeiro lugar? Porque sabemos o que funciona e não é uma cura milagrosa. É a tenacidade dos diversos Canada, é o heroísmo silencioso de milhões de professores e pais que colocam seus filhos em primeiro lugar, adotando as melhores ideias e, agindo assim, tornando as escolas um pouco melhores e mais responsáveis a cada dia - de modo que nenhuma família americana precisará novamente participar de um jogo de loteria com seus filhos, ou rezar para ser salva pelo Super-homem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E ESCRITOR

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