EFE/Yander Zamora
EFE/Yander Zamora

Ensino pode ser a cicatriz mais duradoura da covid-19 na América Latina

Lacuna educacional  ampliará desigualdade e afetará crescimento, a menos que levemos a sério os sinais de alerta

Nora Lustig, Guido Neidhöfer, Mariano Tommasi / Americas Quarterly , O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 04h00

A pandemia da covid-19 está expondo a América Latina a um grave risco de desmantelamento do progresso que a região alcançou nas décadas mais recentes em seu ensino. De acordo com a Unicef, 95% das crianças estão fora da escola, em uma região em que a mobilidade social resultante da educação já é baixa e onde a igualdade de oportunidades é rara. 

Mas é possível que a atual geração de crianças em idade escolar – especialmente nos lares de baixa renda e pouca escolaridade – esteja prestes a encarar exíguos níveis de progresso educacional, vistos pela última vez nos anos 60. Retrocessos na educação são ruins não somente para as crianças diretamente afetadas. Como resultado, o futuro da América Latina pode ser de perdas no crescimento econômico e crescente polarização política.

Se as escolas fecham as suas portas para estudantes de todas origens socioeconômicas, a habilidade das crianças de continuar aprendendo depende da renda e do nível de escolaridade de seus pais. Como em outras partes do mundo, pais com nível superior de escolaridade têm mais acesso a internet, computadores, tablets – assim como a conhecimentos e habilidades não cognitivas para ajudar no ensino em casa, ou homeschooling. 

Esses pais também possuem recursos econômicos para contratar tutores e adquirir os melhores cursos online. Já para as crianças que vivem em lares com pais de baixo nível de escolaridade pode ser impossível dar continuidade à educação em casa, em razão da falta de equipamentos adequados, conectividade e, acima de tudo, da instrução cara a cara. Para citar um exemplo dessas desigualdades, a cobertura de internet nos lares cujos chefes de família têm ensino médio incompleto em Honduras, Bolívia, El Salvador e Nicarágua chega a aproximadamente 30%, mas passa de 90% entre as famílias desses países cujos adultos foram além do ensino médio.

Os filhos de lares menos favorecidos terão como resultado níveis mais baixos de aprendizado, e muitos deles podem abandonar a escola de vez. Isso resultará em mobilidade social mais baixa e maior desigualdade de oportunidades no futuro. Governos de todo o continente implementaram várias medidas educacionais, cuja escala varia significativamente entre os países, usando TV, rádio, material impresso e online – assim como programas de auxílio de renda.

Essas políticas de redução de danos, porém, simplesmente são insuficientes. Nossas projeções, que têm base nos exercícios de simulação que detalharemos no nosso próximo estudo a respeito dos efeitos intergeracionais da covid-19 na América Latina, estimam que a probabilidade média de os estudantes da região completarem o ensino médio na América Latina deve cair, em breve, de 61% para 46% (o artigo, atualmente em elaboração, será publicado em breve pelo Commitment to Equity Institute).

Essa média, porém, encobre enormes disparidades entre diferentes países e grupos socioeconômicos. Enquanto o impacto em indivíduos de famílias de escolaridade alta é bem pequeno, a probabilidade de completar o ensino médio para indivíduos com pais de baixo nível de escolaridade será consideravelmente menor após a pandemia, caindo quase 20 pontos porcentuais, de 52% para 32%. 

Declínio mais acentuado no Brasil

Esse baixo nível de formação educacional entre filhos de famílias de baixa escolaridade foi registrado na América Latina na geração nascida nos anos 60. O declínio mais acentuado deve ocorrer no Brasil: 32 pontos porcentuais; a queda menos dramática, no Uruguai: 9 pontos porcentuais. Na Guatemala e em Honduras, a probabilidade de completar o ensino médio para indivíduos oriundos de famílias com baixo nível educacional poderá cair até mais de 10%. Desta maneira, tende a aumentar significativamente a diferença entre a probabilidade de completar o ensino médio entre crianças de famílias de baixo e alto nível educacional. 

Algo pode ser feito para evitar essa força de aprofundamento da desigualdade? Para aliviar o impacto negativo do fechamento de escola para as crianças, os governos estão realizando experiências de reabertura prudentes do ponto de vista epidemiológico.

Reabrir as escolas, porém, não é suficiente neste momento, nem será suficiente no período pós-pandemia. Haverá uma necessidade de compensar as perdas, aumentando tanto a quantidade quanto a qualidade do tempo de aprendizado, uma vez que a pandemia seja controlada. Os sistemas de ensino precisarão planejar horários estendidos, programas escolares posteriores ao horário das aulas e em períodos de férias, além de orientações mais personalizadas para os estudantes. 

Esforços também devem ser direcionados para o desenvolvimento de recursos gratuitos na internet e fora dela para expandir a conectividade de escolas e outros locais, para que os recursos sejam baixados sem custo. O foco deve estar nas crianças mais vulneráveis. Ou seja, nos filhos de lares com baixo nível de escolaridade, já que eles são os mais propensos a perder uma parte maior do seu tempo de aprendizado.

As ações reparadoras e de resgate vão exigir recursos, especialmente financeiros. Uma recomendação fundamental é que os governos não cortem despesas com a educação, em um momento em que encaram a necessidade inevitável de dominar déficits fiscais (déficits não somente aceitáveis, mas que foram incentivados durante a pandemia). O fato é que o mais provável é um aumento na necessidade de recursos fiscais destinados à educação. 

O desafio é tão grande que a ajuda de atores não estatais também será necessária. Filantropia privada, setor privado e organizações comunitárias, bem como os governos, deveriam lançar uma cruzada para evitar que a próxima geração de crianças vulneráveis fique para trás. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL


*NORA LUSTIG É PROFESSORA DE ECONOMIA LATINO-AMERICANA E DIRETORA DO COMMITMENT TO EQUITY INSTITUTE, NA UNIVERSIDADE TULANE

GUIDO NEIDHÖFER É PESQUISADOR NO ZEW – LEIBNIZ CENTRE FOR EUROPEAN ECONOMIC RESEARCH, EM MANNHEIM, NA ALEMANHA

MARIANO TOMMASI É PROFESSOR DE ECONOMIA E DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS PARA DESENVOLVIMENTO HUMANO, NA UNIVERSIDADE DE SAN ANDRÉS, NA ARGENTINA 

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