Entenda a crise do gás entre Ucrânia e Rússia

A decisão da Gazprom, empresa estatal de gás da Rússia, de cortar o fornecimento para a Ucrânia por causa de uma disputa em torno de um aumento de preços, afetou países da União Européia (UE). O gás para a Europa Ocidental é transportado pelo mesmo gasoduto que cruza o território ucraniano, e existe espaço para confusão sobre de quem é o produto. Entenda o problema:Por que o fornecimento foi cortado? A Gazprom cortou o fornecimento para a Ucrânia no dia 1º de janeiro deste ano depois que expirou o prazo para que fosse feito um acordo sobre o preço do produto.O governo ucraniano rejeitou uma oferta de última hora da Rússia de manutenção dos preços por três meses e entrada em vigor do reajuste depois disso.A Ucrânia argumentou que está pronta para pagar os "preços de mercado", mas quer uma transição gradual e não uma mudança repentina.O gasoduto que passa pela Ucrânia está sendo usado para transporte de gás da Rússia para consumidores em outros países, apenas a parcela dos consumidores ucranianos foi cortada.Que impacto isso terá sobre a Europa Ocidental? A Gazprom assegura que o gasoduto tem gás em volume suficiente para seus demais clientes, contanto que nenhuma parcela do produto seja desviada no meio do caminho.A Rússia abastece cerca de 20% do gás usado na União Européia como um todo. Apesar das garantias da Rússia, é possível que problemas no fornecimento tenham efeito sobre a União Européia.Poucas horas depois de confirmado a interrupção para a Ucrânia, alguns países da Europa Central anunciaram que houve cortes no volume de gás que recebem da Rússia. Outros países, incluindo a Alemanha, que é a maior economia da Europa, alertaram que não está afastada a possibilidade de cortes para a indústria.A Ucrânia está desviando gás destinado à Europa? A Ucrânia disse que não fará isso, mas existe espaço para confusão ou desentendimento sobre a quem pertence o gás no gasoduto.A Ucrânia importa gás do Turcomenistão por meio da rede russa de gasodutos, e autoridades ucranianas dizem que continuam a receber esse gás.A Rússia, porém, diz que cortou a entrada do gás do Turcomenistão no sistema, e que o único gás no gasoduto pertence a seus clientes na Europa central e do Leste.Além disso, o governo da Ucrânia diz que os contratos existentes prevêem que seu país tem direito a 15% do gás que passa no gasoduto, como pagamento pelo transporte para a Europa.Segundo o governo ucraniano, o país não está usando esse gás no momento, mas vai começar a usar se a temperatura cair abaixo de -3º C. A temperatura na Ucrânia anda em torno de 0º, elevada para essa época do ano.O que a Europa Ocidental pode fazer? A Europa Ocidental tem opções. Existem reservas que podem ser usadas para cobrir problemas temporários de fornecimento e outros fornecedores, especialmente a Noruega, podem aumentar o volume de gás que vende para outros países da Europa.A Polônia diz que quer que a Rússia mande mais gás por outro gasoduto, que passa pela Bielo-Rússia, para compensar a redução em fornecimento do gasoduto ucraniano.Pelo menos um país europeu, a Hungria, pediu a grandes empresas que troquem para óleo quando possível. A UE marcou uma reunião para discutir a questão para o dia 4 de janeiro, mas o comissário de Energia da UE, Andris Piebalgs, já disse que a situação é preocupante.Qual o impacto sobre a Ucrânia? O Turcomenistão é o maior fornecedor de gás para a Ucrânia, mas o gás da Rússia ainda atende a 30% do total de consumo ucraniano. A perda dessa parcela pode ser um problema no inverno.Autoridades do setor de gás da Ucrânia disseram que as necessidades de aquecimento serão atendidas pela produção do próprio país, mas poderá haver cortes para consumidores industriais.Que outras fontes tem a Ucrânia? Atualmente cerca de 22% do consumo de gás na Ucrânia é atendido pelo produto local, extraído de reservas nacionais. Pode haver ainda algum uso de capacidade não utilizada, mas o impacto seria marginal.Turcomenistão e Casaquistão podem ser fontes alternativas de gás para a Ucrânia. No entanto, eles não poderiam compensar a perda completa do suprimento da Rússia, que chega a 25 bilhões de metros cúbicos por ano.Além disso, o gás desses países teria que ser entregue por meio da rede de gasodutos da Rússia e parece que esse sistema não está funcionando muito bem neste momento.O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Boris Tarasyuk, disse à BBC no domingo, 1º de janeiro, que a Ucrânia, de fato, não precisa de suprimento da Rússia no momento. O que precisa, segundo ele, é de entrega garantida de gás do Turcomenistão através dos gasodutos russos.A longo prazo, a Ucrânia pode melhorar sua segurança de energia aumentando seus níveis de eficiência de uso de energia, que são baixos.Por que a Rússia está exigindo um aumento elevado dos preços? Autoridades russas dizem que é uma questão puramente comercial. Afirmam que os atuais preços do gás fornecido para a Ucrânia são subsidiados e que querem um valor indexado aos preços do mercado internacional.A Rússia queria aumentar o preço de US$ 50 para US$ 230 por mil metros cúbicos. O preço médio na UE é de US$ 240. Para alguns países europeus que estão longe da Rússia, o valor pode ser mais alto, por causa dos custos do transporte.Líderes ucranianos dizem que a exigência de aumento do preço do gás pela Rússia tem motivação política. As relações entre os dois países estão tensas desde a chamada "Revolução Laranja", em 2004, que resultou na eleição para a Presidência da Ucrânia de Viktor Yushchenko, que é favorável ao Ocidente.Quais as evidências que existem de que a demanda da Rússia é política e não comercial? As evidências são circunstanciais. A mais forte delas são os baixos preços que continuam a ser cobrados de outras ex-Repúblicas soviéticas. Contratos recentes com a Bielo-Rússia fixam um preço de US$ 47, e acordos com a Armênia e a Geórgia são para um valor em torno de US$ 110.Também levantaram-se suspeitas de um acordo da Gazprom com o Turcomenistão, maior fornecedor de gás da Ucrânia. A Gazprom se comprometeu a comprar 30 bilhões de metros cúbicos de gás do Turcomenistão, mais do que compra normalmente, e isso pode limitar as opções da Ucrânia.

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