Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos para evitar um aprofundamento das tensões

Redação - O Estado de S.Paulo

A crise envolvendo a UcrâniaRússia, os Estados Unidos e a Otan tem origem no fim da Guerra Fria. Com o colapso dos regimes comunistas no Leste Europeu, a aliança militar entre europeus e americanos avançou rumo a leste, com países que antes eram da esfera soviética passando à zona de influência ocidental.  Na madrugada desta quinta-feira, 24, o presidente  Vladimir Putin decidiu atacar a Ucrânia, após três meses de pressão militar. 

Com a ascensão de ao poder de Putin na Rússia, em 2000, lentamente começou uma reação russa no sentido de conter essa expansão para o leste. Isso ocorreu porque, para Putin, é fundamental uma espécie de 'zona-tampão' entre a Rússia e o Ocidente para a defesa estratégica de seu país.

Diante disso, primeiro, o Kremlin trabalhou para desestabilizar governos pró-Ocidente na Ucrânia e no Caucaso, ainda na primeira década deste século. A partir de 2007, a preocupação de Putin com o avanço da Otan o levou a operações militares contra a Geórgia, em 2008, e contra a Ucrânia, com a anexação da Crimeia em 2014. 

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No fim de 2021, Putin mobilizou militares e linhas de suprimento na fronteira, para pressionar a Otan a desistir de avançar para as ex-repúblicas soviéticas, e até mesmo, a retirar tropas de países como Bulgária e Romênia

Tanque russo dispara durante exercício militar perto da cidade Rostov, na fronteira com a Ucrânia  Foto: AP

Por que Putin decidiu ameaçar a Ucrânia agora?

Putin  considera expansão da Otan para o leste uma ameaça existencial à Rússia. Nos últimos anos, ele tem reconstruído o poderio militar russo e reafirmado sua importância geopolítica na região.

Conforme a força bélica russa cresceu, suas ameaças tornaram-se mais intensas. As bases de mísseis da Otan na Polônia também são descritas por ele como uma ameaça. Além disso, Putin insiste que Ucrânia e Belarus, historicamente e do ponto de vista cultural, são partes da Rússia.

Aos 69 anos, Putin tem como objetivo redesenhar as fronteiras geopolíticas da era soviética, com a Ucrânia retornando à área de influência russa. Menos claro é como ele pretende fazer isso por meio da força. O custo de uma intervenção militar seria alto, seja por sanções ou até mesmo com uma resposta armada com o Ocidente, mas não se sabe se Putin se contentaria com um meio termo. Até agora, nenhum lado cedeu e uma solução diplomática parece emperrada.

 O que está em jogo para os países europeus?

O maior risco para a Europa, principalmente para potências como França, Alemanha e Reino Unido, é a sobrevivência da estrutura de segurança que ajudou a manter a paz no continente desde o fim da 2.ª Guerra. Com essas potências divididas sobre qual a melhor resposta às ameaças de Putin, o conflito também evidenciou as fraturas internas da União Europeia e da Otan. 

Com a saída da chanceler Angela Merkel, que cresceu no leste da Alemanha na época da Guerra Fria, fala russo fluentemente e desenvolveu uma boa relação com Putin, a Europa perdeu um interlocutor inestimável com Moscou. Seu sucessor, Olaf Scholz, foi criticado por não assumir um papel de destaque na crise. A Europa tem importantes laços comerciais com a Rússia e perderia muito mais do que os EUA com as sanções impostas após a invasão russa da Ucrânia. Também depende do fornecimento de gás russo, uma fraqueza que Putin explorou em disputas anteriores.

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04/02/2022

Um histórico da atual crise

Putin começou a mobilizar tropas na fronteira no fim de novembro. A partir de janeiro, as tensões cresceram, com os Estados Unidos alertando para a iminência de um ataque russo. Depois de a Ucrânia sinalizar que poderia desistir da Otan, a Rússia prometeu retirar tropas da fronteira - o que não foi corroborado pela Otan e os EUA.

Em 17 de fevereiro, foram registradas explosões no leste da Ucrânia, que levaram os EUA a denunciar uma tentativa russa de arrumar um pretexto para a invasão. No dia seguinte, o presidente americano Joe Biden, afirmou que dados de inteligência do governo americano indicam que Putin decidiu invadir a Ucrânia. 

 

 

Migrantes se aglomeram para pegar lenha em caminhão em acampamento montado na fronteira entre Polônia e Belarus, em novembro de 2021. Foto: Ramil Nasibulin/BelTA pool photo via AP

Por que as negociações não avançam?

Integrantes do primeiro escalão do governo russo, incluindo Putin, defendem a teoria de que a não-expansão do bloco em direção a Rússia foi uma garantia negociada durante a dissolução da União Soviética. Segundo a narrativa russa, James Baker, o secretário de Estado americano nos últimos dias da Guerra Fria, teria negado a possibilidade de expansão da Otan rumo à Europa Oriental quando atuou como o principal diplomata de George H.W. Bush. O fracasso do Ocidente em cumprir esse acordo, segundo o argumento russo, é a causa real da crise que atinge a Europa.

Mas os registros oficiais sugerem que essa é uma narrativa parcial do que realmente aconteceu, usada para justificar agressões russas. De fato, houve discussões entre Baker e o líder soviético Mikhail Gorbachev nos meses posteriores à queda do Muro de Berlim, em 1989, sobre os limites à jurisdição da Otan após a reunificação da Alemanha, porém nenhuma  promessa foi feita no acordo final assinado por russos, americanos e europeus.

Por outro lado, a Rússia violou um acerto que o país realmente fez, relacionado à Ucrânia. Em 1994, depois do fim da União Soviética, o governo russo assinou um acordo com os EUA e Reino Unido, chamado de Memorando de Budapeste, pelo qual a agora independente Ucrânia abria mão de 1,9 mil ogivas nucleares em troca de um compromisso por parte de Moscou de "respeitar a independência, a soberania e as fronteiras da Ucrânia" e de "evitar o uso da força" contra o país.

A Rússia violou a soberania quando anexou a Crimeia e patrocinou forças aliadas em uma guerra contra o governo de Kiev no Leste ucraniano.

Tensão no leste europeu

Fonte: NYT

Como a Rússia e a Ucrânia são ligadas historicamente?

Os laços históricos remontam ao século 9, quando o povo Rus mudou sua capital para Kiev - um legado que o presidente Putin invoca com frequência ao argumentar que a Ucrânia é ligada à Rússia. A Ucrânia fez parte da União Soviética até declarar independência, em agosto de 1991.O território ucraniano serviu como parte estratégica da União Soviética, com grande indústria agrícola e importantes portos no Mar Negro.

A conexão histórica entre os países ainda está presente retoricamente nessas tensões. “Estou confiante de que a verdadeira soberania da Ucrânia somente é possível por meio da parceria com a Rússia”, escreveu Putin em julho. “Juntos sempre fomos e sempre seremos muito mais fortes e bem-sucedidos. Porque somos um só povo.”

De acordo com um censo de 2001, mais de 50% da população da Crimeia e de Donetsk identificaram o russo como sua língua nativa (a Ucrânia não realizou nenhum outro censo mais recentemente). Putin afirma estar defendendo os direitos dos habitantes de língua russa dessas regiões.

Cerco militar

Rússia mobiliza tropas ao redor do território ucraniano; Otan tem 40 mil militares para serem mobilizados rapidamente em caso de crise na Europa

Nota: *Só Esquadra do Mar Negro

Fonte: BBC, FT, The Guardian, GN

 

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O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos para evitar um aprofundamento das tensões

Redação - O Estado de S.Paulo

A crise envolvendo a UcrâniaRússia, os Estados Unidos e a Otan tem origem no fim da Guerra Fria. Com o colapso dos regimes comunistas no Leste Europeu, a aliança militar entre europeus e americanos avançou rumo a leste, com países que antes eram da esfera soviética passando à zona de influência ocidental.  Na madrugada desta quinta-feira, 24, o presidente  Vladimir Putin decidiu atacar a Ucrânia, após três meses de pressão militar. 

Com a ascensão de ao poder de Putin na Rússia, em 2000, lentamente começou uma reação russa no sentido de conter essa expansão para o leste. Isso ocorreu porque, para Putin, é fundamental uma espécie de 'zona-tampão' entre a Rússia e o Ocidente para a defesa estratégica de seu país.

Diante disso, primeiro, o Kremlin trabalhou para desestabilizar governos pró-Ocidente na Ucrânia e no Caucaso, ainda na primeira década deste século. A partir de 2007, a preocupação de Putin com o avanço da Otan o levou a operações militares contra a Geórgia, em 2008, e contra a Ucrânia, com a anexação da Crimeia em 2014. 

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No fim de 2021, Putin mobilizou militares e linhas de suprimento na fronteira, para pressionar a Otan a desistir de avançar para as ex-repúblicas soviéticas, e até mesmo, a retirar tropas de países como Bulgária e Romênia

Tanque russo dispara durante exercício militar perto da cidade Rostov, na fronteira com a Ucrânia  Foto: AP

Por que Putin decidiu ameaçar a Ucrânia agora?

Putin  considera expansão da Otan para o leste uma ameaça existencial à Rússia. Nos últimos anos, ele tem reconstruído o poderio militar russo e reafirmado sua importância geopolítica na região.

Conforme a força bélica russa cresceu, suas ameaças tornaram-se mais intensas. As bases de mísseis da Otan na Polônia também são descritas por ele como uma ameaça. Além disso, Putin insiste que Ucrânia e Belarus, historicamente e do ponto de vista cultural, são partes da Rússia.

Aos 69 anos, Putin tem como objetivo redesenhar as fronteiras geopolíticas da era soviética, com a Ucrânia retornando à área de influência russa. Menos claro é como ele pretende fazer isso por meio da força. O custo de uma intervenção militar seria alto, seja por sanções ou até mesmo com uma resposta armada com o Ocidente, mas não se sabe se Putin se contentaria com um meio termo. Até agora, nenhum lado cedeu e uma solução diplomática parece emperrada.

 O que está em jogo para os países europeus?

O maior risco para a Europa, principalmente para potências como França, Alemanha e Reino Unido, é a sobrevivência da estrutura de segurança que ajudou a manter a paz no continente desde o fim da 2.ª Guerra. Com essas potências divididas sobre qual a melhor resposta às ameaças de Putin, o conflito também evidenciou as fraturas internas da União Europeia e da Otan. 

Com a saída da chanceler Angela Merkel, que cresceu no leste da Alemanha na época da Guerra Fria, fala russo fluentemente e desenvolveu uma boa relação com Putin, a Europa perdeu um interlocutor inestimável com Moscou. Seu sucessor, Olaf Scholz, foi criticado por não assumir um papel de destaque na crise. A Europa tem importantes laços comerciais com a Rússia e perderia muito mais do que os EUA com as sanções impostas após a invasão russa da Ucrânia. Também depende do fornecimento de gás russo, uma fraqueza que Putin explorou em disputas anteriores.

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04/02/2022

Um histórico da atual crise

Putin começou a mobilizar tropas na fronteira no fim de novembro. A partir de janeiro, as tensões cresceram, com os Estados Unidos alertando para a iminência de um ataque russo. Depois de a Ucrânia sinalizar que poderia desistir da Otan, a Rússia prometeu retirar tropas da fronteira - o que não foi corroborado pela Otan e os EUA.

Em 17 de fevereiro, foram registradas explosões no leste da Ucrânia, que levaram os EUA a denunciar uma tentativa russa de arrumar um pretexto para a invasão. No dia seguinte, o presidente americano Joe Biden, afirmou que dados de inteligência do governo americano indicam que Putin decidiu invadir a Ucrânia. 

 

 

Migrantes se aglomeram para pegar lenha em caminhão em acampamento montado na fronteira entre Polônia e Belarus, em novembro de 2021. Foto: Ramil Nasibulin/BelTA pool photo via AP

Por que as negociações não avançam?

Integrantes do primeiro escalão do governo russo, incluindo Putin, defendem a teoria de que a não-expansão do bloco em direção a Rússia foi uma garantia negociada durante a dissolução da União Soviética. Segundo a narrativa russa, James Baker, o secretário de Estado americano nos últimos dias da Guerra Fria, teria negado a possibilidade de expansão da Otan rumo à Europa Oriental quando atuou como o principal diplomata de George H.W. Bush. O fracasso do Ocidente em cumprir esse acordo, segundo o argumento russo, é a causa real da crise que atinge a Europa.

Mas os registros oficiais sugerem que essa é uma narrativa parcial do que realmente aconteceu, usada para justificar agressões russas. De fato, houve discussões entre Baker e o líder soviético Mikhail Gorbachev nos meses posteriores à queda do Muro de Berlim, em 1989, sobre os limites à jurisdição da Otan após a reunificação da Alemanha, porém nenhuma  promessa foi feita no acordo final assinado por russos, americanos e europeus.

Por outro lado, a Rússia violou um acerto que o país realmente fez, relacionado à Ucrânia. Em 1994, depois do fim da União Soviética, o governo russo assinou um acordo com os EUA e Reino Unido, chamado de Memorando de Budapeste, pelo qual a agora independente Ucrânia abria mão de 1,9 mil ogivas nucleares em troca de um compromisso por parte de Moscou de "respeitar a independência, a soberania e as fronteiras da Ucrânia" e de "evitar o uso da força" contra o país.

A Rússia violou a soberania quando anexou a Crimeia e patrocinou forças aliadas em uma guerra contra o governo de Kiev no Leste ucraniano.

Tensão no leste europeu

Fonte: NYT

Como a Rússia e a Ucrânia são ligadas historicamente?

Os laços históricos remontam ao século 9, quando o povo Rus mudou sua capital para Kiev - um legado que o presidente Putin invoca com frequência ao argumentar que a Ucrânia é ligada à Rússia. A Ucrânia fez parte da União Soviética até declarar independência, em agosto de 1991.O território ucraniano serviu como parte estratégica da União Soviética, com grande indústria agrícola e importantes portos no Mar Negro.

A conexão histórica entre os países ainda está presente retoricamente nessas tensões. “Estou confiante de que a verdadeira soberania da Ucrânia somente é possível por meio da parceria com a Rússia”, escreveu Putin em julho. “Juntos sempre fomos e sempre seremos muito mais fortes e bem-sucedidos. Porque somos um só povo.”

De acordo com um censo de 2001, mais de 50% da população da Crimeia e de Donetsk identificaram o russo como sua língua nativa (a Ucrânia não realizou nenhum outro censo mais recentemente). Putin afirma estar defendendo os direitos dos habitantes de língua russa dessas regiões.

Cerco militar

Rússia mobiliza tropas ao redor do território ucraniano; Otan tem 40 mil militares para serem mobilizados rapidamente em caso de crise na Europa

Nota: *Só Esquadra do Mar Negro

Fonte: BBC, FT, The Guardian, GN

 

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