Ariana Drehsler / AFP
Ariana Drehsler / AFP

Entenda a crise migratória México-EUA e o que mudou nos últimos anos

No passado, imigrantes ilegais eram em sua maioria homens solteiros mexicanos, mas esse não é mais o cenário

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2019 | 11h55

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou frear a chegada de imigrantes sem documentos ao ampliar medidas de segurança na fronteira, limitar os que estão aptos a pedir refúgio e separar temporariamente as crianças imigrantes de seus pais na fronteira. Dados divulgados na terça-feira 5 sugerem que essas medidas não estão funcionando para inibir milhões de pessoas que tentam chegar ao território americano.

Na realidade, após cair para o menor número registrado nas últimas cinco décadas, o total de imigrantes capturados na fronteira sul do país - o melhor indicador de quantos ilegais entram nos EUA - vem subindo de novo. As patrulhas fronteiriças prenderam quase o dobro de pessoas (268.044) nos primeiros cinco meses deste ano fiscal (que começa em outubro) do que o registrado no mesmo período do ano anterior. Entenda abaixo o que mudou nos últimos anos.

A maioria dos imigrantes que tenta chegar aos EUA é mexicana?

Os imigrantes sem documentos eram majoritariamente homens solteiros mexicanos que entravam ilegalmente no país para procurar trabalho e enviar dinheiro à família. Mas a imigração oriunda do México diminuiu nos últimos anos. Na verdade, cada vez mais mexicanos estão deixando os EUA. Eles estão menos convencidos a rumar ao território americano porque há mais oportunidades em seu próprio país e têm famílias menores para sustentar.

As famílias da América Central se tornaram o novo rosto da imigração ilegal. Nos primeiros cinco meses do ano fiscal, a patrulha da fronteira deteve 136.150 pessoas que viajavam com os filhos, em comparação às 107.212 presas durante todos o ano fiscal de 2018. Essa tendência começou quando Barack Obama era presidente e continuou, mesmo após cair temporariamente durante o primeiro ano de Trump no governo.

Os imigrantes deixam seus países para fugir da pobreza?

Muitas pessoas que moram em países da América Central vivem com medo, já que El Salvador, Honduras e Guatemala contam com as maiores taxas de homicídio do mundo. Os imigrantes relatam que enfrentam extorsão e querem evitar que seus filhos sejam recrutados por gangues de rua. No entanto, essas taxas têm diminuído nos últimos anos. Além disso, acredita-se que fatores econômicos sejam os mais importantes motivadores dos que deixam esses países.

Mais de 90% dos imigrantes que chegaram aos EUA nos últimos tempos são da Guatemala, segundo dados divulgados recentemente. A maioria é oriunda de regiões empobrecidas ou que sofrem com conflitos sobre direito de terra, mudanças climáticas e queda dos preços de produtos como milho e café, o que está prejudicando a sobrevivência de fazendeiros.

Eles viajam com os filhos para evitar prisão?

Os imigrantes geralmente não entendem muito das leis migratórias americanas, mas parecem saber o básico sobre elas. A maioria sabe pedir refúgio na fronteira, seja em um porto oficial ou quando se rendem aos agentes fronteiriços logo após cruzar a fronteira do México com os EUA. Eles sabem que provavelmente não ficarão detidos se viajarem com os filhos e têm uma chance melhor de evitar a deportação quando chegam com eles.

Pela lei, o governo não pode manter as famílias de imigrantes em instalações de detenção na fronteira por mais de 72 horas. Eles devem ser transferidos para um local adequado a crianças ou então soltá-los.

O governo tem liberado semanalmente centenas de imigrantes detidos em razão da falta de leitos nas instalações de detenção familiares. Os três centros residenciais familiares da Imigração e Alfândega dos EUA - dois no Texas e um na Pensilvânia - têm capacidade para acomodar 3.326 pais e filhos. A maior parte dos imigrantes chega ao Estado do Texas, mas aparentemente há um número crescente de pessoas que entram por áreas remotas do Arizona e do Novo México.

A política de "tolerância zero" de Trump funcionou?

Em meados de 2018, a gestão Trump tentou desencorajar os pais de viajarem com crianças ao processar todos que cruzassem a fronteira ilegalmente, mesmo aqueles que estivessem com seus filhos - política que ficou conhecida como de "tolerância zero". A medida resultou em menores sendo separados de seus pais e colocados em abrigos pelo país. 

A prática despertou diversas críticas pelo mundo, o que levou o presidente a interrompê-la no fim de junho. Mas funcionários da Alfândega e Proteção das Fronteiras acreditam que as várias decisões legais que impediam as famílias de serem detidas ajudaram a fortalecer a mensagem aos contrabandistas - que vagam por vilarejos se oferecendo para levar pessoas ao EUA - de que adultos que chegam com os filhos estão protegidos da deportação.

Afinal, é fácil conseguir refúgio nos EUA?

Apesar de entrarem no país por áreas remotas ou por um porto de entrada, a maioria dos imigrantes tenta pedir refúgio. Em 2008, cerca de 5 mil requerentes alegaram ter medo de perseguição, o primeiro passo legal em direção à obtenção do benefício, para evitar retornar à sua terra natal. Em 2018, quase 100 mil utilizaram esse artifício.

A gestão Trump defende que as pessoas estão sobrecarregando o sistema do país com alegações inválidas. Nos últimos anos, juízes de imigração concederam menos de 20% dos pedidos, proporção que é ainda menor para pessoas da América Central. Muitos requerentes desses países alegam que têm sido vítimas de gangues, o que é ainda mais difícil de provar do que perseguição política ou de outro tipo. A pobreza não está entre os motivos aceitos para concessão de refúgio. Se tiverem o benefício negado, os requerentes podem ser deportados. Mas já que muitos são liberados enquanto o caso ainda está pendente, alguns nunca retornam à Corte e conseguem escapar da deportação. / NYT

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