Entenda a crise na Costa do Marfim

Impasse começou por recusa de Gbagbo de deixar o poder, apesar de derrotado nas eleições

BBC

06 de abril de 2011 | 16h33

 

ABIDJÃ - Forças leais a Alassane Ouattara estão na maior cidade da Costa do Marfim, Abidjã, onde Laurent Gbagbo permaneceu refugiado até esta segunda-feira, 11, quando foi preso. Apesar de a ONU dizer que ele perdeu as eleições do ano passado no país, Gbagbo se recusava a deixar o poder, o que gerou os conflitos. A Costa do Marfim é o maior produtor mundial de cacau.

 

O que está em jogo?

 

Poder. Laurent Gbagbo se recusou a deixar o cargo de presidente mesmo com a ONU, que ajudou a organizar as eleições de novembro, tendo afirmado que ele perdeu e Alassane Ouattara foi o vencedor. Gbagbo acusou a França, país que colonizou a Costa do Marfim, de tentar usar sua influencia na ONU para tirá-lo do poder e ter vantagens econômicas, mas os argumentos não foram aceitos.

 

 

Analistas dizem que raramente viram unanimidade como a observada na comunidade internacional após as eleições. União Africana (UA), ONU e o organismo dos países da África ocidental, Ecowas, pediram pela saída de Gbagbo e impuseram sanções para forçar a transferência de poder. A UA deu um prazo até 24 de março para a saída de Gbagbo, o que não foi respeitado. Poucos dias depois, forças de Outtara, vindas do norte do país, entraram na cidade de Abidjan.

 

 

Qual o nível de violência das batalhas?

 

É difícil dizer já que a maioria ocorreu em áreas remotas, mas o rápido avanço das tropas pró-Outtara sugere que ocorreu pouca resistência. Ocorreram, no entanto, vários choques violentos e assassinatos em Abidjã nos últimos três meses. A ONU acusou as forças de Gbagbo de atacar áreas consideradas simpatizantes de Outtara. Um grupo pró-Outtara em Abidjã é acusado de assassinar simpatizantes de Gbagbo.

 

A entidade diz que quase 500 pessoas foram mortas e um milhão teriam sido obrigados a deixar suas casas. Agências humanitárias dizem que mais de mil pessoas foram mortas no país na violência que se seguiu às eleições presidenciais de novembro. Muitos têm pouco acesso a comida ou abrigo e vêm vivendo em situação precária.

 

O que acontece agora?

 

No momento, parece que os dias de Gbagbo no poder estão contados, embora ele siga refugiado na residência presidencial e se recuse a deixar o poder.

O Tribunal Internacional Penal analisa a possibilidade de que tenham ocorrido crimes contra a humanidade. Por isso, Gbagbo pode evitar fugir para algum país ocidental de onde seria extraditado, tendendo a permanecer em alguma nação africana.

Ele sempre foi aliado próximo do presidente de Angola, José Eduardo dos Santos e analistas acreditam que o país poderia ser um destino natural.

 

Qual o pano de fundo?

 

Há uma década, a Costa do Marfim era considerada um país pacífico e próspero da África ocidental. Mas a nação sempre teve profundas divisões étnicas, religiosas e econômicas. Sua indústria de cacau proporcionava um padrão de vida melhor do que em outras nações africanas, portanto imigrantes de alguns dos países mais pobres do mundo, como Mali e Burkina Faso, foram atraídos para lá. Alguns desses imigrantes compartilhavam laços étnicos com habitantes do norte da Costa do Marfim, incluindo o islamismo.

 

Muitos dos habitantes do sul, estimulados por políticos populistas, passaram a se ressentir dos estrangeiros e dos moradores do norte.

 

Qual foi a reação dos habitantes do norte?

 

Eles reclamaram de discriminação. O muçulmano Outtara, mesmo tendo sido premiê no passado, foi impedido de concorrer em eleições presidenciais anteriores sob a alegação de que seus pais teriam vindo de Burkina Faso,

 

Muitos habitantes do norte tinham ainda grandes dificuldades em conseguir documentos de identidade ou o direito ao voto. Em 2002, alguns soldados do norte do país abandonaram o Exército e marcharam rumo a Abidjã. Eles estavam prestes a tomar o país quando foram impedidos por soldados franceses e cerca de nove mil tropas de paz da ONU. O país foi então dividido entre norte e o sul, divisão que as eleições deveriam sepultar. Mas o pleito acentuou as divisões, embora pareça que estas devam chegar ao fim em breve.

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