AP Photo/Markus Schreiber
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Entenda a crise política na Alemanha e suas consequências

O partido de Angela Merkel, a CDU, dominante na política alemã, está em crise por causa de uma aliança com a extrema-direita e a queda em série de líderes partidários

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2020 | 11h39

A Alemanha se afundou em uma crise política na última semana, quando membros da União Democrática Cristã (CDU, na sigla em alemão) - o partido conservador da chanceler Angela Merkel, que tem governado e moldado o país em 50 dos últimos 70 anos - desafiaram a determinação do partido e cooperaram com o Alternativa para a Direita (AfD), de extrema-direita, para eleger o líder regional do Estado da Turíngia.

O movimento inesperado acendeu os holofotes sobre a inabilidade de Annegret Kramp-Karrenbauer, a líder do CDU, de fazer com que os congressistas sigam a determinação do partido.

O cenário também reflete as profundas mudanças na política alemã, assim como as divisões internas do CDU, que ainda se decide se continuará no caminho centrista de sua antiga líder e atual chanceler, Angela Merkel, ou se vai aderir mais vigorosamente ao conservadorismo, com a esperança de recuperar parte dos milhões de votos perdidos para a AfD.

Quem é Annegret Kramp-Karrenbauer?

Aos 57 anos, a líder partidária deveria ser o meio pelo qual Merkel poderia elegantemente se retirar das atividades políticas e do partido. Ela não apenas assumiria as rédeas do partido e, por extensão, seria a principal candidata a assumir a chancelaria, preservando o legado de Merkel.

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Pelo menos é o que a atual chanceler esperava. AKK, como também é conhecida, era uma figura discreta quando venceu por pouco as eleições do partido, em dezembro de 2018. Como experiência política anterior, ela atuou por menos de um ano como deputada e governou o estado alemão de Saarland.

Ela era popular?

Os eleitores alemães nunca foram favoráveis a Kramp-Karrenbauer se tornar chanceler, o que fez com que ela tivesse uma caminhada difícil, sofrendo com algumas gafes embaraçosas, incluindo uma piada sobre banheiros unissex e comentários sobre fake news, nos quais ela foi forçada a se justificar. O mais importante, contudo, é que ela falhou na tentativa de unir o partido em um dos pontos mais polêmicos: imigração.

Alas do partido criticam a política de portas-abertas para refugiados bancada por Merkel desde 2015, o que ajudou a ascensão da AfD. Enquanto o partido enfrentava a questão, um grande número de eleitores migrou para partidos como o AfD e os verdes.

Por que ela foi forçada a renunciar?

Kramp-Karrenbauer disse que não tinha total apoio do partida, e isso foi confirmado pelos eventos na Turíngia, onde ela expressamente ordenou que os delegados do CDU não cooperassem com a AfD, mas eles fizeram isso de toda maneira.

A queda continuou quando AKK convocou novas eleições no Estado, mas foi ignorada pelos líderes locais. Ela não tinha muita opção senão resignar. Seus rivais dentro do partido deixaram claro que eles não dariam suporte a ela, e espera-se que eles concorram pela vaga que era dela.

Angela Merkel ainda está no comando?

Ela continua sendo a chanceler e se mantém como a política mais poderosa da Alemanha. Mas o fato de seus planos de sucessão terem falhado significa que ela perde poder a cada momento.

A renúncia de Kramp-Karrenbauer pode acelerar a saída de Merkel, porque ela é vista, pelo menos em parte, como culpada pelo desastre político: com Merkel no escritório do partido, AKK inevitavelmente perdia autoridade por não ter a palavra final sobre a política do partido.

Mas os Sociais-democratas, parceiros da CDU na grande coalizão que governa o país, tem dito que vão romper com a aliança em caso de Merkel ser retirada do cargo antes do previsto. Por isso, o mais provável é que a chanceler siga no cargo até 2021.

Quem será o substituto de Angela Merkel?

Existem três favoritos para ocuparem o lugar de Kramp-Karrenbauer. Um é Friedrich Merz, proeminente membro do CDU que em dezembro de 2018 fez campanha para levar o partido para a direita e, por pouco, perdeu para AKK.

Ele culpa Merkel por criar uma cultura de evitar conflitos, o que levou a uma repressão de aspirações políticas que couberam exatamente no AfD. Em uma pesquisa, 13% dos alemães falaram que conseguem imaginá-lo como chanceler.

Jens Spahn, o ministro da saúde, ficou em terceiro na eleição de 2018. Aos 39 anos, o candidato mais jovem já criticou Merkel anteriormente pela política de refugiados defendida por ela. A última pesquisa mostrou que ele teria apoio de apenas 4,7% dos votos.

Armin Laschet é o governador da Renânia-Westfália e o candidato mais cotado para continuar pelo caminho moderado de Merkel. Ao contrário dos outros dois, ele ainda tem que deixar claro quais são suas intenções.

O que aconteceria se as eleições na Alemanha fossem amanhã?

As últimas prévias realizadas pela Statista mostraram que o CDU venceria as eleições, com 27% a 29% dos votos. O Partido Social-Democrata (SPD) receberia entre 13% e 14% e os Verdes entre 20% e 24%. A AfD conseguiria entre 10% e 15%, enquanto o Die Linke (“A Esquerda”, em alemão) e o Partido Liberal (FDP) receberiam de 6% a 9% dos votos.

Isso significa que a grande coalizão, quando os dois partidos mais votados governam juntos, só conseguiria continuar como um governo-minoritário. Uma das possibilidades seria a chamada ‘coalizão Jamaica’, que incluiria CDU, Verdes e FDP. No entanto, as conversas para essa formação foram encerradas em 2017./AFP e REUTERS  

 

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