Entenda a crise pós-eleitoral do Quênia

Oposição contesta reeleição do presidente Mwai Kibaki; violência é incrementada por rivalidades tribais

16 de janeiro de 2008 | 16h48

Centenas de pessoas morreram ou ficaram feridas em confrontos em diversas cidades do país e dezenas de milhares foram obrigadas a deixar suas casas para fugir da violência que atinge o Quênia desde o início do mês de janeiro, após a confirmação da reeleição de Mwai Kibaki, atual presidente do país. O líder da oposição Raila Odinga contesta o resultado, que também foi questionado por observadores da União Européia (UE).  Kibaki chegou ao poder em 2002 prometendo "limpar" o Quênia após 40 anos de governo de dois homens do mesmo partido. O pleito foi amplamente elogiado, contrastando com eleições anteriores. O presidente do Quênia na época, Daniel arap Moi, concordou em deixar o poder depois de 24 anos de governo. O candidato apoiado pelo presidente também aceitou a derrota. Mas em 2007 a situação parece ter regredido. Observadores eleitorais da UE criticaram a apuração dos votos. Segundo eles, alguns dos resultados lidos em Nairóbi diferiam dos números declarados nas sessões eleitorais. Há ainda a suspeita de que eleitores "fantasmas" também foram às urnas. Em algumas áreas, o comparecimento ultrapassou os 115%. Mas além da questão política, os embates entre seguidores de Kibaki e Odinga possuem também um forte componente étnico, já que as rivalidades entre as diferentes tribos do país são uma realidade da vida no Quênia. Os 36 milhões de quenianos se dividem em mais de 40 grupos étnicos distintos. Segundo estatísticas do governo, os principais grupos são: os kikuyu (22% da população), luhya (14%), luo (13%), kalenjin (12%) e kamba (11%).  O atual presidente Kibaki é kikuyu, grupo que vive principalmente no planalto central do país e que exerce forte poder econômico. Já o oposicionista Odinga é da etnia luo, natural do oeste do Quênia. A base eleitoral de Odinga em Nairóbi fica em Langata e inclui uma das maiores favelas da África, cuja população luo é fanaticamente ligada a ele.  Embora elogiado internacionalmente por permanecer em relativa paz desde sua independência, em 1963, o Quênia também costuma ser criticado por não ter se esforçado para resolver os tribalismos arraigados na população. Enfrentamentos étnicos são comuns no Quênia, especialmente em épocas de eleição. Os piores incidentes ocorreram em 1992, quando cerca de 1.500 pessoas morreram em disputas fundiárias motivadas por questões tribais na região do vale Rift. Cinco anos mais tarde, outras 200 pessoas morreram, principalmente em choques na cidade turística de Mombasa.  Onda de violência No dia 30 de dezembro de 2007, a Comissão Eleitoral deu a vitória ao presidente, Mwai Kibaki, reeleito para um segundo mandato de cinco anos. Mais de 600 pessoas morreram e 250 mil se tornaram refugiadas por causa dos distúrbios iniciados depois que o candidato derrotado Raila Odinga acusou o presidente Mwai Kibaki de ter cometido fraude na votação que o reelegeu, em 27 de dezembro. No dia 1 de janeiro, um grupo invadiu a aldeia de Kiambaa, no vale do Rift, e atacou membros da etnia kikuyu, do presidente Mwai Kibaki. A multidão trancou dezenas de pessoas numa igreja em que haviam se refugiado, bloqueou a porta com um colchão e ateou fogo, segundo moradores. Cerca de 30 pessoas morreram queimadas, enquanto os agressores perseguiam outras pelos campos, atacando-as com facões.  O presidente do Quênia, Mwai Kibaki, disse no dia 5 de janeiro que estaria pronto para formar um governo de união nacional com a oposição. A declaração fez parte de um comunicado oficial divulgado após ele ter se encontrado com uma enviada diplomática dos Estados Unidos, Jendayi Frazer. Odinga rejeitou uma proposta de Kibaki e disse que um governo de unidade seria "enganar os quenianos, afastando-os seus direitos". Kibaki então anunciou parte dos ministros de seu novo gabinete de governo, nove dias depois da eleição que gerou uma grave crise política. Logo após o anúncio, ocorreram relatos de tumulto na cidade de Odinga, Kisumu. A polícia teria dado tiros ao alto em meio à multidão que estava nas ruas. Os novos parlamentares tomaram posse no dia 15 de janeiro. Durante a sessão, os políticos de oposição voltaram a ofender os representantes do partido do governo. Para eles, caso o voto para presidente do Parlamento seja secreto, o governo poderá cometer fraude na eleição. A oposição saiu vitoriosa na votação para eleger o presidente do Parlamento, o terceiro homem na linha de poder do país. Kenneth Marende, do principal partido de oposição, foi eleito com apenas quatro votos de vantagem em uma sessão marcada por tumultos. Depois da vitória, o parlamentar eleito, Kenneth Marende, disse à BBC que a ODM tinha direito constitucional de iniciar os protestos contra a eleição do presidente Mwai Kibaki. A polícia então usou gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar manifestantes em várias cidades do Quênia, o primeiro dos três dias de protestos convocados pela oposição. Um ativista foi morto, segundo testemunhas.

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